Em Salvador, um advogado e empresário de 35 anos percorre, eleição após eleição, o mesmo caminho de quem recusa a escolha imposta: nem Lula, nem Bolsonaro. Depois de duas apostas em Ciro Gomes, Lucas Cintra encontra em Augusto Cury não uma convicção plena, mas uma saída possível — a de um candidato bem-intencionado num cenário que ele considera sem boas opções. Sua trajetória revela algo mais amplo sobre o eleitor brasileiro que busca uma terceira via e, ao não encontrá-la consolidada, se vê, no segundo turno, inclinando-se para a oposição que antes rejeitava.
Eleitor que apoiou Ciro Gomes migra para Augusto Cury em busca de alternativa à polarização
Essa micropolítica pode ser tediosa, mas dialoga com as pessoas
Por que Lucas saiu de Ciro Gomes para Augusto Cury? Parecem candidatos bem diferentes.
Não são tão diferentes quanto parecem. Os dois representam uma rejeição à polarização Lula-Bolsonaro. Lucas votou em Ciro duas vezes anulando o segundo turno. Agora vê em Cury a mesma coisa: alguém fora do eixo principal.
Mas Lucas admite que não tem identificação integral com as ideias de Cury. Isso é bem diferente de como ele descreve Ciro. Parece mais um voto de rejeição do que de convicção.
Exatamente. E Lucas reconhece isso. Ele diz que Cury é bem-intencionado, que toca em saúde mental, que tem uma proposta para o STF. Mas não é apaixonado.
E quanto ao segundo turno? Ele disse que desta vez não vai anular.
Isso é o ponto crucial. Ele tende a votar com a oposição, não com Lula. Diz que Lula não traz as soluções que precisa agora.
Mas "tende a votar" é importante. Ele deixa aberta a possibilidade de mudar. E a crítica a Lula é genérica—"não traz soluções"—sem especificar quais seriam essas soluções que ele quer.
Qual é o papel da experiência dele na associação de moradores?
É onde ele encontrou a política que procurava. Não é eleitoral, é prática. Resolveu um problema real—o terreno abandonado virou praça.
Mas isso é micropolítica, como ele mesmo diz. A questão é se essa satisfação com a política local vai influenciar seu voto presidencial ou se são coisas separadas na cabeça dele.
Ele parece estar em transição, não?
Sim. Saiu da frustração com o PSB, passou por Ciro, agora está em Cury. E admite que pode mudar de novo no segundo turno.
O que não sabemos é se essa trajetória representa um padrão maior entre eleitores de classe média em Salvador ou se é específica de Lucas.
Der Puls
- A polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro empurra Lucas Cintra para uma escolha que ele mesmo admite ser incompleta — Augusto Cury é seu candidato, mas não seu ideal.
- A frustração com a política partidária vem de longe: uma experiência mal-sucedida no PSB aos tempos de estudante de direito deixou a marca de uma política mais voltada a cargos do que a cidadãos.
- Cury atrai Lucas menos por suas ideias e mais por seu tom conciliador e por propostas concretas como a reforma do STF com mandatos fixos para ministros.
- No segundo turno, diferentemente de 2018 e 2022, Lucas não deve anular o voto — e tende a votar com a oposição, concluindo que Lula não oferece as soluções que o país precisa agora.
- A política que realmente o mobiliza é a micropolítica do bairro: a associação de moradores que transformou um terreno abandonado em praça e dialoga diretamente com o poder público.
Em Salvador, um advogado e empresário de 35 anos percorre, eleição após eleição, o mesmo caminho de quem recusa a escolha imposta: nem Lula, nem Bolsonaro. Depois de duas apostas em Ciro Gomes, Lucas Cintra encontra em Augusto Cury não uma convicção plena, mas uma saída possível — a de um candidato bem-intencionado num cenário que ele considera sem boas opções. Sua trajetória revela algo mais amplo sobre o eleitor brasileiro que busca uma terceira via e, ao não encontrá-la consolidada, se vê, no segundo turno, inclinando-se para a oposição que antes rejeitava.
Lucas Cintra, 35 anos, advogado e empresário de Salvador, cresceu numa família de empreendedores cujos avós migraram do interior baiano para o comércio da capital. Esse pano de fundo moldou sua visão política: ele valoriza quem construiu algo no setor privado e desconfia da política como carreira. Em Augusto Cury, psiquiatra e escritor pelo Avante, enxerga um homem bem-sucedido fora da política institucional — mesmo reconhecendo que o famoso livro do candidato lhe pareceu "água com açúcar".
Sua relação com partidos foi marcada por decepção. Ainda estudante de direito, filiou-se ao PSB e tentou organizar a juventude do partido em Salvador, mas encontrou uma política obcecada com cargos e eleições, não com problemas reais. Nos anos seguintes, apoiou Ciro Gomes em 2018 e 2022, anulando o voto no segundo turno nas duas ocasiões — recusando tanto Lula quanto Bolsonaro.
Esta eleição repete o padrão do veto duplo, mas com uma diferença importante: Lucas admite não ter identificação plena com Cury. Acompanha o candidato nas redes sociais por vê-lo como conciliador e se interessa especialmente pela proposta de reformar o STF com mandatos fixos para ministros. Para o Senado, escolherá nomes comprometidos com a pauta do impeachment de ministros.
Enquanto a política nacional o decepciona, Lucas encontrou engajamento genuíno na Associação de Moradores do Itaigara. O grupo nasceu para resolver o problema de um terreno abandonado, pressionou a prefeitura e conseguiu a construção de uma praça. Para ele, essa micropolítica — sem glamour, mas concreta — é o que a política deveria ser.
No horizonte do segundo turno, Lucas projeta uma mudança de comportamento: desta vez, tende a votar com a oposição, convencido de que Lula não oferece as soluções necessárias. Sua trajetória resume a de um eleitor que rejeita a polarização, mas que, na hora decisiva, ainda se vê obrigado a escolher um dos lados.
Em uma rua tranquila do bairro de Patamares, em Salvador, uma casa arborizada abriga vários negócios sob o mesmo teto: uma produtora de vídeo, um salão de beleza e um escritório de advocacia. Lucas Cintra, 35 anos, é sócio do escritório, mas a advocacia ficou em segundo plano em sua vida. Solteiro e torcedor do Bahia, ele decidiu empreender abrindo uma consultoria imobiliária, seguindo uma tradição familiar forte nesse setor. Seus avós migraram de Amargosa, no interior baiano, para trabalhar no comércio de Salvador. Seu tio é a principal referência: um self-made man que ascendeu no mercado imobiliário.
Essa trajetória familiar de negócios moldou suas escolhas políticas. Depois de apoiar Ciro Gomes em 2018 e 2022—anulando o voto no segundo turno em ambas as ocasiões—Lucas agora apoia Augusto Cury, psiquiatra, escritor e empresário pelo Avante, na disputa presidencial. Ele vê em Cury alguém que construiu uma carreira bem-sucedida no setor privado. "É um vendedor de livros na sua forma mais simples", diz Lucas, reconhecendo que a literatura de autoajuda pode ser questionável, mas ressaltando que Cury aborda temas importantes sobre saúde pública e saúde mental.
Sua relação com a política institucional, porém, é marcada por frustrações. Em 2015, ainda estudante de direito, Lucas se filiou ao PSB e assumiu a liderança da juventude do partido em Salvador. Passou meses tentando organizar reuniões e mobilizar outros jovens, mas a experiência o deixou desapontado. Encontrou uma política mais preocupada com cargos e votos do que com problemas reais da cidade. "Era uma conversa muito eleitoral e menos cidadã", recorda. Nos anos seguintes, identificou-se com as candidaturas de Ciro Gomes pelo PDT, mas sem manter vínculo formal com o partido. Gostava das ideias de Ciro para o país enquanto rejeitava os dois lados da polarização entre Lula e Jair Bolsonaro.
Sua escolha por Augusto Cury este ano segue caminho semelhante: um veto tanto a Lula quanto ao senador Flávio Bolsonaro. Mas, diferentemente da convicção com que votou em Ciro, desta vez Lucas admite não ter identificação integral com as ideias do candidato. Conheceu o trabalho de Cury há cerca de dez anos ao ler "O Vendedor de Sonhos", livro que não o impressionou: "É um livro bem água com açúcar, sem graça mesmo". Quando soube que Cury entraria na disputa presidencial, achou que seria apenas um teste. Começou a acompanhá-lo nas redes sociais por vê-lo como uma pessoa bem-intencionada com tom conciliador. "Eu nunca vi Augusto Cury ser síndico de prédio, nunca vi ele sendo testado, isso é um fato. Mas Bolsonaro também era assim, não era? O próprio Lula também", observa.
Além das propostas para saúde, chamou sua atenção a agenda de Cury para reformar o STF, com mandatos fixos para ministros e mudanças no sistema de indicação. Lucas é favorável ao impeachment de ministros que tenham cometido crimes, pauta que influenciará seu voto para o Senado. Na Bahia, escolherá o ex-ministro João Roma e o senador Angelo Coronel, ambos comprometidos com essa agenda. Ao analisar os principais candidatos presidenciais, reconhece em Lula uma habilidade fundamental: a capacidade de entender o eleitor e construir alianças. Mas critica sua permanência na política por tantos anos e acredita que Lula deveria ter deixado a vida pública. Rejeita a sucessão política baseada em laços familiares, como no caso dos Bolsonaro, e desaprova o radicalismo do ex-presidente, sua condução da pandemia e as interferências em instituições como a Polícia Federal.
Nos últimos anos, a política retornou à sua vida por outra porta. Foi convidado a participar da Associação dos Moradores do Itaigara, bairro de classe média alta onde mora, e com o tempo passou a integrar a diretoria, ajudando a organizar o estatuto e as pautas da entidade. A associação nasceu de uma mobilização para resolver o problema de um terreno abandonado na vizinhança. Os moradores se juntaram para limpar mato e lixo, pressionaram a prefeitura e o terreno foi destinado à construção da praça Miriam Fraga. Para Lucas, essa experiência se aproxima da participação política que procurava quando se filiou a um partido. Hoje, a associação dialoga com vereadores e deputados para levar demandas do bairro ao poder público. "Essa micropolítica pode muitas vezes ser tediosa, sem nenhum glamour. Mas eu me interesso muito porque é uma política que faz, que dialoga diretamente com as pessoas do bairro. Não é um trampolim para político."
Ao olhar para o cenário presidencial, Lucas considera difícil que Cury rompa a polarização entre Lula e Flávio. Mas, diferentemente das duas últimas eleições, não deve anular o voto no segundo turno desta vez. "Se fosse hoje, viu? Se fosse hoje, mas pode mudar. No segundo, eu tendo a votar com a oposição. A história recente mostra que Lula não traz soluções que a gente precisa ter agora", afirma. Sua trajetória reflete a busca de um eleitor que rejeita a polarização mas, na prática, ainda vê a oposição como alternativa.
Bemerkenswerte Zitate
Era uma conversa muito eleitoral e menos cidadã— Lucas Cintra, sobre sua experiência no PSB
No segundo, eu tendo a votar com a oposição. A história recente mostra que Lula não traz soluções que a gente precisa ter agora— Lucas Cintra, sobre seu voto no segundo turno