Para recorrência sensível à platina, combinações com platina continuam sendo padrão-ouro, com bevacizumabe como estratégia adicional recomendada. Na doença resistente à platina, mirvetuximabe soravtansina e relacorilant + nab-paclitaxel surgem como novas opções, marcando primeira atualização significativa em anos.
ASCO 2026 atualiza tratamento da recorrência do câncer de ovário com novas opções
A individualização do tratamento ganha espaço onde antes havia protocolo único
Por que essa atualização do ASCO importa agora, especificamente? O câncer de ovário recorrente não é novo.
Porque durante anos, especialmente para doença resistente à platina, as opções terapêuticas praticamente não mudavam. Agora há medicamentos novos — mirvetuximabe soravtansina, relacorilant — que oferecem alternativas reais onde antes havia muito pouco.
Mas quantos pacientes realmente se beneficiam? O mirvetuximabe é para FRα positivo, o que limita a população. E relacorilant — há quanto tempo está sendo estudado?
Essas são perguntas justas. O guideline traz essas opções porque a evidência as suporta, mas reconhece que nem todo paciente se encaixa. A individualização é justamente o ponto.
E quanto à cirurgia? Por que a citorredução secundária está perdendo espaço?
Porque não há evidência de que beneficie universalmente. A ASCO diz que pode ser considerada em casos muito selecionados — doença focal, muito tempo desde o tratamento inicial, alta chance de ressecção completa. Mas não é mais padrão.
Então basicamente estão dizendo que cirurgia não funciona em geral, mas pode funcionar em alguns casos. Isso é honesto, mas deixa muita coisa em aberto para o clínico decidir.
Exatamente. E isso reflete a realidade — nem todo caso é igual.
O que mudou sobre o acompanhamento?
A grande mudança é que monitorar CA-125 rotineiramente para iniciar tratamento precocemente não melhora sobrevida e piora qualidade de vida. Então o seguimento deve ser mais individualizado.
Mas o guideline não diz qual é a frequência ideal de consultas ou como fazer esse acompanhamento individualizado. Isso fica em aberto.
Sim, é uma lacuna que o próprio guideline reconhece. E menciona ctDNA como ferramenta futura, mas ainda não há recomendação formal sobre isso.
Então há mais perguntas respondidas, mas também novas perguntas em aberto?
Isso. O guideline avança em alguns pontos — novas drogas, reafirma bevacizumabe — mas é honesto sobre o que ainda não sabemos bem.
Der Puls
- ASCO analisou 819 estudos, mantendo 147 após critérios de elegibilidade, com 36 fornecendo evidência direta
- Para doença sensível à platina, combinações com platina continuam padrão-ouro com bevacizumabe adicional
- Mirvetuximabe soravtansina e relacorilant + nab-paclitaxel são novas opções para doença resistente à platina
- Citorredução secundária perde recomendação universal, reservada apenas a casos selecionados
Para recorrência sensível à platina, combinações com platina continuam sendo padrão-ouro, com bevacizumabe como estratégia adicional recomendada. Na doença resistente à platina, mirvetuximabe soravtansina e relacorilant + nab-paclitaxel surgem como novas opções, marcando primeira atualização significativa em anos.
ASCO lança guideline 2026 sobre tratamento sistêmico da recorrência do câncer de ovário, trazendo novas recomendações para doença sensível e resistente à platina baseadas em 147 estudos.
O câncer de ovário que retorna após tratamento inicial permanece um dos cenários mais complexos da oncologia. Quando a doença reaparece, as opções terapêuticas precisam ser cuidadosamente calibradas — e agora, pela primeira vez em anos, há mudanças significativas no mapa de possibilidades. A Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) acaba de publicar sua versão 2026 do guideline sobre tratamento sistêmico da recorrência do câncer de ovário, um documento que consolida dois anos de novas evidências e oferece respostas mais precisas para dilemas que antes permaneciam em aberto.
Para chegar a essas recomendações, um painel de especialistas começou examinando 819 estudos. Após aplicar critérios rigorosos de elegibilidade, 147 publicações permaneceram na análise — incluindo ensaios clínicos randomizados e revisões sistemáticas. Dessas, apenas 36 forneceram evidência direta suficiente para fundamentar as recomendações finais. O trabalho reflete o esforço de transformar um volume massivo de dados em orientações que os médicos possam realmente usar na prática.
Para pacientes cuja doença é sensível à platina — aqueles cuja recorrência ocorre mais de seis meses após o término da quimioterapia inicial — a mensagem é clara e reafirmada: quando possível, uma combinação contendo platina deve ser o alicerce do tratamento. As opções recomendadas incluem doxorrubicina lipossomal peguilada associada a carboplatina, paclitaxel com carboplatina, ou gemcitabina com carboplatina. A escolha entre elas não é universal, mas sim personalizada. O médico deve considerar toxicidades que a paciente já experimentou, seu estado geral de saúde, se há neuropatia residual dos tratamentos anteriores, e suas preferências. Há uma tendência discreta em direção ao esquema com doxorrubicina lipossomal, principalmente porque seu perfil de efeitos colaterais tende a ser mais tolerável. Além disso, adicionar bevacizumabe — um medicamento que bloqueia a formação de novos vasos sanguíneos — segue sendo uma estratégia recomendada, embora com uma ressalva importante: o benefício demonstrado é principalmente em retardar a progressão da doença, não necessariamente em prolongar a sobrevida global. Quanto aos inibidores de PARP, medicamentos que exploram defeitos no reparo do DNA, o guideline não recomenda a favor nem contra seu uso neste cenário, reconhecendo que seu papel foi mais bem estabelecido na primeira linha de tratamento e que o benefício diminui nas linhas subsequentes.
Para pacientes que responderam bem a um esquema contendo bevacizumabe, a recomendação é manter esse medicamento — uma indicação que já estava consolidada e agora é reafirmada. Porém, uma mudança importante diz respeito à cirurgia de citorredução secundária, aquela em que o cirurgião tenta remover o máximo possível de tumor na recorrência. A ASCO conclui que não há evidência suficiente para recomendar essa cirurgia universalmente. Ela pode ser discutida, sim, mas apenas em casos muito selecionados — quando há probabilidade significativa de remover completamente toda a doença visível, especialmente quando a recorrência é focal, limitada e ocorreu muito tempo após o tratamento inicial. Quanto à HIPEC, uma técnica que combina quimioterapia com calor durante a cirurgia, o guideline permanece neutro: não há evidência suficiente para recomendar a favor ou contra, refletindo a heterogeneidade dos estudos disponíveis e a dificuldade de generalizar resultados de populações altamente selecionadas.
O cenário mais transformado é o da doença resistente ou refratária à platina — aquela que retorna durante o tratamento ou logo após seu término. Durante anos, as opções aqui eram limitadas e pouco mudavam. Agora, há novidades concretas. O mirvetuximabe soravtansina surge como opção para pacientes com tumores de alto grau que expressam positivamente o receptor de folato alfa (FRα), uma aprovação que já ocorreu no Brasil. A combinação de relacorilant com nab-paclitaxel também é apontada como possibilidade, independentemente de marcadores específicos. Quando essas medicações não estão disponíveis, o guideline mantém as recomendações anteriores: quimioterapia em monoterapia ou associada a bevacizumabe. Essa abertura para novas agentes marca a primeira atualização significativa neste cenário em anos.
O documento também aborda o acompanhamento após o tratamento. Uma recomendação importante é que o monitoramento rotineiro do marcador CA-125 com o objetivo de iniciar tratamento precocemente baseado apenas em elevação bioquímica pode prejudicar a qualidade de vida sem demonstrar benefício em sobrevida global. A estratégia de seguimento deve ser individualizada, e o guideline reconhece lacunas importantes — especialmente quanto à frequência ideal de consultas e ao papel futuro de ferramentas como ctDNA, um marcador de tumor circulante no sangue.
O que emerge dessa atualização é um retrato da oncologia moderna: a introdução de novos agentes no cenário platino-resistente, o aumento do uso de biomarcadores para guiar decisões, e uma tendência clara em direção à individualização do tratamento. Ao mesmo tempo, estratégias cirúrgicas perdem espaço, reservadas agora apenas para casos muito específicos. Para os médicos que tratam câncer de ovário, o guideline oferece mais clareza em alguns pontos e reconhece honestamente as incertezas que ainda permanecem.
Bemerkenswerte Zitate
Quando possível, deve-se utilizar uma combinação contendo platina para pacientes com recorrência sensível à platina— Guideline ASCO 2026 sobre tratamento sistêmico da recorrência do câncer de ovário
O monitoramento rotineiro do CA-125 com objetivo de iniciar tratamento precocemente apenas com base em elevação bioquímica pode piorar aspectos relacionados ao bem-estar e qualidade de vida sem demonstrar benefício em sobrevida global— Guideline ASCO 2026