Em cada geração, a humanidade redesenha o que significa envelhecer — e a ciência, hoje, oferece razões para redesenhá-lo com mais generosidade. Um novo livro de psicólogas brasileiras reúne evidências da neurologia e da psicologia social para argumentar que o declínio cognitivo não é destino inevitável, mas trajetória em grande parte moldada por escolhas, vínculos e propósito. A história de uma arqueóloga que, aos 87 anos, ainda conduz escavações na Grécia, serve de espelho para o que a ciência já comprova: o cérebro que aprende, se conecta e encontra sentido é um cérebro que resiste.
Aprendizado contínuo e vida social são pilares do envelhecimento saudável, aponta novo livro
O cérebro continua capaz de se remodelar, regenerar e fortalecer conexões
Por que o livro escolhe Haiganuch como exemplo de abertura? Há algo específico em sua história que resume a tese?
Ela não apenas desafia o estereótipo — ela o ignora completamente. Continua viajando, ensinando, escavando bem depois dos 80. Mas o ponto não é que ela faz coisas "novas". É que nunca parou de fazer o que a propósito. Isso é diferente de "vá aprender a dançar aos 85". É sobre continuidade de propósito.
Então a neuroplasticidade não é o ponto principal?
É importante, mas não é tudo. A neuroplasticidade explica *como* o cérebro consegue fazer isso — como ele continua capaz de se remodelar. Mas o *por quê* de alguém continuar engajado tem mais a ver com senso de propósito e conexão social do que com aprender coisas novas.
E a depressão? Por que as autoras a destacam tanto?
Porque é um fator de risco modificável para demência. Se você consegue manter a pessoa socialmente conectada, com propósito, a depressão diminui. E quando a depressão diminui, o risco de demência cai. É uma corrente.
Mas e aquele que não consegue corrigir a audição? Fica preso.
Exatamente. A pessoa fica constrangida, se afasta das interações, a região do cérebro responsável pela audição fica menos estimulada — e próxima está a memória. É um ciclo que se reforça negativamente. Por isso corrigir esses déficits é tão importante.
Então o livro está dizendo que envelhecer bem é mais sobre manutenção do que sobre reinvenção?
Não exatamente. É sobre reconhecer que o cérebro continua capaz de mudança, mas que a mudança mais importante é a de perspectiva — sobre si mesmo, sobre o que é possível, sobre quem você é além da idade que tem no documento.
Le Pouls
- A cultura ainda carrega imagens de velhice herdadas de gerações anteriores, criando estereótipos que levam pessoas a abandonarem atividades antes mesmo que o corpo ou a mente as impeçam.
- A depressão e o isolamento social emergem como ameaças tão sérias à saúde cognitiva quanto fatores físicos como hipertensão e diabetes — e, ao contrário do que se pensa, são modificáveis.
- A Comissão Lancet identificou 14 fatores de risco controláveis que, juntos, poderiam prevenir mais da metade dos casos de demência no mundo — uma descoberta que desloca o foco do fatalismo para a agência individual.
- O conceito de idade subjetiva — a idade que a pessoa sente ter — ganha peso científico: quem se identifica como mais jovem do que o documento indica tende a manter maior senso de controle e bem-estar.
- O livro 'Longevidade Hoje' propõe que o envelhecimento saudável não depende apenas de aprender coisas novas, mas de permanecer conectado, sentir-se útil e cultivar propósito — uma visão que integra neurologia, psicologia e vida social.
Em cada geração, a humanidade redesenha o que significa envelhecer — e a ciência, hoje, oferece razões para redesenhá-lo com mais generosidade. Um novo livro de psicólogas brasileiras reúne evidências da neurologia e da psicologia social para argumentar que o declínio cognitivo não é destino inevitável, mas trajetória em grande parte moldada por escolhas, vínculos e propósito. A história de uma arqueóloga que, aos 87 anos, ainda conduz escavações na Grécia, serve de espelho para o que a ciência já comprova: o cérebro que aprende, se conecta e encontra sentido é um cérebro que resiste.
Aos 87 anos, a professora aposentada de arqueologia Haiganuch Sarian ainda viaja para escavações na ilha grega de Delos, levando estudantes ao campo. Sua trajetória abre o livro 'Longevidade Hoje', das psicólogas Sharon Sanz Simon e Ilana Pinsky, publicado pela Fósforo — uma obra que parte de uma constatação direta: nossa referência cultural sobre envelhecimento está desatualizada.
Ao longo de 11 capítulos, as autoras exploram a diferença entre idade cronológica e idade subjetiva. A primeira, carregada de estereótipos, pode levar alguém a desistir de atividades com a justificativa de que 'não tem mais idade para isso'. A segunda oferece maior sensação de controle sobre a própria vida. Simon aponta que, enquanto a medicina aumentou significativamente a expectativa de vida, a percepção cultural do envelhecimento não acompanhou esse avanço.
No centro do livro está a neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de formar novas conexões neurais mesmo após os 80 anos. 'Não é igual ao cérebro de uma criança, mas a capacidade de se remodelar ainda está lá', explica Simon. Aprender um novo idioma, por exemplo, é uma forma de acionar esse mecanismo.
Mas Pinsky vai além dos aprendizados novos. O caso de Haiganuch, argumenta ela, tem menos a ver com atividades inéditas e mais com a manutenção de um senso de propósito. A depressão é apontada como um dos maiores fatores de risco para demência. A Comissão Lancet identificou 14 fatores modificáveis — entre eles inatividade física, isolamento, perda não tratada de audição e visão, hipertensão e tabagismo — que, se controlados, podem prevenir mais de 50% dos casos da doença.
A socialização ocupa lugar central na visão das autoras. Idosos que não tratam déficits sensoriais tendem ao isolamento, o que reduz a estimulação das regiões cerebrais ligadas à memória. A interação social exige do cérebro habilidades complexas, reduz o estresse e fortalece o senso de pertencimento. O que emerge do livro é uma conclusão integradora: envelhecer bem não é apenas aprender coisas novas, mas permanecer conectado, sentir-se útil e continuar engajado com a vida.
Aos 87 anos, Haiganuch Sarian não se encaixa na imagem que a maioria das pessoas tem de uma mulher nessa idade. Professora aposentada de arqueologia pela Universidade de São Paulo, ela começou cedo em seus estudos de clássicos e foi enviada à França por seu professor de grego para aprofundar a formação. Lá completou seu doutorado em arqueologia. Depois que ultrapassou os 80, continuou viajando regularmente para participar de escavações, levando estudantes para trabalhar no campo na ilha grega de Delos. Sua trajetória é um dos exemplos que ilustram o novo livro "Longevidade Hoje", das psicólogas Sharon Sanz Simon e Ilana Pinsky, publicado pela Fósforo.
O livro surge de uma constatação simples mas importante: a referência cultural que temos sobre envelhecimento vem de gerações anteriores e está desatualizada. Ao longo de 11 capítulos, as autoras buscam repensar o que significa envelhecer nos dias de hoje. Um dos conceitos centrais que exploram é a distinção entre idade cronológica — aquela que aparece no documento de identidade — e idade subjetiva, a idade que a pessoa sente ter e com a qual se identifica. Essa diferença não é apenas semântica. A idade cronológica, carregada de estereótipos, pode limitar o comportamento das pessoas. Quando alguém diz "não tenho mais idade para isso", deixa de fazer uma série de coisas. A idade subjetiva, por outro lado, oferece maior sensação de controle sobre a própria vida.
Simon aponta um descompasso importante: enquanto a medicina avançou significativamente e aumentou a expectativa de vida, a percepção cultural do que é envelhecer não acompanhou essas mudanças. O livro conecta essas transformações culturais à neurologia, explicando conceitos fundamentais para compreender o envelhecimento e o funcionamento do cérebro. A neuroplasticidade é um desses conceitos centrais — a capacidade de os neurônios se reconectarem ou formarem novas conexões, como se o cérebro fosse treinado para novos caminhos. Isso ocorre, por exemplo, quando alguém aprende um novo idioma. A compreensão de que o cérebro continua capaz de fazer novas conexões neurais desafia a narrativa de que após entrar na velhice tudo é declínio. "Não é igual ao cérebro de uma criança, mas a capacidade do cérebro de se remodelar, regenerar partes e fortalecer ou enfraquecer certas conexões ainda está lá", explica Simon.
Mas Pinsky chama atenção para algo que vai além dos aprendizados novos: o caso de Haiganuch dialoga menos com atividades inéditas e mais com a manutenção de um senso de propósito na vida. A depressão, segundo a psicóloga, é um grande fator de risco para o desenvolvimento de demência. A Comissão Lancet sobre Demência identificou 14 fatores de risco modificáveis que, se controlados, podem prevenir ou adiar casos da doença. Entre eles estão inatividade física, hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo, uso excessivo de álcool, educação insuficiente, perda não tratada de visão e audição, e níveis elevados de colesterol LDL na meia-idade. O risco é modificável em mais de 50% dos casos de demência se esses 14 fatores forem considerados.
A educação aparece como um desses fatores cruciais. Idosos que não corrigem déficit de audição e visão têm maior probabilidade de isolamento e retração social. Às vezes a constrangimento de ter que explicar que não está ouvindo bem leva a pessoa a se afastar das interações. A própria região temporal do cérebro, responsável pela audição e próxima à área de memória, fica menos estimulada quando há isolamento. Para as autoras, a socialização é um dos principais pilares do envelhecimento saudável. Elas exploram a ideia de saúde social, baseada na conexão, no pertencimento e no suporte. A interação social exige uma série de habilidades do cérebro, como controle de impulsos e desenvolvimento da linguagem. Além disso, a conexão pode reduzir o estresse e o sofrimento emocional. O que emerge do livro é uma visão integrada: não é apenas aprender coisas novas que importa, mas manter-se conectado, sentir-se útil e continuar engajado com a vida.
Citations marquantes
Quando a gente fala 'eu não tenho mais idade para isso', a gente deixa de fazer uma série de coisas— Ilana Pinsky, psicóloga
Não é igual ao cérebro de uma criança, mas a capacidade do cérebro de se remodelar, regenerar partes e fortalecer ou enfraquecer certas conexões ainda está lá— Sharon Sanz Simon, psicóloga