ACG atualiza diretrizes para polipose adenomatosa hereditária com novos critérios

A vigilância endoscópica é personalizada conforme a carga de adenomas, o fenótipo e o genótipo
As novas diretrizes do ACG reconhecem que não existe abordagem única para todos os pacientes com polipose adenomatosa hereditária.
Mark

Por que essas diretrizes importam agora? A polipose adenomatosa hereditária não é nova.

Mimi

Não é, mas o conhecimento sobre quais genes testar, como estratificar o risco e quando intervir cirurgicamente evoluiu bastante. Essas diretrizes consolidam evidência recente e oferecem um caminho claro para médicos que lidam com esses pacientes.

Luke

Mas qual é a qualidade dessa evidência? Você mencionou "certeza muito baixa" várias vezes.

Mimi

Exatamente. Muitas recomendações, especialmente sobre o tipo de cirurgia e o intervalo de vigilância, baseiam-se em estudos pequenos ou observacionais. O método GRADE foi usado para avaliar isso com transparência.

Mark

E quanto ao teste genético? Parece que 20 adenomas é o ponto de corte para recomendação forte.

Mimi

Sim, mas entre 10 e 19 adenomas a recomendação é condicional. Isso significa que o médico e o paciente precisam conversar sobre riscos e benefícios, porque a evidência não é conclusiva.

Luke

No Brasil, o SUS não cobre o teste. Isso não cria um problema de acesso?

Mimi

Cria, e é um ponto crítico. O documento reconhece que os custos são moderados a altos em laboratórios privados, embora alguns centros de referência ofereçam gratuitamente.

Mark

E a quimioprevenção com celecoxibe? Parece uma opção interessante.

Mimi

Parece, mas o documento é honesto: o impacto sobre o risco de progressão para cirurgia ou câncer permanece incerto. Não substitui vigilância ou cirurgia quando indicada.

Luke

Então é um adjuvante experimental, não uma solução.

Mimi

Exatamente. E a vigilância duodenal com Spigelman é bem mais estruturada agora, o que é um avanço real para reduzir o risco de adenocarcinoma do duodeno.

Mark

Qual é o maior desafio prático para um gastroenterologista brasileiro implementar isso?

Mimi

Reconhecer os gatilhos para testagem genética e depois organizar a vigilância conforme o fenótipo. E, claro, lidar com o acesso limitado ao teste genético.

  • Aproximadamente 10% dos cânceres colorretais são hereditários; variantes germinativas encontram-se em 1-2% dos casos
  • PAF ocorre em 1:10.000 pessoas; PAM em 1:40.000
  • Testagem genética fortemente recomendada para ≥20 adenomas acumulados; painel mínimo inclui 17 genes
  • Cirurgia absolutamente necessária com >1.000 adenomas, câncer invasivo confirmado ou adenomas irressecáveis
  • Teste genético não é coberto pelo SUS; custos em laboratórios privados variam de moderado a alto

Cerca de 10% dos cânceres colorretais são hereditários; as duas síndromes mais comuns são PAF (1:10.000) e PAM (1:40.000). Testagem genética é fortemente recomendada para ≥20 adenomas colorretais acumulados; painel deve incluir mínimo 17 genes.

O American College of Gastroenterology divulgou novas diretrizes para manejo da polipose adenomatosa hereditária, abrangendo critérios para testagem genética, vigilância endoscópica, intervenção cirúrgica e quimioprevenção.

O American College of Gastroenterology lançou diretrizes atualizadas para o manejo da polipose adenomatosa hereditária, um conjunto de condições genéticas que elevam dramaticamente o risco de câncer colorretal e exigem vigilância rigorosa ao longo da vida. Essas síndromes, causadas por variantes patogênicas em genes da via de sinalização Wnt-β-catenina, respondem por aproximadamente 10% de todos os cânceres colorretais diagnosticados, embora as variantes germinativas sejam encontradas em apenas 1 a 2% dos casos.

As duas formas mais prevalentes são a polipose adenomatosa familiar (PAF), ligada ao gene APC, e a polipose associada ao MUTYH (PAM). A PAF ocorre em cerca de 1 a cada 10 mil pessoas, enquanto a PAM é mais rara, afetando 1 em 40 mil. O reconhecimento clínico dessas condições começa com sinais de alerta específicos: o acúmulo de 10 ou mais adenomas colorretais ao longo da vida, especialmente quando surgem precocemente; histórico pessoal ou familiar de câncer colorretal documentado em pelo menos três gerações; ou a presença de manifestações fora do intestino, como tumores desmoide, carcinoma cribriforme morular da tireoide ou hepatoblastoma. Quando esses gatilhos aparecem, a testagem genética torna-se essencial.

As novas diretrizes recomendam fortemente um painel multigênico germinativo para indivíduos com 20 ou mais adenomas acumulados, com base em evidência de baixa certeza. Para aqueles com 10 a 19 adenomas, a testagem é sugerida como recomendação condicional. O painel deve incluir no mínimo 17 genes: APC, AXIN2, BMPR1A, EPCAM, GREM1, MLH1, MSH2, MSH3, MSH6, MUTYH, NTHL1, POLD1, POLE, PMS2, PTEN, SMAD4 e STK11. Em famílias onde uma variante já foi identificada, o teste pode ser focado especificamente naquela mutação. No Brasil, o teste genético não é coberto pelo SUS, e os custos em laboratórios privados variam de moderado a alto, embora alguns poucos centros de referência o ofereçam gratuitamente.

O manejo prático combina vigilância endoscópica contínua com intervenção cirúrgica quando necessário. A cirurgia torna-se absolutamente necessária em cinco cenários: câncer colorretal invasivo confirmado; carga extremamente elevada de pólipos, superior a 1 mil adenomas no cólon; adenomas avançados que não podem ser removidos por endoscopia, como lesões com 10 milímetros ou mais ou aquelas com displasia de alto grau; incapacidade de manter vigilância endoscópica adequada; ou manifestações clínicas graves e refratárias, como anemia ferropriva severa por sangramento recorrente, dor abdominal persistente, diarreia ou obstrução intestinal. Para a PAF, quando há mais de 20 adenomas no reto, recomenda-se proctocolectomia total com anastomose ileoanal e reservatório, procedimento que reduz a necessidade de cirurgias futuras e melhora os desfechos relacionados ao câncer retal. Quando há até 20 adenomas retais, sugere-se colectomia total com anastomose ileorretal, priorizando a qualidade de vida pós-operatória. Ambas as recomendações baseiam-se em evidências de certeza muito baixa.

A vigilância endoscópica colorretal é personalizada conforme a carga de adenomas, o fenótipo e o genótipo do paciente. Para indivíduos assintomáticos com variante patogênica em APC ou risco de PAF clássica, a colonoscopia inicial deve começar entre os 10 e 15 anos, seguida de exames a cada 1 a 3 anos. Para PAF atenuada ou PAM, a colonoscopia basal inicia-se entre 18 e 20 anos. Após cirurgia com anastomose ileoanal ou ileorretal, recomenda-se endoscopia baixa anual, com intervalos ajustados conforme o tamanho, histologia e número de adenomas. A ileoscopia ocorre habitualmente a cada 3 anos. Para polipose colorretal de causa desconhecida, definida por 10 ou mais adenomas cumulativos com painel multigênico negativo, colonoscopia a cada 1 a 3 anos é indicada para aqueles com 20 ou mais adenomas, e colectomia é considerada diante de câncer colorretal ou polipose não controlável por endoscopia.

A vigilância duodenal segue a classificação de Spigelman, que estratifica o risco evolutivo para adenocarcinoma do duodeno em quatro estágios. Para PAF e PAF atenuada, a endoscopia digestiva basal é recomendada entre 20 e 25 anos; para PAM, entre 30 e 35 anos. A periodicidade subsequente varia: estágio 0 requer exame a cada 3 a 5 anos; estágio I, a cada 3 anos; estágio II, a cada 2 a 3 anos; estágio III, a cada 6 a 12 meses; e estágio IV, a cada 3 a 6 meses. Adenomas duodenais maiores que 10 milímetros ou qualquer displasia de alto grau justificam intervenção terapêutica, com decisão individualizada entre ressecção endoscópica e cirúrgica.

A quimioprevenção com celecoxibe 400 miligramas duas vezes ao dia pode ser considerada como adjuvante à vigilância endoscópica para reduzir a carga de pólipos no cólon, reto ou reservatório ileoanal, embora o impacto sobre o risco de progressão para cirurgia ou câncer permaneça incerto. Importante: a quimioprevenção não deve substituir a colectomia quando há indicação cirúrgica clara. Além da vigilância gastrointestinal, o gastroenterologista deve estar atento para encaminhamentos apropriados: ultrassonografia de tireoide aos 18 anos com seguimento a cada 5 anos; vigilância ginecológica para endométrio, ovário e mama; rastreamento de neoplasias cerebrais, pancreáticas e cutâneas. Para o médico brasileiro, a mensagem central é reconhecer os gatilhos que indicam testagem genética e organizar a vigilância endoscópica conforme o fenótipo e, no duodeno, de acordo com o estágio de Spigelman.

A quimioprevenção não deve substituir a colectomia quando houver indicação cirúrgica
— American College of Gastroenterology
A carga de pólipos deve ser bem documentada, com organização da vigilância endoscópica conforme o fenótipo
— Diretrizes ACG para aplicação prática no Brasil
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