Angela Davis diz que Brasil não pode eleger Bolsonaros

Literatura deve servir para ampliar consciência e inspirar engajamento
Davis argumentou que mesmo em festival literário, o foco não deveria se limitar à literatura em si.
Mark

Por que Davis se recusou a pronunciar os nomes de Bolsonaro e Musk? Parecia uma escolha política muito deliberada.

Mimi

Ela invocou uma tradição africana em que nomear confere força. Ao se recusar a pronunciar, ela estava recusando dar poder a esses nomes. Era uma forma de resistência que ia além das palavras.

Mark

E a visita ao Quilombo do Campinho — como isso mudou o que ela disse no palco?

Mimi

Transformou a noite. Ela poderia ter falado apenas sobre teoria e história intelectual. Mas depois de estar lá, de ver a realidade das terras ancestrais sendo expulsadas, ela precisou falar sobre incorporadoras, sobre exploração concreta.

Mark

Ela parecia estar dizendo que literatura não é suficiente.

Mimi

Exatamente. Que literatura é ferramenta, não fim em si mesma. Que ampliar consciência só importa se leva a engajamento, a luta real.

Mark

E o conceito de "ser Atlântica" — por que isso ressoou com ela?

Mimi

Porque ela viveu isso. Paris a decepcionou, mas a revolução Argelina a ensinou que solidariedade não tem fronteiras. Ser Atlântica é estar conectada a lutas em diferentes continentes, não estar isolada.

Mark

A plateia parecia estar lá por razões muito pessoais, não apenas intelectuais.

Mimi

Sim. Pessoas viajaram de cidades inteiras só para vê-la. Não era admiração distante — era uma necessidade de estar perto de alguém que representa resistência.

  • A extrema direita avança nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina, e Davis não hesitou em nomear esse avanço como uma ameaça que não representa o povo.
  • Incorporadoras expulsam comunidades de territórios ancestrais em Paraty e envenenam o solo — uma denúncia que Davis trouxe diretamente do Quilombo do Campinho para o palco do festival.
  • Recusando-se a pronunciar os nomes de Flávio Bolsonaro e Elon Musk, Davis invocou uma tradição africana: nomear confere força, e há forças que não merecem ser invocadas.
  • Centenas de pessoas travaram o trânsito, acompanharam em telões e viajaram de outras cidades exclusivamente para ouvi-la — para muitos, Davis não era uma palestrante, era a razão de estar em Paraty.
  • Ao final, ovacionada e cercada de livros para autografar, Davis reafirmou que o internacionalismo e a solidariedade sul-atlântica são respostas possíveis a um mundo de bilionários que devastam o planeta.

Em Paraty, durante a Flip, a ativista americana Angela Davis reuniu setecentas pessoas para uma conversa que atravessou o Atlântico — da luta pelos direitos civis ao quilombo visitado horas antes, do capitalismo à devastação ambiental. Com a sabedoria de quem recusa dar nome ao que não merece força, Davis lembrou que a literatura, como a solidariedade, só tem sentido quando amplia a consciência e move as pessoas à ação.

O céu não choveu naquele 25 de julho, mas setecentas pessoas se espremiam no Sesc Caborê, em Paraty, para ouvir Angela Davis pela primeira vez na cidade histórica. Nas ruas, centenas mais acompanhavam em telões. O trânsito já estava travado antes de o evento começar.

Com meia hora de atraso, Davis subiu ao palco para a mesa 'América e África, Uma Conversa Atlântica', mediada pela jornalista Flávia Oliveira. O escritor Wole Soyinka, que dividiria a mesa, estava internado. A noite seria dela.

Antes de chegar ao festival, Davis havia visitado o Quilombo do Campinho. A experiência a moveu a denunciar incorporadoras que expulsam comunidades de terras ancestrais e contaminam o solo de Paraty — e a lembrar que mesmo num festival literário, a literatura só faz sentido quando amplia a consciência e inspira engajamento nas lutas por democracia.

Quando a conversa chegou às eleições brasileiras, Davis se recusou a pronunciar o nome de Flávio Bolsonaro. Invocando uma tradição africana segundo a qual nomear confere força, preferiu não dar voz ao nome. A plateia aplaudiu. O mesmo gesto se repetiu com Elon Musk, ao criticar um mundo em que trilionários acumulam riqueza enquanto devastam o planeta a ponto de talvez não restar um lugar habitável.

Reflexiva sobre o conceito de 'ser Atlântica', Davis contou que foi a Paris em busca de justiça e igualdade — e encontrou racismo. Mas também encontrou a revolução Argelina e aprendeu que a solidariedade pode atravessar continentes. Era isso, disse ela, que Beatriz Nascimento queria dizer ao afirmar: 'Eu sou sul-atlântica'.

Ao final, ovacionada, Davis autografou dezenas de livros. Para muitos que viajaram de São Paulo, de Curitiba, de cidades distantes — alguns dormindo mal de ansiedade para conseguir ingresso —, ela não era apenas uma palestrante. Era a razão de estar ali.

O céu não desabou em chuva naquele 25 de julho, apesar das previsões. Setecentas pessoas se espremiam numa estrutura montada especialmente no Sesc Caborê, em Paraty, para ouvir Angela Davis falar. Era a primeira vez que a ativista americana pisava na cidade histórica do Rio de Janeiro, embora já tivesse visitado o Brasil outras nove vezes. A plateia incluía nomes como a escritora Conceição Evaristo, aplaudida de pé, e a cineasta Marina Person. Nas ruas do centro histórico, centenas mais se aglomeravam diante de telões instalados em frente à Casa Sesc, onde originalmente Davis faria sua apresentação. O trânsito na Rua Marechal Santos Dias já estava travado quinze minutos antes do evento começar.

Com meia hora de atraso, Davis subiu ao palco para a mesa intitulada "América e África, Uma Conversa Atlântica", mediada pela jornalista Flávia Oliveira. O escritor africano Wole Soyinka, que dividiria a mesa com ela, estava internado. Davis lamentou sua ausência e expressou esperança de que ele pudesse se recuperar e participar de futuras conferências. Mas o foco da noite seria dela.

Antes de chegar a Paraty, Davis havia visitado o Quilombo do Campinho. Essa experiência a moveu a usar seu tempo no palco não apenas para reflexão teórica, mas para denúncia. Criticou incorporadoras imobiliárias que aumentavam seus lucros enquanto expulsavam pessoas de suas terras — muitas vezes, territórios ancestrais — e contaminavam o solo da região. Ela argumentou que mesmo em um festival literário, o foco não deveria se limitar à literatura em si, mas ao papel que ela desempenha ao ampliar a consciência das pessoas e inspirar engajamento nas lutas por democracia e liberdade.

Quando a conversa se voltou para as eleições brasileiras e para o pensamento de intelectuais negros, Davis não hesitou. A extrema direita está em ascensão nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina, disse ela, mas não representa o povo. Embora reconhecesse a importância de eleger boas pessoas para cargos públicos, ela se recusou a pronunciar o nome de Flávio Bolsonaro. Invocando uma tradição africana segundo a qual nomear confere força, Davis preferiu não dar voz ao nome. "Vocês não podem permitir que o filho de... como é mesmo o nome dele? Seja o próximo", afirmou, entre aplausos.

Essa recusa em pronunciar nomes se repetiu quando ela abordou a crítica da pensadora Lélia Gonzalez ao capitalismo. Davis disse ser algo de que o mundo precisa desesperadamente, especialmente numa era em que surgem os primeiros trilionários. Também se recusou a pronunciar o nome de Elon Musk. Ela descreveu um mundo em que bilionários e trilionários exploram a terra enquanto acumulam riqueza, responsáveis não apenas pela exploração humana, mas pela devastação ambiental tão grave que talvez, no futuro, não exista um planeta habitável.

Quando questionada sobre o conceito de "ser Atlântica", formulado pela pensadora brasileira Beatriz Nascimento, Davis refletiu sobre sua própria trajetória de internacionalismo. Contou que foi a Paris imaginando encontrar a sede da justiça e da igualdade no mundo. Lá, porém, descobriu que o racismo ainda determinava as relações entre as pessoas. Mas também descobriu a revolução Argelina e percebeu que podia ser solidária a pessoas em diferentes partes do globo. Isso, ela disse, era semelhante ao que Nascimento queria dizer ao afirmar: "Eu sou sul-atlântica".

Ao final da noite, Davis foi ovacionada. Sentou-se para autografar dezenas de livros. Embora rejeitasse o rótulo de "ícone", a plateia a via assim — entoando até um "Angela, eu te amo" no encerramento. Horas antes, nos primeiros momentos da fila, casais e amigas de diferentes cidades do Brasil redefiniam as prioridades da Flip. Alguns vieram exclusivamente para vê-la. Uma jovem de São Paulo havia passado um mês se organizando para conseguir ingresso, dormindo mal de ansiedade. Duas amigas de Curitiba se conheceram na fila. Para muitos, Angela Davis não era apenas uma palestrante em um festival literário — era a razão de estar ali.

Vocês não podem permitir que o filho de... como é mesmo o nome dele? Seja o próximo
— Angela Davis, referindo-se a Flávio Bolsonaro
Mesmo em um festival literário, o foco não deveria ser apenas a literatura, mas também o papel que ela desempenha ao ampliar a consciência das pessoas e servir de inspiração para o engajamento nas lutas que podem trazer mais democracia e liberdade
— Angela Davis
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