Crise na saúde do Paraguai força famílias a se endividarem para pagar tratamentos

Pacientes morrem por falta de acesso a tratamentos adequados; famílias caem em pobreza por despesas médicas; população indígena enfrenta barreiras ainda maiores de acesso.
Se eu estivesse no Chaco, minha filha não teria chegado viva
Daniela reflete sobre como a localização geográfica determina quem vive e quem morre no Paraguai.
Mark

Por que uma economia em crescimento não se traduz em melhor saúde pública?

Mimi

O crescimento econômico não é automático. O Paraguai escolheu um modelo tributário muito baixo — 10% em todos os impostos principais. Isso atrai investidores, mas deixa pouco dinheiro para o Estado gastar em saúde, educação, infraestrutura.

Mark

Então é simplesmente uma questão de aumentar impostos?

Mimi

Não é tão simples. As pessoas não confiam que o dinheiro chegará aos hospitais. Há corrupção, há desperdício, há fragmentação do sistema. Aumentar impostos sem resolver esses problemas pode deixar as pessoas mais pobres e os hospitais ainda vazios.

Mark

Como uma família como a de Daniela consegue sobreviver a isso?

Mimi

Vendem. Organizam rifas. Pedem doações de ouro para vizinhos. É solidariedade de emergência, não é sistema de saúde. E funciona até não funcionar — até a pessoa morrer esperando.

Mark

O governo está fazendo algo?

Mimi

Reconheceu o problema, anunciou 500 milhões de dólares em investimentos. Mas médicos dizem que não é suficiente. Não há medicamentos, não há equipamentos, não há salários dignos. Planejam greve em agosto.

Mark

E as pessoas que vivem longe de Assunção?

Mimi

Estão ainda mais isoladas. No Chaco, 82% não têm plano de saúde. Daniela diz que se sua filha tivesse ficado lá, teria morrido no caminho para o hospital. Alguns tentam ir para a Argentina, mas o governo Milei fechou as portas em maio.

Mark

Qual é a saída?

Mimi

Ninguém sabe. Não é só dinheiro. É integrar um sistema fragmentado, combater corrupção, pagar médicos decentemente, garantir medicamentos. É tudo ao mesmo tempo. Enquanto isso, Daniela abre sua organização para receber outros pacientes que chegam do interior. É o que resta.

  • 70% da população paraguaia não possui plano de saúde privado
  • Paraguai investe 4,1% do PIB em saúde, abaixo dos 6% recomendados pela OPAS
  • Família de María del Pilar gastou mais de 800 dólares em insumos que deveriam ser fornecidos pelo sistema público
  • Goleiro Orlando Gill vendeu uniforme da seleção para pagar tratamento do filho recém-nascido
  • Greve nacional de médicos marcada para 24 de agosto de 2026

Famílias paraguaias vendem bens pessoais e organizam rifas para custear medicamentos e equipamentos que deveriam ser fornecidos pelo sistema público de saúde. O Paraguai investe apenas 4,1% do PIB em saúde, abaixo dos 6% recomendados pela OPAS, apesar de crescimento econômico de 6,6% em 2025.

No Paraguai, 70% da população sem plano de saúde depende de um sistema público sucateado, forçando famílias a se endividarem para pagar tratamentos médicos básicos.

Quando María del Pilar foi levada de emergência a um hospital público em Assunção com pneumonia causada por tuberculose, sua mãe Daniela Benítez enfrentou uma realidade que milhões de paraguaios conhecem bem: o sistema de saúde não forneceria o necessário. A artesã de 62 anos precisou sair às ruas da capital em busca de um respirador, uma cânula e até algodão — insumos básicos que deveriam estar disponíveis. A conta ultrapassou 800 dólares, uma quantia impossível para a família. Sem alternativa, organizaram uma rifa. Após um ano internada, María del Pilar morreu.

A história de Daniela não é exceção no Paraguai. Sete em cada dez pessoas no país não possuem plano de saúde privado e dependem inteiramente de um sistema público com recursos cada vez mais escassos. O caso ganhou visibilidade internacional quando o goleiro da seleção paraguaia, Orlando Gill, precisou vender até mesmo seu uniforme da seleção sub-20 para pagar o tratamento do filho recém-nascido após um parto prematuro. Sua esposa descreveu nas redes sociais como o marido vendeu roupas, chuteiras e tudo o que possuía. Esses não são episódios isolados — refletem uma crise estrutural que força famílias inteiras a escolher entre se endividarem ou deixarem seus doentes sem tratamento.

O Paraguai investe apenas 4,1% de seu PIB em saúde, bem abaixo dos 6% recomendados pela Organização Pan-Americana da Saúde. A disparidade é gritante quando comparada aos vizinhos: o Uruguai destina 6,3% do PIB ao setor, enquanto a Argentina investe 5,8%. Mais impressionante ainda é o contraste econômico — o Paraguai encerrou 2025 com crescimento de 6,6% do PIB, quase o triplo da média latino-americana. Apesar dessa prosperidade, o país está entre os que menos destinam recursos à saúde por habitante em toda a região. Segundo a Anistia Internacional, o Paraguai possui um dos sistemas de saúde mais injustos da América Latina.

O sistema é profundamente fragmentado. Existe o Ministério da Saúde Pública, responsável pelo acesso universal gratuito; o Instituto de Previdência Social, financiado por contribuições de trabalhadores formais; sistemas específicos para militares, juízes e policiais; e o setor privado. Esses componentes não trabalham de forma integrada, duplicam gastos e deixam brechas enormes. Nas áreas rurais, a situação é ainda pior — mais de 82% da população não possui plano de saúde. Daniela pertence ao povo indígena Nivaclé, localizado no Chaco a 600 quilômetros de Assunção. Ela reconhece que apenas estar em Assunção salvou a vida de sua filha: "Se eu estivesse no Chaco, minha filha não teria chegado viva ao hospital".

O governo reconhece o problema. O presidente Santiago Peña afirmou em julho que a saúde pública é "a nossa grande questão pendente" e anunciou investimentos superiores a 500 milhões de dólares através do programa Paraguai Saudável, que inclui reforma de hospitais, ampliação de ambulâncias e digitalização de prontuários. Mas especialistas alertam que essas medidas não resolvem a falta de medicamentos, insumos e a sobrecarga dos profissionais. O Sindicato dos Médicos do Paraguai aponta que embora o orçamento tenha aumentado, não houve reajustes salariais compatíveis com a inflação nem melhorias nas condições de trabalho. Uma greve nacional de cinco dias está marcada para 24 de agosto para reivindicar mais recursos.

Diante da falência do sistema público, famílias recorrem a estratégias de sobrevivência. Organizam "polladas" — vendas comunitárias de frango assado — rifas e vaquinhas. No caso de Daniela, seu filho arrecadou dinheiro pedindo doações de colegas, amigos e vizinhos, que ofereceram correntes de ouro e objetos pessoais para que pudessem rifar e pagar pelos equipamentos que salvaram a vida de María del Pilar, pelo menos temporariamente. Patricia Lima, da Associação Latino-Americana de Medicina Social, alerta que o risco não se limita aos mais pobres: "Todos estamos sujeitos, no Paraguai, a contrair dívidas ou empobrecer por causa de uma doença".

O modelo tributário do país volta ao debate. O Paraguai é conhecido pela baixa carga fiscal — seus três principais impostos (IVA, imposto de renda pessoa física e empresarial) têm alíquota de 10%, tornando-o o segundo com menor carga tributária da América Latina, atrás apenas do Panamá. Mas aumentar impostos é politicamente sensível. Rossana González, do Sindicato dos Médicos, expressa a desconfiança: "Acredito que nenhum paraguaio se recusaria a pagar mais impostos se isso realmente garantisse atendimento médico. Mas nosso maior problema é a corrupção". Sem garantias de que recursos adicionais chegariam aos hospitais, a população resiste.

Daniela transformou sua tragédia em ação. Abriu as portas da organização de artesãos, artistas e tecelãs Nivaclé em Assunção para pessoas que chegam do Chaco em busca de tratamento na capital. "Aqui ninguém pede esmola. Nós exigimos aquilo que é de direito", afirma. Enquanto isso, o Paraguai segue em um impasse: uma economia em crescimento, um sistema de saúde em colapso, e famílias que vendem tudo que possuem para manter seus filhos vivos.

O sistema de saúde no Paraguai está cada vez pior
— Daniela Benítez, artesã e mãe de María del Pilar
O Paraguai tem um dos sistemas de saúde mais injustos de toda a América Latina
— Patricia Lima, Associação Latino-Americana de Medicina Social
Aqui ninguém pede esmola. Nós exigimos aquilo que é de direito
— Daniela Benítez
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