Em poucos meses, o uso de canetas emagrecedoras passou de curiosidade das elites a fenômeno de massa no Brasil, com dois em cada três brasileiros conhecendo alguém que as utiliza. O que era tratamento médico para diabetes e obesidade tornou-se objeto de desejo social, impulsionado pela queda de preços e pela facilidade de acesso irregular. Como acontece com outras ondas de consumo que atravessam fronteiras de classe, a velocidade da disseminação superou a capacidade de regulação — e os riscos crescem na mesma proporção que o entusiasmo.
62% dos brasileiros conhecem usuários de canetas emagrecedoras, aponta pesquisa
O dinheiro que a pessoa usa para a caneta começa a fazer falta para outros produtos
Por que esse crescimento foi tão rápido? De 26% para 33% em poucos meses parece extraordinário.
Tem a ver com queda de preços, mas também com o mercado ilegal. Quando você consegue comprar sem receita, pela internet ou no exterior, a barreira cai drasticamente. E as pessoas começam a recomendar para amigos e familiares.
Mas por que alguém compraria um produto questionável em um salão de beleza em vez de ir a um médico?
Porque é mais fácil, mais rápido, e muitas vezes mais barato. A receita médica é uma barreira. Sem ela, o acesso é imediato. E quando 78% dos usuários recomendariam para outros, você tem uma rede de propagação que não depende de prescrição.
Isso afeta principalmente os ricos ou está chegando aos mais pobres também?
Começou nos ricos — 39% dos domicílios de classe AB têm alguém usando. Mas 30% dos domicílios de classe mais baixa também têm. Isso é o que assusta: não é um fenômeno de elite, está se espalhando.
E quando os genéricos chegarem?
Aí fica ainda mais acessível. Setenta e seis por cento acreditam que os preços vão cair mais. Se cair, o crescimento que vimos até agora pode parecer pequeno comparado ao que vem.
Qual é o risco real aqui?
Pessoas usando medicamentos sem supervisão médica, comprando produtos questionáveis, sem saber os efeitos colaterais reais. É saúde pública sendo contornada por conveniência e estética.
O Pulso
- Em apenas alguns meses, a presença das canetas emagrecedoras nos lares brasileiros saltou de 26% para 33%, um crescimento que surpreende até os pesquisadores.
- Quatro em cada dez usuários compram o produto sem receita médica, pela internet ou no exterior, alimentando um mercado paralelo que vende produtos questionáveis até em salões de beleza.
- A Anvisa exige prescrição, mas a regulação está sendo sistematicamente contornada enquanto a demanda cresce mais rápido do que qualquer fiscalização consegue acompanhar.
- Com o fim da patente da semaglutida e a chegada de genéricos no horizonte, 76% dos brasileiros acreditam que o acesso ficará ainda mais fácil — o que promete ampliar tanto o consumo quanto os riscos.
- O fenômeno já começa a redesenhar o orçamento das famílias e preocupa empresas, pois o dinheiro gasto nas canetas deixa de circular em outras categorias de consumo, num efeito comparado ao das apostas esportivas.
Em poucos meses, o uso de canetas emagrecedoras passou de curiosidade das elites a fenômeno de massa no Brasil, com dois em cada três brasileiros conhecendo alguém que as utiliza. O que era tratamento médico para diabetes e obesidade tornou-se objeto de desejo social, impulsionado pela queda de preços e pela facilidade de acesso irregular. Como acontece com outras ondas de consumo que atravessam fronteiras de classe, a velocidade da disseminação superou a capacidade de regulação — e os riscos crescem na mesma proporção que o entusiasmo.
Uma pesquisa do Instituto Locomotiva, realizada em fevereiro de 2026 com mais de mil brasileiros, revelou que 62% das pessoas conhecem alguém que usa ou já usou canetas emagrecedoras. Mais do que o número em si, o que chama atenção é a velocidade: em poucos meses, a presença desses medicamentos nos domicílios brasileiros cresceu de 26% para 33%, sinalizando uma disseminação que atravessa classes sociais.
O que começou como tratamento restrito às camadas mais ricas — 39% dos domicílios de classe AB relatam uso — já alcança 30% dos lares de classes mais baixas. Um quarto dos entrevistados afirmou ter usado os medicamentos pessoalmente, e entre quem parou, nove em cada dez gostariam de retomar. A recomendação boca a boca é intensa: 78% dos usuários indicariam o produto a amigos ou familiares.
O problema está no caminho que muitos percorrem para chegar até essas canetas. Quatro em cada dez usuários adquiriram o produto sem receita médica, pela internet ou no exterior, contornando a exigência da Anvisa. Produtos de procedência duvidosa circulam até em salões de beleza, sem qualquer supervisão clínica, expondo os usuários a riscos ainda pouco compreendidos.
Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, compara o impacto econômico das canetas ao das apostas esportivas: o dinheiro que vai para esse consumo deixa de circular em outras categorias, e empresas já monitoram esse efeito cascata. Com o fim da patente da semaglutida previsto para breve e genéricos a caminho, 76% dos entrevistados acreditam que os preços cairão ainda mais — o que promete ampliar o acesso, mas também os riscos de um mercado que já cresce mais rápido do que a regulação consegue alcançar.
Sessenta e dois por cento dos brasileiros conhecem alguém que já usou ou ainda usa canetas emagrecedoras. Esse número, revelado por uma pesquisa do Instituto Locomotiva realizada entre 3 e 9 de fevereiro, capta um fenômeno que está se espalhando pelo país com velocidade surpreendente. A pesquisa entrevistou 1.004 pessoas de todas as regiões, ponderadas por gênero, idade e renda para refletir o perfil da população brasileira conforme medido pelo IBGE.
Mas o dado mais alarmante está na mudança que ocorreu em poucos meses. No final do ano passado, apenas 26% dos domicílios brasileiros tinham pelo menos um morador que relatava usar esses medicamentos injetáveis destinados ao tratamento de diabetes e obesidade. Em fevereiro, esse percentual saltou para 33%. Essa aceleração revela não apenas crescimento, mas uma transformação na forma como esses remédios circulam pela sociedade brasileira.
Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, observa que estamos no meio de um processo em movimento contínuo. O que começou nas classes econômicas mais altas agora penetra progressivamente os estratos mais baixos da população. Mas há um complicador importante: muitas pessoas estão comprando produtos questionáveis em lugares como salões de beleza, sem qualquer prescrição médica. A Anvisa exige receita para a venda desses medicamentos no Brasil, mas essa regulação está sendo contornada. Entre os usuários, 4 em cada 10 adquiriram o produto sem receita, pela internet ou no exterior, alimentando um mercado paralelo que cresce junto com a demanda.
O alcance dessas canetas na população é notável. Apenas 6% dos entrevistados disseram nunca ter ouvido falar delas. Um quarto da amostra — 24% — afirmou já ter utilizado os medicamentos: 11% como usuários atuais e 13% que já pararam. Entre quem parou, 9 em cada 10 tem interesse em retomar o tratamento. E entre os usuários, 78% recomendariam o uso para amigos ou familiares, o que sugere uma dinâmica de propagação social do consumo.
O uso ainda é mais frequente entre os mais ricos. Trinta e nove por cento dos domicílios de classe AB têm pelo menos um morador que usa ou usou esses remédios. Mas o percentual entre as classes mais baixas — 30% — é surpreendentemente elevado, revelando que a disseminação não é um privilégio exclusivo dos mais abastados. Quando a patente da semaglutida, o princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, terminar e genéricos chegarem ao mercado, 76% dos entrevistados acreditam que os medicamentos ficarão mais acessíveis. Sessenta e oito por cento afirmam que preços mais baixos e maior facilidade de acesso aumentariam sua chance de usar a caneta.
Meirelles compara o impacto econômico das canetas emagrecedoras ao das apostas esportivas. Assim como as bets, esses medicamentos estão disputando espaço no orçamento das famílias brasileiras. O dinheiro gasto com as canetas deixa de ser investido em outras categorias de consumo. As pessoas comem menos alimentos industrializados. Empresas já percebem essa movimentação e se preocupam com o efeito cascata na economia. É uma questão que combina saúde e estética, gerando um impacto econômico compatível com o das apostas — dinheiro que sai de um lugar e deixa de circular em outro.
O que torna essa disseminação particularmente preocupante é a falta de supervisão médica em boa parte dos casos. Produtos questionáveis vendidos sem prescrição expõem os usuários a riscos de saúde desconhecidos. Enquanto a população brasileira abraça essas canetas com entusiasmo crescente, o mercado ilegal prospera e a regulação fica para trás. O fenômeno não mostra sinais de desaceleração.
Citações Notáveis
Estamos no meio desse processo. É um fenômeno que começa cada vez mais a entrar nas classes econômicas mais baixas. É um movimento que não para de crescer.— Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva
As canetas disputam o orçamento de outras categorias. O dinheiro que a pessoa usa para comprar a caneta começa a fazer falta para outros produtos.— Renato Meirelles