A vinte e cinco quilômetros de Hanói, o Vietnã ergue em turnos ininterruptos aquilo que pretende ser o maior estádio do mundo em número real de assentos — 135 mil lugares, teto retrátil e entrega prevista para julho de 2027. O Vingroup, conglomerado que lidera o projeto, aposta que a estrutura transcenderá o futebol e se tornará peça central de uma cidade olímpica avaliada em US$ 35 bilhões. Mas entre a grandiosidade da obra e a modesta média de 6 mil espectadores por partida na liga local, a humanidade reconhece um dilema antigo: a diferença entre construir o que se pode e construir o que se
Vietnã acelera construção de megaestádio de 135 mil lugares com teto retrátil para 2027
Um estádio de 135 mil lugares dificilmente se sustenta apenas com futebol vietnamita
Por que o Vingroup acelerou a construção em um ano se a empresa já enfrenta dívidas de US$ 36,7 bilhões?
Há pressão política e de mercado. O Vietnã quer se posicionar como destino global para grandes eventos. Acelerar a entrega antes de 2027 é uma declaração de capacidade — e talvez uma forma de começar a gerar receita mais cedo para aliviar a situação financeira.
Mas como um estádio de 135 mil lugares se sustenta quando o futebol vietnamita atrai apenas 6 mil pessoas por partida?
Essa é a aposta. Não é sobre futebol. É sobre shows internacionais, conferências, eventos corporativos, festivais. A Cidade Olímpica inteira — US$ 35 bilhões — precisa funcionar como um ecossistema. O estádio é o coração, mas não pode bater sozinho.
E se não conseguir atrair esses eventos internacionais?
Então você tem um estádio vazio. Especialistas já alertam para esse risco. Estruturas subutilizadas são um problema real em projetos de infraestrutura de grande escala, especialmente quando a demanda local é fraca.
O Vietnã realmente precisa do maior estádio do mundo?
Precisa de infraestrutura, sim. Mas há debate sobre se essa é a forma mais inteligente de investir US$ 35 bilhões. Estádios modernos em outros países funcionam bem com 60 a 80 mil lugares. O dobro disso é um salto de fé.
Qual é o verdadeiro risco aqui?
O risco é duplo: financeiro e de utilização. O Vingroup já está endividada. Se o estádio não gerar receita suficiente, os bancos que financiaram o projeto sofrem. E o Vietnã fica com uma estrutura monumental que não paga por si mesma.
Então por que seguem em frente?
Porque parar agora seria admitir erro. E porque há esperança genuína de que o Vietnã possa se tornar um destino de eventos globais. É uma aposta calculada, mas ainda é uma aposta.
The Pulse
- Milhares de trabalhadores operam 24 horas por dia para cumprir um prazo ambicioso — julho de 2027, um ano antes do cronograma original.
- A liga vietnamita de futebol atraiu menos de 6 mil espectadores por jogo na última temporada, enquanto o estádio terá capacidade para 135 mil — uma desproporção que especialistas da Deloitte consideram insustentável apenas com o esporte.
- O Vingroup carrega passivos de US$ 36,7 bilhões, valor equivalente a mais de 4% de toda a dívida privada do Vietnã, expondo bancos e investidores a riscos significativos de subutilização.
- A integração do estádio a um projeto urbano de US$ 35 bilhões e a uma agenda nacional de infraestrutura de US$ 200 bilhões é apresentada como a principal estratégia para justificar o investimento além do uso esportivo.
- O Vingroup não divulgou metas de faturamento, limitando-se a afirmar que espera que a instalação seja comercialmente sustentável — uma resposta que deixa a questão central em aberto até as portas se abrirem.
A vinte e cinco quilômetros de Hanói, o Vietnã ergue em turnos ininterruptos aquilo que pretende ser o maior estádio do mundo em número real de assentos — 135 mil lugares, teto retrátil e entrega prevista para julho de 2027. O Vingroup, conglomerado que lidera o projeto, aposta que a estrutura transcenderá o futebol e se tornará peça central de uma cidade olímpica avaliada em US$ 35 bilhões. Mas entre a grandiosidade da obra e a modesta média de 6 mil espectadores por partida na liga local, a humanidade reconhece um dilema antigo: a diferença entre construir o que se pode e construir o que se precisa.
A vinte e cinco quilômetros ao sul de Hanói, o Vingroup — maior empresa vietnamita por valor de mercado — acelera a construção de um estádio com capacidade para 135 mil pessoas e teto totalmente retrátil, prometendo entregar a obra em julho de 2027, um ano antes do prazo original. Batizado de Estádio Trong Dong, em referência ao tradicional tambor de bronze vietnamita, o complexo foi concebido para abrigar não apenas futebol, mas grandes festivais culturais e shows internacionais.
A ambição, porém, esbarra em números incômodos. A V.League 1 registrou média inferior a 6 mil espectadores por partida na temporada 2023-2024, e James Walton, da Deloitte Ásia-Pacífico, foi categórico: dificilmente uma estrutura desse porte poderia se sustentar apenas com o público local do futebol. Para referência, estádios nacionais modernos costumam ter entre 60 mil e 80 mil assentos — o novo empreendimento vietnamita teria mais que o dobro do limite inferior desse intervalo. Há ainda a disputa pelo título de maior do mundo: o Estádio Rungrado, em Pyongyang, é reconhecido pelo COI com 150 mil lugares, mas observadores estimam menos de 120 mil assentos efetivos, o que colocaria o Vietnã na liderança real.
O estádio é a peça central da Cidade Olímpica, um desenvolvimento urbano de US$ 35 bilhões que ocupará mais de 9 mil hectares e se insere em uma agenda nacional de infraestrutura estimada em US$ 200 bilhões até 2030. Walton reconheceu que essa integração pode melhorar a sustentabilidade financeira do projeto a longo prazo. Mas o Vingroup registrou passivos de US$ 36,7 bilhões em 2025 — mais de 4% de toda a dívida privada do país —, e a empresa não revelou metas de faturamento para o estádio, apenas afirmando esperar que seja comercialmente viável.
O que se constrói, portanto, é mais do que concreto e aço: é uma aposta sobre o futuro do Vietnã. Se o país conseguirá transformar essa estrutura colossal em um catalisador real de desenvolvimento, ou se ela se tornará um monumento à superconfiança, só se saberá quando as portas se abrirem — e o mundo puder ver quantas cadeiras estarão ocupadas.
A vinte e cinco quilômetros ao sul do centro de Hanói, milhares de trabalhadores se revezam em turnos ininterruptos para erguer uma estrutura que o Vietnã espera seja um marco global. O Vingroup, maior empresa vietnamita por valor de mercado, acelerou a construção de um estádio com capacidade para 135 mil pessoas e teto totalmente retrátil — uma façanha de engenharia que a companhia promete ser a maior do tipo já realizada. A entrega agora está marcada para julho de 2027, um ano antes do cronograma original.
O complexo, batizado de Estádio Trong Dong em referência ao tradicional tambor de bronze vietnamita, foi concebido para muito mais do que futebol. Grandes competições esportivas, festivais culturais e apresentações musicais internacionais estão no escopo do projeto. Mas aqui emerge a primeira tensão: a demanda interna pelo esporte mais popular do país pode não ser suficiente para justificar uma estrutura dessa magnitude. Na temporada 2023-2024, a V.League 1, principal competição de futebol do Vietnã, atraiu uma média inferior a 6 mil espectadores por partida. James Walton, líder do grupo de negócios esportivos da Deloitte Ásia-Pacífico, foi direto: dificilmente um estádio de 135 mil lugares poderia ser sustentado apenas pelo público do futebol vietnamita. Para contexto, estádios nacionais modernos tipicamente oferecem entre 60 mil e 80 mil assentos — o novo empreendimento teria mais que o dobro da capacidade inferior desse intervalo.
A questão do tamanho, porém, é mais complexa. O Comitê Olímpico Internacional reconhece o Estádio Rungrado em Pyongyang, na Coreia do Norte, como o maior do mundo, com capacidade declarada de 150 mil pessoas. Observadores, contudo, contestam esse número, estimando menos de 120 mil assentos efetivos no complexo norte-coreano. Se essas estimativas estiverem corretas, os 135 mil lugares do Vietnã colocariam o país na liderança mundial em quantidade real de assentos — embora a classificação dependa inteiramente de como as capacidades são contabilizadas.
O estádio não existe isolado. Ele é a peça central da Cidade Olímpica, um desenvolvimento urbano avaliado em US$ 35 bilhões que ocupará mais de 9 mil hectares nos arredores de Hanói. O projeto faz parte de uma ambição nacional maior: o Vietnã anunciou centenas de iniciativas de infraestrutura estimadas em US$ 200 bilhões até 2030, incluindo aeroportos, portos, pontes e ferrovias. Walton reconheceu que a integração do estádio a esse projeto urbano mais amplo pode melhorar sua sustentabilidade financeira a longo prazo, criando um ecossistema que justifique o investimento além do uso esportivo isolado.
Mas a realidade financeira do Vingroup complica o quadro. A empresa registrou passivos de US$ 36,7 bilhões em 2025 — um montante que representava mais de 4% de toda a dívida privada do Vietnã e não incluía compromissos adicionais de empresas afiliadas. Especialistas reconhecem a necessidade de modernizar a infraestrutura vietnamita, mas alertam para a exposição dos bancos, os riscos de financiamento, a possibilidade de estruturas pouco utilizadas e o atraso no retorno dos investimentos. O Vingroup não revelou metas de faturamento para o estádio, apenas afirmando que espera que a instalação seja comercialmente sustentável.
O que se desenha é um projeto de ambição descomunal em um contexto de incerteza. Milhares de trabalhadores continuam suas operações 24 horas por dia, construindo uma estrutura que pode ser um catalisador para a modernização vietnamita — ou um monumento à superconfiança em um mercado que ainda não demonstrou demanda suficiente. A resposta virá apenas após julho de 2027, quando as portas se abrirem e o mundo verá se o Vietnã conseguiu transformar uma aposta colossal em realidade sustentável.
Notable Quotes
Dificilmente uma arena de 135 mil lugares poderia ser justificada somente pelo público do futebol vietnamita— James Walton, líder do grupo de negócios esportivos da Deloitte Ásia-Pacífico