Clark teme que a IA elimine a conexão emocional entre artista e público, elementos essenciais que as máquinas não conseguem replicar genuinamente. A veterana britânica, autora de 'Downtown', mantém-se ativa aos 93 anos e planeia concertos em Londres, reafirmando que o seu trabalho vem do coração.
Petula Clark, aos 93 anos, expressa esperança de que artistas sobrevivam à IA
O que faço é muito pessoal, é algo meu; ninguém pode ser eu
O que a preocupa mais na IA — a capacidade técnica de replicar uma voz, ou algo mais profundo?
É mais profundo. Uma voz gerada pode soar bem, mas não tem origem. Não vem de uma vida vivida, de alegrias e sofrimentos. Quando canto, o público sente isso. A máquina não pode sentir nada.
Mas os estúdios já têm computadores há décadas. Como é diferente agora?
É diferente porque agora a máquina pode criar do zero. Antes, o computador era uma ferramenta nas minhas mãos. Agora, a ferramenta pode prescindir de mim completamente.
Você diz que a melodia é internacional. Será que a IA não consegue compreender isso também?
Compreender, talvez. Mas criar com propósito, com alma? Isso é outra coisa. Quando ouço uma canção, sei se foi feita por alguém que realmente tinha algo a dizer.
Tem medo de que os artistas mais jovens desistam?
Tenho. Porque se a IA conseguir fazer tudo mais barato e mais rápido, por que razão alguém investiria em treinar uma voz humana? Mas espero estar errada. Espero que as pessoas continuem a querer o verdadeiro.
E se a IA realmente desenvolver emoções, como alguns dizem que pode acontecer?
Então estaremos todos em apuros. Mas não acredito que seja possível. Emoção é viver, é sofrer, é amar. Não é um algoritmo.
The Pulse
- Petula Clark tem 93 anos e é autora do êxito "Downtown" de 1964
- A artista britânica planeia concertos em Londres, possivelmente ainda em 2026
- Clark é viúva desde 2024 e vive em Genebra desde meados dos anos 1960
- Lançou autobiografia intitulada "Is That You, Petula?" inspirada em encontro com John Lennon em 1969
Clark teme que a IA elimine a conexão emocional entre artista e público, elementos essenciais que as máquinas não conseguem replicar genuinamente. A veterana britânica, autora de 'Downtown', mantém-se ativa aos 93 anos e planeia concertos em Londres, reafirmando que o seu trabalho vem do coração.
A lenda britânica Petula Clark, aos 93 anos, expressa preocupação com a capacidade da Inteligência Artificial substituir o calor humano e a emoção na música, defendendo a insubstituibilidade do toque pessoal do artista.
Petula Clark tem 93 anos e ainda acredita que há algo na voz humana que nenhuma máquina conseguirá roubar. Sentada numa sala de leitura em Collonge, perto de Genebra, a lenda britânica por trás de "Downtown" falava à agência France-Presse sobre o que a preocupa nestes tempos: a Inteligência Artificial e a sua capacidade de substituir aquilo que ela considera insubstituível — o calor, a emoção, a ligação viva entre um artista e quem o ouve.
Clark não nega a inquietação. "Estamos todos muito preocupados com isso", disse, e a preocupação é legítima. A IA está a evoluir de forma que até promete desenvolver emoções próprias num futuro próximo, o que a artista vê como perturbador. Mas quando lhe perguntaram se o toque humano numa canção seria verdadeiramente insubstituível, a resposta foi honesta e sem ilusões: "Gostamos de pensar que sim. Quem sabe? Da forma como as coisas estão a correr, talvez tudo acabe por ser substituído de qualquer forma. Espero que não. Acho tudo isto um pouco assustador." Ainda assim, Clark nota que os estúdios têm computadores e elementos eletrónicos há décadas, e os artistas continuam de pé. A questão que a assombra é simples: por quanto mais tempo?
A sua voz mudou com os anos — tornou-se mais grave, mais contida. Mas Clark insiste que a essência permanece intacta. "O que faço é muito pessoal, é algo meu; ninguém pode ser eu", afirmou. "Vem do coração." Esta convicção não é retórica vazia. É o resultado de uma vida inteira dedicada à música, começada em 1942 como estrela infantil na rádio da BBC durante a guerra, passando por filmes ao lado de Alec Guinness, Fred Astaire e Peter O'Toole, e consolidada com sucessos que atravessaram continentes. Conheceu o publicista francês Claude Wolff em 1957, casaram em 1961, e ela abraçou as canções francesas com tal dedicação que se tornou uma estrela também em França — um passo raro para uma artista britânica ou norte-americana da sua época.
Clark sempre foi guiada pela melodia. Quando procurava novas canções, era "sempre a melodia" que lhe chamava a atenção, porque "a melodia é internacional". "Downtown", o seu êxito emblemático de 1964, chegou até ela sem letra — Tony Hatch tocava-a ao piano pela primeira vez quando Clark soube que tinha encontrado algo especial. A canção vendeu milhões de cópias e valeu-lhe um Grammy. "Algumas canções têm simplesmente algo de especial. Se soubéssemos o que era, estaríamos todos a cantá-las!", disse. "Sabíamos que era uma boa canção, mas não fazíamos ideia de que era um sucesso estrondoso. Algumas músicas permanecem vivas para sempre."
Agora, aos 93 anos, Clark ainda ouve música todos os dias — principalmente clássica e jazz. Admira Adele, considerando-a "uma cantora maravilhosa e uma grande compositora". E tem planos para voltar aos palcos. Há um concerto previsto numa sala de Londres, possivelmente ainda este ano. "Vai ser algo muito importante para mim, e muito emocionante também. Pode ser o meu último; quem sabe?", disse. "Mas estou muito entusiasmada com isso, por voltar a apresentar-me ao público. Não há nada como esta comunhão com um público."
Recentemente, Clark lançou a sua autobiografia, intitulada "Is That You, Petula?" — as palavras que John Lennon lhe dirigiu quando ela visitou o seu protesto pacífico em Montreal em 1969, um encontro que inspirou o single "Give Peace a Chance". A vida que ela resume é longa, emocionante, triste e feliz ao mesmo tempo. Vive em Genebra desde meados da década de 1960. É viúva desde 2024. E quando fala do seu legado, a preocupação com a IA desaparece por um momento, substituída por uma gratidão simples: "Espero ter levado felicidade às pessoas ao longo das décadas. Elas também me fizeram feliz."
No Festival do Livro de Collonge, onde Clark falava, havia um jovem de 21 anos na fila para a conhecer, segurando um disco de vinil dos anos 80, visivelmente deslumbrado. Talvez seja este o verdadeiro teste da insubstituibilidade — não a tecnologia, mas a capacidade de uma voz, de uma presença, de atravessar gerações e continuar a tocar o coração de quem a ouve.
Notable Quotes
Estamos todos muito preocupados com isso, e dizem até que, no futuro, a IA terá emoções, e isso por si só já é um pouco preocupante— Petula Clark
Não há nada como esta comunhão com um público— Petula Clark