Vera Aleixo transforma diabetes tipo 1 em oportunidade com alimentação low carb

Pessoas com diabetes enfrentam cansaço emocional, estigma social e desafios nas relações íntimas, impactos invisíveis mas profundos na qualidade de vida.
Ser um pouco o nosso próprio médico significa assumir um papel ativo na gestão da nossa saúde
Vera Aleixo explica a importância do autoconhecimento e da proatividade na gestão diária da diabetes tipo 1.
Mark

O que a levou a escrever este livro agora, quase 30 anos depois do diagnóstico?

Mimi

Senti que tinha uma responsabilidade de partilhar não apenas as receitas, mas as realidades emocionais que ninguém fala. Quando recebi o diagnóstico, ninguém me preparou para o cansaço mental, para a vergonha, para o impacto nas relações. Queria que outras pessoas soubessem que não estão sozinhas nisso.

Mark

A alimentação low carb parece ser a peça que faltava no puzzle. Como descobriu que funcionava para si?

Mimi

Foi através do sensor Libre. Quando comecei a ver em tempo real como cada alimento afetava meu corpo, tudo fez sentido. Alguns alimentos mantinham minha glicemia estável, outros causavam verdadeiras montanhas-russas. A partir daí, comecei a fazer experiências conscientes.

Mark

Mas isso requer muita disciplina e conhecimento. Como torna isso acessível para alguém que acaba de ser diagnosticado?

Mimi

Exatamente por isso é que o livro tem receitas práticas e simples. Não é sobre restrição, é sobre fazer escolhas inteligentes. E é fundamental ter acompanhamento profissional — não se deve fazer mudanças alimentares sozinho.

Mark

Quando diz que devemos ser "um pouco o nosso próprio médico", está a sugerir que os médicos não sabem o suficiente?

Mimi

Não é isso. É que a diabetes é muito pessoal — cada corpo responde de forma diferente. Os médicos dão as orientações gerais, mas só você sabe como se sente, como seu corpo reage. Essa combinação de conhecimento profissional e autoconhecimento é o que funciona.

Mark

E quanto aos temas tabu que aborda — a vergonha, as relações íntimas? Por que era tão importante incluir isso num livro sobre receitas?

Mimi

Porque a diabetes não é apenas sobre números de glicemia. É sobre viver uma vida plena. Se as pessoas estão envergonhadas ou isoladas socialmente, isso afeta tudo — a saúde mental, a adesão ao tratamento, a qualidade de vida. Precisamos falar disso abertamente.

Mark

Qual é a maior vitória que conquistou nesta jornada?

Mimi

Aceitar a diabetes e encontrar paz em cuidar verdadeiramente de mim. Antes era um desafio constante, agora é uma motivação. Descobri que este caminho é possível e vale a pena.

  • Diagnosticada em colapso aos 14 anos, Vera enfrentou décadas de vigilância constante sobre o próprio corpo — uma exigência que vai muito além do que qualquer receita médica consegue descrever.
  • O 'efeito montanha-russa' da glicemia — os picos e quedas frequentes — gerava não só desconforto físico, mas um desgaste mental silencioso que a medicina raramente nomeia.
  • Com um sensor de leitura contínua de glicose, Vera observou em tempo real como cada alimento afetava o seu corpo, o que a conduziu à abordagem low carb como ferramenta de estabilização.
  • A redução estratégica de hidratos de carbono permitiu-lhe diminuir a dose de insulina, aumentar a saciedade e recuperar uma sensação de controlo sobre a própria vida.
  • O livro 'Com Todo o Gosto' vai além das receitas e nomeia o que raramente se diz: o cansaço emocional, a vergonha social, o medo do julgamento e o impacto nas relações íntimas.
  • A mensagem que emerge é clara — a diabetes não é uma sentença de privação, mas um ponto de partida para um autoconhecimento mais profundo e uma vida vivida com maior intenção.

Aos 14 anos, Vera Aleixo chegou a um hospital inconsciente e saiu com um diagnóstico que redefiniria cada refeição, cada relação e cada momento de descanso pelo resto da vida. Quase três décadas depois, ela transformou essa exigência permanente em sabedoria partilhada — mostrando que a diabetes tipo 1, gerida com alimentação low carb e tecnologia de monitorização contínua, pode ser vivida com autonomia e dignidade. O seu livro não é apenas um guia de receitas, mas um ato de coragem contra o silêncio que envolve o cansaço emocional e o estigma invisível de quem vive com uma doença crónica.

Vera Aleixo tinha 14 anos quando o pai a levou ao hospital praticamente inconsciente. O diagnóstico foi diabetes tipo 1 — uma condição autoimune rara em Portugal, com pouco mais de 5000 casos registados, que exige insulina diária e atenção permanente. O que poderia ter sido apenas uma sentença médica tornou-se, ao longo de quase três décadas, uma jornada de autoconhecimento e uma plataforma de apoio a outros que partilham a mesma condição.

A viragem aconteceu quando Vera começou a usar um sensor de monitorização contínua de glicose. Com dados em tempo real, percebeu exatamente como cada alimento afetava o seu corpo. Essa observação sistemática levou-a à alimentação low carb — não uma eliminação total dos hidratos de carbono, mas uma redução estratégica que evita os picos de glicose, reduz a quantidade de insulina necessária e diminui o stress mental da gestão diária. O impacto foi transformador: mais saciedade, glicemia mais estável e uma sensação renovada de autonomia.

Em 2017, criou a página @viveradiabetes_ no Instagram. Agora lançou o livro 'Com Todo o Gosto — Viver a Diabetes com receitas low carb', publicado pela Contraponto, com o apoio da nutricionista Alessandra Losacco e do especialista em insulinas Sérgio Louro. As receitas — de caldo verde low carb a barras de coco e chocolate — provam que comer bem e comer com saúde não são objetivos opostos.

Mas o livro tem uma camada mais funda. Vera aborda o que raramente se discute: o cansaço emocional de viver sob vigilância constante, a vergonha em situações sociais, o medo do julgamento alheio e o impacto nas relações íntimas. Critica também a forma como muitos diagnósticos são comunicados — com boas intenções, mas omitindo informações cruciais, como o efeito das proteínas e gorduras na glicemia. A sua mensagem central é um convite: ser um participante ativo e informado na gestão da própria saúde, sem abdicar do prazer de viver.

Vera Aleixo chegou à urgência do hospital aos 14 anos praticamente inconsciente, nos braços do pai. O diagnóstico foi diabetes tipo 1 — uma doença autoimune que exigiria insulina diária e vigilância constante pelo resto da vida. Quase três décadas depois, ela transformou essa sentença médica numa oportunidade de conhecimento profundo sobre o próprio corpo e numa plataforma para ajudar outros que enfrentam a mesma condição.

Em Portugal, a diabetes é uma epidemia silenciosa. Existem quase um milhão de casos registados de diabetes tipo 2 nos centros de saúde, embora especialistas acreditem que o número real seja significativamente maior. Estima-se que cerca de 14% da população portuguesa viva com alguma forma da doença. A diabetes tipo 1, a variante que Vera tem, é mais rara — afeta pouco mais de 5000 pessoas no país — mas é particularmente exigente porque surge geralmente na infância ou adolescência e requer tratamento permanente com insulina.

Os primeiros anos após o diagnóstico foram de rotina rigorosa: administrar insulina, fazer controlos frequentes de glicemia, ajustar a alimentação com precisão. Mas com o tempo, Vera percebeu que poderia usar a nutrição como uma ferramenta adicional para gerir a doença. Essa descoberta ganhou forma quando começou a usar um sensor Libre, uma tecnologia que oferece leitura contínua dos níveis de açúcar no sangue. Com dados em tempo real, ela conseguiu observar exatamente como diferentes alimentos afetavam seu corpo — quais mantinham a glicemia estável e quais provocavam flutuações drásticas. Essa experimentação sistemática a levou à alimentação low carb, uma abordagem que reduz significativamente o consumo de hidratos de carbono e prioriza proteínas, gorduras saudáveis, legumes e fibras.

O impacto foi transformador. A alimentação low carb não elimina os hidratos de carbono — essa é uma confusão comum — mas reduz-os de forma estratégica para evitar os picos de glicose que causam o que Vera chama de "efeito montanha-russa": aqueles altos e baixos frequentes que geram desconforto, cansaço e exigem ajustes constantes de insulina. Ao manter a glicemia mais estável, ela conseguiu reduzir a quantidade de insulina necessária, aumentar a sensação de saciedade e, crucialmente, diminuir o stress mental associado à gestão diária da doença. Em 2017, criou a página @viveradiabetes_ no Instagram para partilhar essa jornada e ajudar outras pessoas. Agora, lançou um livro intitulado "Com Todo o Gosto — Viver a Diabetes com receitas low carb", publicado pela editora Contraponto.

Mas o livro vai muito além de receitas. Vera aborda temas que raramente são discutidos abertamente entre pessoas com diabetes: o cansaço emocional de viver com uma condição crónica que exige vigilância constante; a vergonha que muitas vezes surge em situações sociais; o medo de ser julgado pelos outros por causa das escolhas alimentares ou da necessidade de monitorizar constantemente a glicemia; o impacto nas relações íntimas. Este cansaço é real mas frequentemente invisível, o que gera incompreensão até entre pessoas próximas. Vera sentiu que era essencial dar voz a essas experiências.

O livro também dedica um capítulo inteiro a "Diabetes, aquilo que não nos contam" — uma crítica à forma como muitas equipas de saúde lidam com o diagnóstico inicial. Embora a intenção seja aliviar o peso emocional do paciente, essa abordagem frequentemente omite informações cruciais para a gestão a longo prazo. Por exemplo, é comum ouvir que se pode comer de tudo, o que é tecnicamente verdade mas enganador: pessoas com diabetes devem fazer escolhas muito mais criteriosas. Outro ponto negligenciado é o impacto das proteínas e gorduras na glicemia — o foco recai quase exclusivamente nos hidratos de carbono, deixando muitos pacientes frustrados com flutuações que não conseguem explicar.

Vera enfatiza que é preciso "ser um pouco o nosso próprio médico" — não no sentido de ignorar profissionais de saúde, mas de assumir um papel ativo e informado na gestão da própria condição. Cada pessoa responde de forma diferente a alimentos e situações, por isso o autoconhecimento é vital. Com tecnologias como sensores contínuos e acompanhamento nutricional profissional — ela trabalhou com a nutricionista Alessandra Losacco e o especialista em insulinas Sérgio Louro — é possível tomar decisões informadas sobre o que comer, quando comer e como ajustar a insulina. O livro inclui receitas práticas como caldo verde low carb, sopa de peixe, carne à bolonhesa com esparguete de Konjac, barras de coco e chocolate, e várias opções de pão e bolachinhas — pratos que provam que é possível comer bem e de forma saborosa sem comprometer a saúde. A mensagem central é clara: a diabetes não é uma sentença de privação, mas um convite para conhecer melhor o próprio corpo e viver com mais autonomia e confiança.

O cansaço emocional é real, mas muitas vezes invisível, o que pode gerar incompreensão
— Vera Aleixo
Muitas equipas de saúde, na tentativa de aliviar o peso inicial do diagnóstico, acabam por omitir informações que seriam importantes a longo prazo
— Vera Aleixo
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