Num momento em que as grávidas permaneciam à margem das recomendações oficiais de vacinação, um estudo conduzido por quatro instituições americanas de referência veio preencher um vazio científico urgente: as vacinas de ARN-mensageiro não só protegem as mulheres grávidas como transferem imunidade aos recém-nascidos através da placenta e do leite materno. A descoberta ganha peso quando se recorda que a gravidez já tornava as mulheres significativamente mais vulneráveis às formas graves da covid-19 — e que essa vulnerabilidade, até agora, não tinha resposta vacinal clara.
Vacinas de ARN-mensageiro protegem grávidas e bebés contra covid-19
Os anticorpos atravessam a placenta e chegam ao leite materno
Porque é que as grávidas foram excluídas dos ensaios clínicos iniciais?
Historicamente, as mulheres grávidas são sempre deixadas de fora dos testes de medicamentos por precaução — ninguém quer ser responsável por um resultado adverso durante uma gravidez. Mas isto deixa um vazio: sem dados, fica impossível saber se é seguro ou não.
E o que muda com este estudo?
Muda porque agora temos prova de que o corpo da grávida não apenas tolera a vacina como a transforma em proteção para o bebé. Os anticorpos atravessam a placenta e chegam ao leite materno. É uma transferência de imunidade.
Mas as grávidas com covid-19 correm riscos muito maiores, certo?
Muito maiores. O risco de internamento em cuidados intensivos é 62% superior. E de precisarem de ventilação, 88% superior. Isto não é um número abstracto — é a diferença entre uma doença grave e uma doença potencialmente fatal.
Então porque é que ainda não há uma recomendação clara para vacinar?
Porque faltam ensaios clínicos formais em grávidas. Este estudo é observacional — viu o que aconteceu a mulheres que já se tinham vacinado. Mas não é o mesmo que um ensaio controlado. As empresas estão agora a fazer isso, mas leva tempo.
E as diferenças entre as duas vacinas?
A Moderna parece produzir mais anticorpos IgA nas mucosas. Isto importa porque o vírus entra pelo nariz, pela boca, pelos olhos. E para um bebé amamentado, esses anticorpos no leite materno são fundamentais.
Qual é o próximo passo?
Os ensaios clínicos em grávidas e crianças vão dar respostas mais sólidas. Mas enquanto isso, a decisão fica com cada mulher e o seu médico — e agora têm pelo menos este estudo para informar essa conversa.
O Pulso
- Grávidas foram excluídas dos ensaios clínicos iniciais, criando um vazio de orientação médica num grupo com risco 62% maior de internamento em cuidados intensivos.
- O sistema imunitário enfraquecido durante a gravidez e a redução da capacidade pulmonar tornam as complicações respiratórias graves uma ameaça real e documentada.
- O estudo com 131 mulheres demonstrou que os anticorpos gerados pelas vacinas Moderna e Pfizer-BioNtech chegam ao bebé tanto pelo cordão umbilical como pelo leite materno.
- Uma diferença relevante emergiu: a Moderna produziu níveis mais elevados de anticorpos IgA — cruciais para a proteção das mucosas e presentes no leite materno — do que a Pfizer-BioNtech.
- A decisão de vacinar continua a ser avaliada caso a caso, enquanto os ensaios clínicos específicos para grávidas e crianças ainda decorrem.
Num momento em que as grávidas permaneciam à margem das recomendações oficiais de vacinação, um estudo conduzido por quatro instituições americanas de referência veio preencher um vazio científico urgente: as vacinas de ARN-mensageiro não só protegem as mulheres grávidas como transferem imunidade aos recém-nascidos através da placenta e do leite materno. A descoberta ganha peso quando se recorda que a gravidez já tornava as mulheres significativamente mais vulneráveis às formas graves da covid-19 — e que essa vulnerabilidade, até agora, não tinha resposta vacinal clara.
Mulheres grávidas vacinadas com ARN-mensageiro produzem anticorpos em níveis elevados que atravessam a placenta e chegam ao leite materno, protegendo também os recém-nascidos. É o que concluiu o maior estudo desta natureza até à data, conduzido por investigadores do Massachusetts General Hospital, do Brigham e de Mulheres, do MIT e de Harvard, publicado no American Journal of Obstetrics and Gynecology.
O estudo acompanhou 131 mulheres — grávidas, a amamentar e em idade reprodutiva — vacinadas com Moderna ou Pfizer-BioNtech. Os três grupos produziram anticorpos em quantidades equivalentes, com efeitos secundários raros. Anticorpos foram encontrados em todas as amostras de sangue do cordão umbilical e de leite materno recolhidas.
A descoberta chega num momento crítico: as grávidas ficaram excluídas dos ensaios clínicos iniciais, sem recomendações claras de vacinação. Contudo, os dados clínicos são preocupantes — uma análise de 77 estudos publicada na British Medical Journal mostrou que grávidas com covid-19 têm 62% mais probabilidade de necessitar de cuidados intensivos e 88% mais de precisar de ventilação mecânica. A fisiologia explica parte do risco: os pulmões trabalham mais durante a gravidez, a sua capacidade diminui com o crescimento do útero, e o sistema imunitário fica deliberadamente enfraquecido para não atacar o feto.
O estudo identificou ainda uma diferença entre as duas vacinas: a Moderna gerou níveis mais altos de anticorpos IgA — que protegem as mucosas e estão presentes no leite materno — do que a Pfizer-BioNtech após a segunda dose. Para as mulheres grávidas e a amamentar, este detalhe pode ser clinicamente relevante.
"Agora temos provas claras de que as vacinas contra a covid-19 induzem uma reacção imunitária que protege os bebés", afirmou Galit Alter, autor-coordenador do estudo. Entretanto, a Moderna e a Pfizer iniciaram ensaios clínicos específicos para grávidas e crianças. Por enquanto, a decisão de vacinar continua a ser avaliada individualmente por cada mulher em conjunto com o seu médico.
Mulheres grávidas que recebem as vacinas de ARN-mensageiro contra a covid-19 produzem anticorpos em níveis elevados — e esses anticorpos atravessam a placenta e chegam ao leite materno, oferecendo proteção aos recém-nascidos. É o que mostra o maior estudo desta natureza realizado até agora, conduzido por investigadores do Massachusetts General Hospital, do Hospital Brigham e de Mulheres, do Instituto de Tecnologia do Massachusetts e da Universidade de Harvard, publicado na revista American Journal of Obstetrics and Gynecology.
O trabalho acompanhou 131 mulheres — 84 grávidas, 31 a amamentar e 16 em idade reprodutiva — que foram vacinadas com as vacinas da Moderna ou da Pfizer-BioNtech. Os resultados foram claros: os três grupos produziram quantidades equivalentes de anticorpos, e os efeitos secundários foram raros e comparáveis em todos. Mais importante ainda, os investigadores encontraram anticorpos em todas as amostras de sangue do cordão umbilical e do leite materno que recolheram, provando que a proteção passa efetivamente da mãe para o filho.
Esta descoberta chega num momento crítico. As mulheres grávidas ficaram de fora dos ensaios clínicos iniciais das vacinas e, por isso, não havia recomendações claras para as vacinarem. Mas a realidade clínica é preocupante: múltiplos estudos mostram que as grávidas com covid-19 enfrentam riscos muito maiores do que mulheres da mesma idade que não estejam grávidas. Uma análise de 77 estudos publicada na British Medical Journal em Setembro de 2020 revelou que as hipóteses de uma grávida com covid-19 necessitar de internamento em cuidados intensivos são 62% maiores. E é 88% mais provável que precise de ventilação mecânica. Estes números foram confirmados por outras análises posteriores.
A razão fisiológica é bem compreendida. Durante a gravidez, os pulmões trabalham mais para fornecer oxigénio ao bebé, mas a sua capacidade diminui à medida que o útero cresce e empurra o diafragma. Simultaneamente, o sistema imunitário da mulher fica deliberadamente enfraquecido para não atacar o feto — uma adaptação necessária que, porém, a torna mais vulnerável a complicações de infecções respiratórias. O histórico é claro: mulheres infectadas com o vírus H1N1 durante a pandemia de 2009-2010 tiveram risco aumentado de partos prematuros e nados-mortos.
O estudo também revelou diferenças potencialmente importantes entre as duas vacinas. Os níveis de anticorpos IgA — aqueles que protegem as mucosas — foram mais altos após a segunda dose da vacina da Moderna do que após a segunda dose da Pfizer-BioNtech. Isto importa porque o vírus SARS-CoV-2 é contraído através de superfícies mucosas como o nariz, a boca e os olhos. Para as mulheres grávidas e a amamentar, isto é particularmente relevante, pois o IgA é um dos anticorpos fundamentais presentes no leite materno.
Andrea Edlow, especialista em medicina materna e fetal do Massachusetts General Hospital e uma das autoras seniores do artigo, descreveu a notícia como encorajadora para as mulheres que tinham ficado excluídas dos testes iniciais. Galit Alter, o outro autor-coordenador do estudo, foi mais direto: "Agora temos provas claras de que as vacinas contra a covid-19 induzem uma reacção imunitária que protege os bebés."
Entretanto, as empresas produtoras de vacinas de ARN-mensageiro lançaram ensaios clínicos focados especificamente em mulheres grávidas e em crianças — outro grupo que ficou de fora dos testes iniciais. A Moderna está a recrutar para testar a sua vacina em bebés a partir dos seis meses e em crianças até um ano. Por enquanto, as recomendações sobre vacinação para grávidas continuam casuísticas: a decisão fica entregue à mulher e ao seu médico, que devem avaliar em conjunto os riscos e benefícios de cada caso.
Citações Notáveis
Agora temos provas claras de que as vacinas contra a covid-19 induzem uma reacção imunitária que protege os bebés— Galit Alter, autor-coordenador do estudo
Esta notícia, de haver uma excelente eficácia das vacinas, é encorajadora para as mulheres grávidas e a amamentar, que ficaram de fora dos ensaios clínicos iniciais— Andrea Edlow, especialista em medicina materna e fetal