No cruzamento entre ciência de ponta e saúde pública, pesquisadores brasileiros da USP e da UFMG chegaram a um ponto raramente alcançado no país: uma vacina contra a malária vivax, chamada Vivaxin, que completou todas as etapas pré-clínicas e está prestes a ser testada em humanos. O feito não é apenas técnico — é também institucional, pois revela a capacidade do Brasil de conduzir o desenvolvimento completo de um imunizante, do conceito científico ao produto pronto para ensaios clínicos, superando o que os próprios pesquisadores chamam de 'vale da morte' da pesquisa biomédica.
Vacina brasileira contra malária vivax avança para fase de patente e testes clínicos
Vencer o vale da morte e ter o produto final
Por que essa vacina é importante agora? Malária vivax já não é um problema resolvido?
Não. A malária vivax mata e incapacita milhões de pessoas, especialmente em regiões tropicais. Não existe vacina eficaz contra ela ainda. O que torna a Vivaxin importante é que ela foi inteiramente desenvolvida aqui, do conceito até estar pronta para testes em humanos.
Mas ela ainda não foi testada em pessoas. Estamos falando de uma vacina que passou em testes de laboratório e em animais. Fase 1 é apenas o começo.
Entendo. E quanto à estratégia de incluir três variantes genéticas? Como funciona isso?
A proteína-alvo do parasita vivax existe em três formas diferentes. Ao colocar as três em uma única vacina, eles aumentam as chances de proteger contra todas as variações do parasita que circulam na natureza.
Isso é a teoria. Na prática, ainda não sabemos se essa abordagem vai gerar proteção suficiente em humanos. Os testes em camundongos e coelhos mostraram segurança e resposta de anticorpos, mas isso não garante eficácia clínica.
Qual é o maior obstáculo que pesquisadores brasileiros enfrentam normalmente com vacinas?
Eles fazem a pesquisa básica, publicam artigos e depois param. Poucos conseguem chegar ao produto final pronto para testes em pessoas. Essa parceria USP-UFMG foi desenhada para quebrar esse padrão.
E o financiamento? Está garantido para todo o caminho até uma vacina comercial?
Não. O que está aprovado é o financiamento para fase 1. Depois disso, vai depender dos resultados e de novas rodadas de financiamento.
Le Pouls
- A malária vivax continua afetando milhões em regiões tropicais, e a ausência de uma vacina eficaz representa uma lacuna crítica na saúde global que a Vivaxin agora tenta preencher.
- A maioria dos projetos brasileiros de vacinas morre na pesquisa básica — a Vivaxin é uma das raras exceções que cruzou essa fronteira e chegou ao limiar dos testes em humanos.
- A vacina combina três variantes genéticas da proteína PvCSP em uma única molécula, uma estratégia deliberada para cobrir todas as formas do parasita Plasmodium vivax que circulam naturalmente.
- Com patente depositada em outubro, financiamento da Finep já aprovado para a fase 1 e resultados animais publicados na revista Vaccine, a Vivaxin aguarda apenas a aprovação regulatória para iniciar os ensaios clínicos.
- O sucesso do projeto pode provar que o Brasil tem capacidade institucional para desenvolver vacinas complexas de ponta a ponta — um precedente que vai além da malária.
No cruzamento entre ciência de ponta e saúde pública, pesquisadores brasileiros da USP e da UFMG chegaram a um ponto raramente alcançado no país: uma vacina contra a malária vivax, chamada Vivaxin, que completou todas as etapas pré-clínicas e está prestes a ser testada em humanos. O feito não é apenas técnico — é também institucional, pois revela a capacidade do Brasil de conduzir o desenvolvimento completo de um imunizante, do conceito científico ao produto pronto para ensaios clínicos, superando o que os próprios pesquisadores chamam de 'vale da morte' da pesquisa biomédica.
Uma vacina brasileira contra a malária vivax está na antessala dos testes clínicos em humanos. Desenvolvida por pesquisadores da UFMG e da USP, a Vivaxin completou as rigorosas etapas de validação pré-clínica exigidas antes de qualquer ensaio com pessoas. Em outubro, o pedido de patente foi depositado pelas agências de inovação das duas universidades, protegendo tanto o processo de produção quanto a formulação final.
O caminho percorrido incluiu testes de boas práticas de laboratório e fabricação — protocolos internacionais que garantem qualidade e segurança. Em abril, um artigo publicado na revista Vaccine demonstrou que o imunizante induziu altos níveis de anticorpos em camundongos e coelhos, com boa tolerância nos modelos animais. A vacina foi apresentada publicamente em setembro, no 2º Congresso de Inovação e Sustentabilidade do Parque Tecnológico de Belo Horizonte.
O diferencial da Vivaxin está em sua arquitetura molecular: ela combina três variantes genéticas da proteína PvCSP — VK210, VK247 e P. vivax-like — em uma única molécula. Essa proteína reveste a superfície dos esporozoítos, a forma do parasita que infecta o fígado humano após a picada do mosquito. Ao incluir todas as variantes, a equipe buscou ampliar a cobertura contra as diferentes formas do Plasmodium vivax que circulam na natureza.
O financiamento veio de múltiplas frentes: a Fapesp apoia o projeto por meio de um Projeto Temático, o CNPq financiou os estudos iniciais de prova de conceito, e a Finep já aprovou recursos para o ensaio clínico de fase 1. Esse suporte institucional é, por si só, um feito — a maioria dos projetos brasileiros de vacinas não consegue atravessar o que o pesquisador responsável chamou de 'vale da morte': o intervalo entre a pesquisa básica e um produto real pronto para testes em pessoas.
Com resultados recentes prestes a ser publicados e aprovação regulatória como próximo passo, a Vivaxin representa não apenas um avanço no combate à malária, mas uma demonstração concreta de que o Brasil pode desenvolver vacinas complexas do início ao fim dentro de suas próprias instituições.
Uma vacina brasileira contra a malária vivax está prestes a entrar em testes clínicos em humanos — um marco raro para a pesquisa de imunizantes no país. Chamada Vivaxin, o produto foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais e da Universidade de São Paulo e já completou as etapas rigorosas de validação pré-clínica exigidas antes de qualquer ensaio com pessoas. Em outubro, o pedido de patente foi depositado pela Agência USP de Inovação e pelo Centro de Transferência e Inovação Tecnológica da UFMG, protegendo tanto o processo de produção quanto a formulação final que a equipe desenvolveu.
O caminho até aqui envolveu testes de boas práticas de laboratório e de fabricação — protocolos internacionais rigorosos que garantem a qualidade e a segurança do produto. A vacina foi apresentada publicamente em setembro durante o 2º Congresso de Inovação e Sustentabilidade do Parque Tecnológico de Belo Horizonte, onde o Centro de Tecnologia de Vacinas da UFMG detalhou o trabalho que levou anos para chegar a este ponto. Pesquisadores já demonstraram, em artigo publicado em abril na revista Vaccine, que o imunizante induziu níveis altos de anticorpos em camundongos e coelhos, mostrando-se seguro e bem tolerado nos modelos animais.
O que torna a Vivaxin diferente de outras abordagens é sua estratégia de cobertura. A vacina combina em uma única molécula três variantes genéticas diferentes da proteína PvCSP — conhecida como proteína circunsporozoíta — que é o alvo escolhido pelos pesquisadores. Essa proteína existe em três formas distintas no parasita Plasmodium vivax: VK210, VK247 e P. vivax-like. Ao incluir todas as três variantes em um único imunizante, a equipe buscou aumentar a eficácia e proteger contra todas as variações do parasita que circulam naturalmente. A proteína foi escolhida como alvo porque é o componente mais abundante na superfície dos esporozoítos — a forma alongada do parasita que vive na glândula salivar do mosquito transmissor e que infecta o fígado humano quando o inseto pica.
O financiamento para chegar até aqui veio de agências brasileiras de pesquisa. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) apoia o trabalho por meio de um Projeto Temático. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) forneceu recursos para os estudos iniciais de prova de conceito. A Financiadora de Estudos e Projetos já aprovou o financiamento para o ensaio clínico de fase 1, a primeira etapa de testes em humanos. Essa estrutura de apoio é significativa porque reflete um compromisso institucional raro no Brasil com o desenvolvimento completo de uma vacina — do conceito científico até o produto pronto para testes em pessoas.
O pesquisador responsável pelo projeto destacou um problema estrutural na pesquisa brasileira de vacinas: a maioria dos trabalhos fica presa na fase de pesquisa básica, onde cientistas definem antígenos, adjuvantes e fazem provas de conceito, publicam artigos e depois descontinuam os estudos. Poucos projetos conseguem atravessar o que ele chamou de "vale da morte" — aquele período entre a pesquisa fundamental e o desenvolvimento de um produto real pronto para testes clínicos. A parceria entre USP e UFMG foi desenhada especificamente para vencer essa barreira e entregar uma vacina completamente desenvolvida no país, algo que permanece raro na ciência brasileira nesta área.
Os resultados dos testes mais recentes devem ser publicados em breve em uma revista científica, adicionando mais dados públicos sobre a segurança e eficácia do imunizante. Com o financiamento já aprovado e a patente depositada, o próximo passo é a aprovação regulatória para iniciar o ensaio clínico fase 1, quando a vacina será testada em um pequeno grupo de voluntários humanos saudáveis para avaliar segurança e resposta imunológica inicial. Se tudo correr conforme o planejado, a Vivaxin poderia representar um avanço significativo não apenas para o controle da malária vivax — que afeta principalmente regiões tropicais e subtropicais — mas também como prova de que o Brasil pode desenvolver vacinas complexas do início ao fim, dentro de suas próprias instituições.
Citations marquantes
No Brasil existe uma grande lacuna em linhas de pesquisa de vacinas. A maioria dos estudos fica na pesquisa básica e não chega até a vacina. O objetivo dessa parceria é vencer o vale da morte e ter o produto final para testes em humanos, em um processo todo desenvolvido no país.— Pesquisador responsável pelo projeto, à Agência Fapesp