Usina centenária de SP opera com equipamentos originais e atinge potência máxima em 15 minutos

Bastam 15 minutos para passar de mínimo a máximo
A velocidade de resposta da Henry Borden a torna essencial para estabilizar o sistema elétrico nacional em emergências.
Mark

Por que uma usina de 100 anos ainda é tão importante para o sistema elétrico?

Mimi

Porque ela consegue ligar e desligar muito rápido — 15 minutos do mínimo ao máximo. Quando há uma queda de energia em algum lugar, o ONS pede, e ela responde. Fica sempre de prontidão.

Luke

Mas isso é uma característica técnica que outras usinas também têm, certo? O que a torna especial é a localização — perto de São Paulo, o maior consumidor.

Mimi

Exato. E ela não precisa de energia externa para começar a funcionar, diferente de outras. É como ter um gerador de emergência gigante ao lado da maior cidade do país.

Mark

Como ela consegue manter equipamentos de 100 anos funcionando?

Mimi

Alguns equipamentos são realmente originais — o primeiro rotor, os tubos de aço. Mas a usina não é um museu. Ela recebe investimentos constantes. Desde 2019, foram 338 milhões só na usina subterrânea.

Luke

Espera — o primeiro rotor vai ser substituído até o fim do ano. Então não é tão original assim. É mais uma questão de manutenção extrema do que de preservação.

Mimi

Verdade. É um balanço entre manter a estrutura histórica e modernizar o que não funciona mais. O rotor durou 100 anos, o que é extraordinário.

Mark

E aquele episódio de 1932, quando bombardearam a usina? Isso realmente aconteceu?

Mimi

Sim. Durante a revolução constitucionalista, um hidroavião lançou duas bombas. Uma atingiu, causou danos e feriu quatro pessoas, mas não explodiu. Recuou depois de sofrer disparos de canhões.

Luke

É um detalhe histórico interessante, mas não muda a operação atual. O que importa é que a usina sobreviveu e agora está sendo modernizada.

Mark

E o problema da poluição do Pinheiros? Isso ainda afeta a usina?

Mimi

Não mais. Desde 1992, o bombeamento contínuo foi proibido. Agora só acontece para controlar enchentes. Resolveu o problema de equipamentos falhando por causa de gases da matéria orgânica.

Luke

Mas isso foi uma decisão política complexa — envolveu a Fiesp, industriais, o governo. Não foi apenas uma solução técnica.

Mimi

Certo. Levou 17 anos de negociação, de 1975 a 1992, porque reduzir a produção afetaria o polo petroquímico que dependia da água do rio Cubatão.

  • Usina hidrelétrica Henry Borden completa 100 anos em 10 de outubro de 2026
  • Atinge potência máxima de 889 MW em 15 minutos
  • Primeiro rotor original continua ativo após 100 anos; será substituído até fim do ano
  • Oito tubos de aço originais descem 720 metros da Serra do Mar
  • Desde 2012 funciona sob regime de disponibilidade para o ONS
  • Recebeu R$ 338 milhões em investimentos na usina subterrânea desde 2019

Usina centenária ainda opera com primeiro rotor instalado há 100 anos e tubos de aço originais que descem 720 metros da Serra do Mar. Desde 2012, a Henry Borden funciona sob regime de disponibilidade, garantindo energia sob demanda ao operador nacional do sistema elétrico em vez de vender ao mercado.

A hidrelétrica Henry Borden, em Cubatão, completa um século operando com parte de seus equipamentos originais e mantém capacidade de atingir potência máxima de 889 MW em 15 minutos, funcionando sob regime de disponibilidade para o ONS.

A usina hidrelétrica Henry Borden, que marca seu centésimo aniversário neste sábado, consegue passar de sua potência mínima para os máximos 889 megawatts em apenas 15 minutos. Localizada em Cubatão, no litoral paulista, a instalação permanece em operação plena, ainda que tenha deixado de funcionar como fazia no passado. Desde 2012, ela trabalha sob regime de disponibilidade, o que significa que não vende energia diretamente ao mercado. Em vez disso, fica à disposição do ONS, o operador nacional do sistema elétrico, que solicita sua produção conforme a demanda — algo que ocorre quase diariamente.

Fundada pela Light em 10 de outubro de 1926, a usina foi crucial para o desenvolvimento de São Paulo durante uma época em que a capital e sua região metropolitana enfrentavam apagões frequentes. O estado vivia um boom industrial, mas a geração de energia não acompanhava o consumo. A iluminação pública caía constantemente, deixando a região na escuridão. A Light respondeu com um ambicioso projeto de represamento de rios na Serra do Mar, dando origem ao complexo Billings. Hoje, a usina está sob gestão da Emae, empresa que passou ao controle da Sabesp em fevereiro deste ano.

O que torna a Henry Borden notável é sua capacidade de responder rapidamente às solicitações do operador nacional. Quando a Folha visitou o complexo na quinta-feira, 92% da usina estava à disposição do ONS, com a maioria dos geradores em atividade. Um desses geradores data da inauguração: o primeiro rotor continua funcionando cem anos após sua instalação, embora deva ser substituído até o final do ano como parte de projetos de modernização. Além disso, oito grandes tubos de aço originais transportam água do reservatório Rio das Pedras, que integra a represa Billings, descendo 720 metros pela encosta da Serra do Mar até os geradores. Esses dutos são tão antigos quanto a usina e ainda funcionam sob controle rigoroso, com a força da água regulada por uma casa de válvulas construída no topo da serra.

O acesso entre o alto da serra e o nível do mar é feito por um bonde que desce sobre trilhos também centenários, afixados nas pedras ao lado dos dutos. O trajeto leva entre 12 e 13 minutos e passa por trechos com inclinação de até 43 graus, mas permanece como o caminho mais curto entre os dois pontos. Por esses trilhos passaram os operários que construíram a usina há um século, e por eles continuam passando equipamentos e funcionários até hoje.

A história da Henry Borden inclui um episódio dramático. Em 29 de julho de 1932, durante a revolução constitucionalista contra o governo provisório de Getúlio Vargas, um hidroavião Savoia-Marchetti lançou duas bombas contra a usina. Apenas uma atingiu o alvo, mas não explodiu. Ainda assim, causou danos estruturais e feriu quatro funcionários. O avião recuou após sofrer disparos de canhões posicionados no alto da serra. Esse fracasso na investida contra a usina abriu caminho para um projeto de expansão que incluiu a construção de uma usina subterrânea, um espaço cavernoso com 39 metros de altura, 120 de comprimento e 21 de largura, onde a água é transportada por uma adutora de quase dois quilômetros.

O empresário canadense Henry Borden, que assumiu a presidência da Light em 1946, foi o grande entusiasta dessa expansão. Desde 1964, o complexo leva seu nome — antes era apenas chamado de usina de Cubatão. Sob sua liderança, o projeto se transformou na maior hidrelétrica do hemisfério sul, posição que manteve até meados dos anos 1960, quando a usina de Furnas foi construída. A expansão incluiu empréstimos milionários assegurados pela União e a conclusão de uma obra iniciada em 1927: o desvio das águas do rio Pinheiros para a represa Billings.

Esse desvio resolveu um problema crônico. Antes, toda a matéria orgânica do esgoto despejado no Pinheiros terminava na Billings, deixando a água altamente poluída. Em épocas de seca, os geradores falhavam porque os gases formados pela decomposição atacavam diretamente os equipamentos. Durante a ditadura, em 1975, o governo Ernesto Geisel determinou ao ministro de Minas e Energia Shigeaki Ueki a elaboração de planos para conter essa poluição, mesmo que isso significasse reduzir a produção de energia da Henry Borden. Mas a redução da produção afetaria também a vazão do rio Cubatão, que abastecia o polo petroquímico instalado na região, atraído pela oferta abundante e barata de energia. A Fiesp reagiu, industriais pediram prazo, e os planos foram sucessivamente adiados até 1992, quando uma resolução estadual proibiu o bombeamento contínuo das águas do Pinheiros para a Billings. Desde então, esse processo só é permitido para controlar enchentes durante períodos de chuvas intensas.

Segundo Fernando Luís Fernandes, diretor de Operações da Emae, a importância da Henry Borden vai muito além da produção energética. Localizada próxima ao maior centro consumidor do país, a usina responde rapidamente às solicitações do ONS e contribui para a recomposição do sistema em caso de apagão, graças à sua capacidade de iniciar a operação sem depender de energia externa. De 2019 até agora, o principal foco da Emae foi a usina subterrânea, que recebeu 338 milhões de reais em investimentos. A próxima frente é a modernização dos aparelhos da usina externa, garantindo que essa infraestrutura centenária continue respondendo às demandas do sistema elétrico nacional.

Localizada próxima ao maior centro consumidor do país, a usina responde rapidamente às solicitações do ONS e contribui para a recomposição do sistema em caso de apagão, graças à sua capacidade de iniciar a operação sem depender de energia externa
— Fernando Luís Fernandes, diretor de Operações da Emae
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