Em um tempo em que a tecnologia redefine os limites do permitido, o Tribunal Superior Eleitoral suspendeu um site que transformava criptomoedas em moeda de troca por apoio político — oferecendo tokens digitais a quem divulgasse conteúdo favorável a Flávio Bolsonaro nas redes sociais. A ministra Estela Aranha reconheceu no esquema não uma simples manifestação de apoiadores, mas um mecanismo estruturado de vantagem econômica disfarçado de filantropia e inovação digital. O episódio revela o desafio permanente das instituições democráticas diante de formas cada vez mais sofisticadas de contornar a
TSE suspende site de criptomoeda que oferecia tokens por propaganda a Flávio Bolsonaro
mecanismo estruturado de concessão de vantagem econômica
Como exatamente esse esquema funcionava? O que uma pessoa precisava fazer para ganhar esses tokens?
Basicamente, você comprava a criptomoeda B22 e depois compartilhava conteúdo apoiando Flávio Bolsonaro nas redes sociais. Quanto mais você divulgava, mais tokens você ganhava. E esses tokens tinham valor real — podiam ser convertidos em dinheiro.
Mas espera. Quem estava pagando por isso? Quem estava emitindo esses tokens? O site? A campanha?
Essa é a questão central. O site Brasil 22 Token é que estava oferecendo os tokens, mas a promoção saiu do perfil das crianças ugandesas, que tinha milhões de seguidores.
E por que as crianças de Uganda estavam envolvidas nisso?
Oficialmente, porque o projeto prometia ajudar essas crianças a construir uma casa em Kampala. Mas na prática, o perfil delas foi usado como plataforma para promover uma campanha política brasileira.
Certo, mas a ministra disse que havia "elementos concretos" de violação. Quais eram? Porque oferecer tokens por compartilhamento é uma coisa; provar que era estruturado especificamente para beneficiar um candidato é outra.
O post em si citava nominalmente Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira e Pablo Marçal. Dizia explicitamente "ganhar tokens inspirando outras pessoas a votar 22". Isso é bem direto.
Então a lei proíbe isso?
Sim. A lei eleitoral veda oferecer vantagem econômica a quem divulga propaganda eleitoral. E proíbe doações de empresas para campanhas, inclusive em criptomoedas.
Mas ninguém foi acusado formalmente ainda, certo? A ministra apenas suspendeu o site.
Correto. Por enquanto foi a suspensão imediata e a ordem de remover conteúdo. Mas também ordenou quebra de sigilo dos dados cadastrais para investigação.
Isso vai levar a acusações?
Depende do que encontrarem nos dados. Mas a decisão da ministra deixa claro que ela vê isso como um "mecanismo estruturado" — não como algo espontâneo.
Il Polso
- Um site batizado de 'Brasil 22 Token' prometia criptomoedas a quem compartilhasse nas redes sociais mensagens de apoio a Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira e Pablo Marçal — misturando campanha eleitoral com apelo filantrópico ligado a crianças ugandenses.
- A coligação do presidente Lula acionou o TSE com uma ação de investigação judicial eleitoral, apontando abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação em violação direta à lei eleitoral brasileira.
- A ministra Estela Aranha agiu com rapidez e determinou a suspensão imediata do site, identificando elementos concretos de um esquema estruturado de concessão de vantagem econômica vinculada à propaganda político-eleitoral.
- O TSE ordenou ainda a remoção de conteúdos nas redes, a preservação de postagens e a quebra do sigilo dos dados cadastrais das contas envolvidas no envio das criptomoedas.
- A campanha de Flávio Bolsonaro, o perfil @hyperskidsafrica e os responsáveis pelo Brasil 22 Token não responderam aos pedidos de manifestação, deixando o caso sem versão dos acusados.
- O episódio expõe uma fronteira cada vez mais porosa entre inovação tecnológica e burla eleitoral, desafiando a Justiça a rastrear ativos digitais cuja propriedade e origem são difíceis de estabelecer.
Em um tempo em que a tecnologia redefine os limites do permitido, o Tribunal Superior Eleitoral suspendeu um site que transformava criptomoedas em moeda de troca por apoio político — oferecendo tokens digitais a quem divulgasse conteúdo favorável a Flávio Bolsonaro nas redes sociais. A ministra Estela Aranha reconheceu no esquema não uma simples manifestação de apoiadores, mas um mecanismo estruturado de vantagem econômica disfarçado de filantropia e inovação digital. O episódio revela o desafio permanente das instituições democráticas diante de formas cada vez mais sofisticadas de contornar as regras que protegem a igualdade no jogo eleitoral.
Na terça-feira, um projeto chamado Brasil 22 Token (B22) surgiu na internet com uma proposta incomum: compre a criptomoeda, divulgue nas redes sociais mensagens de apoio ao voto em Flávio Bolsonaro, e receba tokens conversíveis em dinheiro. O esquema foi promovido por meio do perfil @hyperskidsafrica no Instagram — uma conta voltada a crianças ugandenses com quase 13 milhões de seguidores —, apresentada como 'parceira oficial' da iniciativa, que também prometia ajudar a construir uma casa em Kampala. Um dos posts mostrava crianças dançando com camisetas de campanha e citava nominalmente Bolsonaro, o deputado Nikolas Ferreira e Pablo Marçal.
A coligação do presidente Lula identificou o mecanismo e levou o caso ao Tribunal Superior Eleitoral na quinta-feira, por meio de uma ação de investigação judicial eleitoral. A acusação: abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação. A lei eleitoral brasileira proíbe oferecer vantagem econômica a quem divulga propaganda na internet, e veda doações de empresas a campanhas — inclusive em criptomoedas. Três especialistas consultados pela reportagem enxergaram indícios claros de violação.
A ministra Estela Aranha acolheu o pedido e determinou a suspensão imediata do site. Em sua decisão, ela apontou que o programa extrapolava a simples manifestação de apoiadores e constituía, em tese, um mecanismo estruturado de concessão de vantagem econômica vinculada à divulgação de conteúdo eleitoral. Além da suspensão, ordenou a remoção de postagens nas redes, a preservação de dados e a quebra do sigilo das contas de onde partiram as criptomoedas. Nenhum dos envolvidos — campanha, site ou perfil ugandense — respondeu aos pedidos de comentário.
Na terça-feira, um site de criptomoedas lançou uma iniciativa chamada Brasil 22 Token (B22) que oferecia ativos digitais a qualquer pessoa disposta a compartilhar conteúdo político nas redes sociais. O mecanismo era simples: compre a moeda, divulgue apoio ao voto em Flávio Bolsonaro na disputa presidencial, e ganhe tokens que poderiam ser convertidos em dinheiro. O projeto foi promovido através do perfil @hyperskidsafrica no Instagram, uma conta de crianças ugandenses com 12,9 milhões de seguidores, que aparecia no site como "parceira oficial". A mesma iniciativa prometia ajudar crianças de Uganda a concluir uma casa em Kampala, misturando objetivo filantrópico com campanha eleitoral.
Um dos posts publicados mostrava crianças dançando com camisetas da campanha e incluía uma mensagem explícita: "Recebemos 120 milhões de tokens $B22 por meio desta parceria! Um movimento que apoia a HypersKids e acredita em um Brasil melhor. Apoiamos a visão de @nikolasferreiradm, @flaviobolsonaro e @pablomarcal1. Junte-se a nós: compre $B22, compartilhe nas suas redes sociais e acesse o site para saber como ganhar tokens inspirando outras pessoas a votar 22!". O post citava nominalmente Flávio Bolsonaro, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e Pablo Marçal (PRTB), que tentou concorrer à presidência mas foi barrado pela Justiça e hoje apoia Bolsonaro.
A coligação do presidente Lula identificou o esquema e apresentou uma ação de investigação judicial eleitoral (AIJE) ao Tribunal Superior Eleitoral na quinta-feira, acusando abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação. A lei eleitoral brasileira proíbe explicitamente oferecer vantagem econômica a quem divulga propaganda eleitoral na internet e veda doações de empresas para campanhas e candidatos, inclusive em criptomoedas. Três especialistas consultados pela reportagem identificaram indícios de violação dessas normas no Brasil 22 Token.
A ministra Estela Aranha, do TSE, atendeu ao pedido e determinou a suspensão imediata do site. Em sua decisão, ela escreveu que a documentação apresentada revelava "elementos concretos aptos a demonstrar a plausibilidade jurídica da alegação de que o programa denominado 'Brasil 22 Token' extrapola a mera manifestação política de apoiadores e constitui, em tese, mecanismo estruturado de concessão de vantagem econômica vinculada à divulgação de conteúdo de natureza político-eleitoral". A ministra também ordenou a remoção de conteúdo nas redes sociais, a preservação de postagens e dados dos envolvidos, e a quebra do sigilo dos dados cadastrais das contas de onde partiram as criptomoedas.
Quando procurada, a campanha de Flávio Bolsonaro não respondeu. O Brasil 22 e o perfil hyperskidsafrica também não se manifestaram. O caso ilustra um desafio crescente para a Justiça Eleitoral: a sofisticação de esquemas que usam tecnologia e redes sociais para contornar as restrições legais sobre financiamento de campanhas, particularmente quando envolvem ativos digitais cuja rastreabilidade e propriedade podem ser mais difíceis de estabelecer.
Citazioni salienti
O programa Brasil 22 Token extrapola a mera manifestação política de apoiadores e constitui, em tese, mecanismo estruturado de concessão de vantagem econômica vinculada à divulgação de conteúdo de natureza político-eleitoral— Ministra Estela Aranha, em sua decisão
Compre $B22, compartilhe nas suas redes sociais e acesse o site para saber como ganhar tokens inspirando outras pessoas a votar 22— Post no Instagram do perfil @hyperskidsafrica