Num setembro de vésperas eleitorais, Donald Trump transformou o mais solene palco da diplomacia mundial numa tribuna de afirmação nacional, proclamando diante das nações reunidas que os Estados Unidos são a força que governa o destino do mundo. O discurso oscilou entre a ameaça existencial ao Irão e a abertura negocial, entre a guerra e a paz em Gaza, entre a expansão militar na Gronelândia e os números da pobreza americana — tudo costurado pela mesma lógica: a de um país que, segundo o seu presidente, ressuscitou das trevas para uma idade de ouro. É um momento que recorda como o poder, quando
Trump proclama superioridade americana na ONU com discurso beligerante
Herdámos a idade das trevas e transformámo-la numa idade de ouro
Porque é que Trump escolheu as Nações Unidas para fazer essencialmente uma campanha doméstica? Não é estranho usar esse palco para falar de números de pobreza americanos?
Não é estranho se entendermos que Trump vê a ONU como um palco global onde pode falar para a audiência doméstica americana. Faltava um mês e meio para as intercalares e as sondagens eram más para os republicanos. O discurso era dirigido aos eleitores americanos, não aos delegados na sala.
Mas há um detalhe importante: Trump afirmou que zero imigrantes ilegais entraram nos EUA nos últimos 16 meses. Essa é uma afirmação extraordinária que merecia verificação. Também disse que terminou oito guerras, um número que o próprio texto diz ter sido "contestado". Não sabemos por quem ou com que fundamento.
E quanto ao Irão? Ele disse que poderia "aniquilar" o país ou fazer um acordo. Como é que essas duas opções coexistem no mesmo discurso?
Trump estava a sinalizar força enquanto deixava espaço para negociação após as eleições. Se os republicanos ganharem as intercalares, fica com margem de manobra. Se perderem, pode culpar a falta de apoio político.
Mas há uma contradição factual aqui. Trump diz que as forças armadas iranianas estão "destruídas" e depois diz que tem de escolher entre aniquilar o Irão ou fazer acordo. Se estão destruídas, qual é a ameaça que justifica essa escolha? O texto não esclarece isto.
E a Gronelândia? Duas bases militares de grande dimensão é um anúncio significativo.
É um sinal de que Trump vê a região ártica como estratégica, provavelmente por questões de recursos e posicionamento geopolítico. A Dinamarca assinou, o que sugere algum acordo prévio.
Mas o texto não diz o que a Dinamarca recebeu em troca. Não sabemos os termos do acordo. Também não sabemos se essas bases já estão em construção ou se é apenas um plano. "Iniciaremos imediatamente" pode significar muitas coisas.
A delegação cubana saiu quando Trump falou de negociações sobre regime change. Isso mostra que o discurso teve consequências reais.
Sim, e isso é importante. Não foi apenas retórica vazia. Havia delegações que se sentiam ameaçadas ou ofendidas o suficiente para sair da sala.
Verdade, mas o texto não nos diz o que Marco Rubio e os representantes cubanos discutiram realmente. Trump diz que "apontariam para uma queda de regime", mas isso é interpretação dele, não facto confirmado.
Le Pouls
- Trump chegou à ONU com tom beligerante e transformou a Assembleia Geral numa plataforma de campanha a menos de seis semanas de eleições intercalares onde os republicanos enfrentam sondagens desfavoráveis.
- A ameaça ao Irão foi explícita e brutal — destruição total sem hipótese de recuperação —, mas foi imediatamente seguida de uma oferta de negociação para depois de novembro, revelando a tensão entre coerção e diplomacia.
- A delegação cubana abandonou a sala em protesto quando Trump anunciou conversações que apontariam para uma mudança de regime em Havana, tornando visível a fratura entre a retórica americana e a receção internacional.
- O acordo sobre a Gronelândia foi assinado em Nova Iorque e Trump confirmou a construção imediata de duas grandes bases militares no território, consolidando a expansão americana no Ártico.
- Entre elogios à detenção de Maduro, ao 'maior acordo de petróleo da história' com a Venezuela e ao rebatismo da inteligência artificial como 'superinteligência', o discurso deixou claro que o palco da ONU serviu, acima de tudo, o consumo interno.
Num setembro de vésperas eleitorais, Donald Trump transformou o mais solene palco da diplomacia mundial numa tribuna de afirmação nacional, proclamando diante das nações reunidas que os Estados Unidos são a força que governa o destino do mundo. O discurso oscilou entre a ameaça existencial ao Irão e a abertura negocial, entre a guerra e a paz em Gaza, entre a expansão militar na Gronelândia e os números da pobreza americana — tudo costurado pela mesma lógica: a de um país que, segundo o seu presidente, ressuscitou das trevas para uma idade de ouro. É um momento que recorda como o poder, quando se sente ameaçado internamente, tende a proclamar-se mais alto nos palcos do mundo.
Donald Trump subiu ao púlpito da Assembleia Geral das Nações Unidas com uma mensagem sem ambiguidade: os Estados Unidos governam o destino do mundo. Invocando o aniversário dos 250 anos da nação, proclamou que a América estava de volta, mais forte do que nunca, com uma economia invejável, o exército mais poderoso do planeta e liderança tecnológica sem rival.
Durante mais de meia hora, o discurso desviou-se da diplomacia tradicional para se tornar numa narrativa de campanha. Trump falou de pobreza, fiscalidade, crescimento económico e fronteiras — afirmando ter herdado 'a fronteira mais perigosa do mundo' e transformado numa 'a mais segura da história'. Ligou a queda da imigração ilegal à maior descida de sempre nas estatísticas do crime, e resumiu a sua presidência como a passagem de uma 'idade das trevas' para uma 'idade de ouro'.
Quando chegou ao Irão, o tom tornou-se abertamente ameaçador. Trump declarou que os EUA podiam 'enviar o Irão para o inferno sem hipótese de sobreviver', referiu a operação 'Martelo da Meia-Noite' contra o programa nuclear iraniano e afirmou que as forças armadas iranianas estavam destruídas. Mas abriu imediatamente uma porta: a possibilidade de um acordo com Teerão após as eleições intercalares de novembro.
Em Gaza, agradeceu o apoio ao seu plano de paz e ao Conselho de Paz criado em janeiro de 2026. Sobre a Venezuela, relatou a detenção de Nicolás Maduro e descreveu o novo relacionamento bilateral como permitindo 'o maior acordo de petróleo da história'. Anunciou ainda a assinatura de um acordo sobre a Gronelândia e a construção imediata de duas grandes bases militares no território dinamarquês.
A delegação cubana abandonou a sala em protesto quando Trump revelou conversações entre Havana e o secretário de Estado Marco Rubio, apontadas para uma mudança de regime. Numa nota final, Trump anunciou que os EUA passariam a usar 'superinteligência' em vez de 'inteligência artificial'. O palco das Nações Unidas tinha cumprido o seu propósito: reafirmar poder americano, dentro e fora de fronteiras, a menos de mês e meio de eleições onde as sondagens apontavam para uma derrota republicana.
Donald Trump subiu ao púlpito da Assembleia Geral das Nações Unidas numa terça-feira de setembro com uma mensagem que não deixava espaço para ambiguidade: os Estados Unidos são a força que governa o destino do mundo. O tom era beligerante desde as primeiras palavras, uma continuação da retórica que tem marcado esta segunda passagem do multimilionário pela Casa Branca.
O presidente começou por invocar o aniversário dos 250 anos da nação americana, celebrado meses antes, para proclamar que "a América está de volta e o nosso país está mais forte hoje do que alguma vez". Listou os pilares dessa superioridade com precisão: uma economia que é "a inveja do mundo", um exército "o mais forte do mundo", tecnologia "ímpar" e liderança "em tudo". O futuro, garantiu, era "muito risonho". Mas o que se seguiu transformou o palco internacional numa plataforma de campanha doméstica. Durante mais de meia hora, Trump falou de números de pobreza, afirmando ter retirado meio milhão de americanos dessa situação. Discorreu sobre fiscalidade, crescimento económico e implantação em mercados internacionais. A narrativa era consistente: dois anos antes, o país estava "morto"; agora era "o país mais extraordinário do mundo".
A segurança de fronteiras ocupou lugar central. Trump garantiu que herdara "a fronteira mais perigosa do mundo" e que agora tinha "a fronteira mais segura da história norte-americana". Afirmou que nos últimos 16 meses zero imigrantes ilegais tinham entrado nos EUA e ligou esta estatística à "maior queda de sempre" nas estatísticas do crime americano. Sublinhou investimentos de um trilião e meio de dólares nas forças armadas. O resumo era direto: herdara "a idade das trevas" da administração anterior e transformara-a numa "idade de ouro".
Quando virou a atenção para o Irão, o tom tornou-se explicitamente ameaçador. Trump declarou que os Estados Unidos tinham capacidade para "enviar o Irão para o inferno sem hipótese de sobreviver, sem hipótese de grandeza futura durante gerações". Mas imediatamente abriu uma porta: a possibilidade de um acordo com Teerão após as eleições intercalares de novembro. Acusou o Irão de meio século de "regime de terror" que espalhara "carnificina e caos em todo o Médio Oriente e mais além", chamando-lhes "os bullyes do Médio Oriente" antes de afirmar que "já não são". Referiu a operação "Martelo da Meia-Noite", uma ação americana contra o programa nuclear iraniano, e garantiu que as forças armadas iranianas estavam destruídas. Disse então que teria de escolher entre "aniquilar" o Irão ou chegar a um "acordo" com Teerão.
No contexto de Gaza, Trump agradeceu o apoio ao seu plano de paz e ao Conselho de Paz que preside, estabelecido em janeiro de 2026 com objetivos de "promover da estabilidade, restaurar uma governação fiável e legal e garantir uma paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos". Repetiu, como tem feito frequentemente, que terminou oito guerras, um número que tem sido contestado.
A Venezuela mereceu elogios. Trump relatou a detenção do então presidente Nicolás Maduro em Caracas e descreveu as novas relações entre os Estados Unidos e o país como permitindo "o maior acordo de petróleo da história", afirmando que em conjunto tinham "60 por cento do petróleo do mundo". Sublinhou que os Estados Unidos usariam o seu poder militar para garantir os seus interesses nas Américas, uma intenção que já tinha resultados concretos: um acordo sobre a Gronelândia assinado em Nova Iorque. Trump anunciou reforço militar no território dinamarquês e que após as assinaturas de Estados Unidos e Dinamarca "iniciaremos imediatamente o processo de desenvolvimento de uma grande presença militar nos locais apropriados", incluindo "a construção de duas bases de grande dimensão".
O discurso irritou a delegação cubana, que abandonou a sala quando Trump anunciou conversações entre representantes de Havana e o secretário de Estado Marco Rubio, que apontariam para uma queda de regime. Numa nota final de rebranding, Trump anunciou que os Estados Unidos passariam a utilizar a expressão "superinteligência" em vez de "inteligência artificial". O palco das Nações Unidas tinha servido o seu propósito: reafirmar poder americano, doméstico e global, a menos de mês e meio de eleições intercalares onde as sondagens apontavam para uma derrota republicana em toda a linha.
Citations marquantes
A América está de volta e o nosso país está mais forte hoje do que alguma vez: a nossa economia é a inveja do mundo, o nosso exército é o mais forte do mundo, a nossa tecnologia é ímpar e somos líderes em tudo— Donald Trump, na Assembleia Geral das Nações Unidas
Tenho de escolher entre aniquilar o Irão ou chegar a um acordo com Teerão— Donald Trump, referindo-se às opções futuras com o Irão