Trump classificou cartéis como 'Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental' e prometeu usar poder militar dos EUA para eliminá-los, exilá-los ou detê-los. Brasil discorda da classificação de terrorismo para facções criminosas, argumentando que faltam viés ideológico, político ou religioso conforme lei brasileira.
Trump pressiona aliados a designar facções brasileiras como ameaças terroristas
O Brasil não cabe no quintal de ninguém
Por que Trump está pressionando aliados a fazer isso agora? Qual é a urgência?
Ele vê os cartéis como uma ameaça existencial ao hemisfério — e quer consolidar uma coalizão de países alinhados antes que a China ganhe mais influência na região. O Escudo das Américas é novo, ainda está se formando.
Mas a coalizão só teve uma reunião de cúpula em março. Isso é realmente uma estrutura consolidada ou é mais um anúncio?
É mais um anúncio com intenção. O acordo de terça é a primeira ação conjunta formal, mas sim, é ainda muito recente.
E o Brasil? Por que Lula discorda?
Porque a lei brasileira não classifica essas facções como terroristas — faltam os elementos ideológicos ou políticos que a definição exige. Para o Brasil, são organizações criminosas, não grupos terroristas.
Então quando Trump diz que vai usar poder militar, o Brasil pode se recusar a cooperar?
Teoricamente sim. Mas há pressão diplomática real. O acordo invoca mecanismos da OEA, então há uma tentativa de institucionalizar isso.
Qual é o impacto prático para o PCC e o CV?
Congelamento de ativos internacionais, restrições de visto para membros e associados, responsabilização criminal para quem os apoie. É real.
Mas essas organizações já operam em clandestinidade. Quanto disso vai realmente funcionar?
Boa pergunta. O congelamento de ativos pode afetar operações financeiras, mas a efetividade depende de quanto cada país implementa.
E a "Doutrina Donroe"? É só retórica ou muda a política externa?
Muda. Trump está sinalizando que vai usar poder militar se necessário, e está construindo uma coalizão para legitimar isso.
Legitimidade é a palavra certa? Alguns países assinaram porque estão alinhados politicamente com Trump, não porque concordam que cartéis são terroristas.
Il Polso
- 24 facções narcotraficantes designadas como ameaças compartilhadas, incluindo PCC e CV brasileiras
- Acordo assinado em 22 de setembro de 2026 pelos membros do Escudo das Américas
- Brasil discorda da classificação de terrorismo conforme sua legislação interna
- Trump prometeu usar poder militar dos EUA para eliminar, exilar ou deter cartéis
Trump classificou cartéis como 'Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental' e prometeu usar poder militar dos EUA para eliminá-los, exilá-los ou detê-los. Brasil discorda da classificação de terrorismo para facções criminosas, argumentando que faltam viés ideológico, político ou religioso conforme lei brasileira.
A coalizão Escudo das Américas, liderada por Trump, assinou acordo designando 24 facções narcotraficantes como ameaças compartilhadas, incluindo PCC e CV brasileiras, com medidas de sanções e congelamento de ativos.
Na terça-feira 22 de setembro, enquanto Donald Trump discursava na Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova Iorque, os membros da coalizão que ele chamou de Escudo das Américas assinavam um acordo que formalizaria 24 facções narcotraficantes como "ameaças compartilhadas" do hemisfério. Entre elas estavam o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, as duas maiores organizações criminosas do Brasil.
O acordo, divulgado pelo Departamento de Estado americano, estabelecia um conjunto de medidas coordenadas: congelamento de ativos, restrições de imigração e visto para membros e associados, e responsabilização criminal para quem fornecesse apoio material ou logístico a essas organizações. O documento invocaria um mecanismo de reciprocidade da Organização dos Estados Americanos para viabilizar a implementação conjunta.
O Escudo das Américas é uma coalizão lançada pela administração Trump que reúne governos alinhados ao republicano na América Latina — Argentina, Chile e El Salvador entre eles. Sua única reunião de cúpula havia ocorrido em março de 2026. Um de seus objetivos declarados é o combate aos cartéis de drogas, tema que Trump abordou diretamente em seu discurso na ONU poucas horas antes da assinatura do acordo. "Os cartéis são o Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental", disse Trump. "São inimigos em guerra contra a civilização, usando assassinato, estupro, tortura e extorsão como instrumentos de terror, e por isso eles devem ser mortos, exilados ou detidos." Trump prometeu ainda lançar "o poder das Forças Armadas dos EUA" para eliminar essas organizações e afirmou que poderia utilizar o poderio militar norte-americano para extinguir o que chamou de "interferência externa" no hemisfério.
O discurso e a iniciativa refletem o que analistas chamam de "Doutrina Donroe" — um trocadilho que mistura o nome de Donald com a Doutrina Monroe do século 19. Essa doutrina histórica buscava manter as Américas como área de influência dos EUA, impedindo que outras potências aprofundassem relações com países do continente. Membros do governo Trump frequentemente se referem ao continente como "nosso quintal".
O Brasil, porém, discorda fundamentalmente da classificação. O governo Trump designou as facções brasileiras como "terroristas globais", mas a legislação brasileira define terrorismo como a prática de atos violentos motivados por xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia ou religião, cometidos para provocar terror social. Em maio do ano anterior, o então secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sabburro, havia explicado essa diferenciação a uma comitiva americana no Ministério da Justiça. "Estas organizações criminosas não têm qualquer viés ideológico, não têm qualquer viés político, religioso, não querem mudar o sistema", afirmou Sabburro. "Muito pelo contrário, elas pretendem a prática de infrações penais, lavagem de dinheiro."
A tensão entre as duas posições ficou evidente quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao púlpito da ONU pouco antes de Trump. Lula defendeu o multilateralismo, a soberania dos países e o princípio da não interferência em assuntos internos. "O Brasil não cabe no quintal de ninguém", disse ele em seu discurso — uma resposta direta à retórica de Trump sobre a esfera de influência americana.
Analistas veem a iniciativa do Escudo das Américas também como uma tentativa de afastar a América Latina da esfera de influência da China. O acordo assinado nesta terça marca a primeira ação conjunta da coalizão sob seus pilares recém-anunciados, concentrando-se nas 24 organizações listadas, independentemente de como cada país as denomine internamente.
Citazioni salienti
Os cartéis são o Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental. São inimigos em guerra contra a civilização, usando assassinato, estupro, tortura e extorsão como instrumentos de terror, e por isso eles devem ser mortos, exilados ou detidos.— Donald Trump, discurso na Assembleia Geral da ONU
Estas organizações criminosas não têm qualquer viés ideológico, não têm qualquer viés político, religioso, não querem mudar o sistema. Muito pelo contrário, elas pretendem a prática de infrações penais, lavagem de dinheiro.— Mario Sabburro, então secretário nacional de Segurança Pública do Brasil