Quando uma empresa enfrenta dificuldades, é tentador encontrar culpados entre os que menos poder têm para se defender. Em Ponta Delgada, a 29 de setembro, cerca de 150 trabalhadores da SATA saíram à rua para recusar esse papel — o de bode expiatório de uma gestão que não era a sua. O movimento Somos Todos SATA, voz de aproximadamente dois mil funcionários, ergueu-se contra o que considera uma transferência desonesta de responsabilidades por parte de governantes e administradores, num conflito que coloca frente a frente quem dá as ordens e quem as executa.
Trabalhadores da SATA condenam "desrespeito público" e "desonestidade política" de governantes
Não vão tolerar a forma como foram achincalhados na praça pública
O que levou estes dois mil trabalhadores a sentirem-se tão desrespeitados que precisavam de se concentrar na rua?
A sensação de que estavam a ser usados como bodes expiatórios. Quando a empresa tem problemas financeiros, é fácil apontar para quem executa o trabalho. Mas estes trabalhadores sabem que não controlam as decisões estratégicas, as rotas que são abertas, a forma como o dinheiro é gasto.
Mas não é normal que uma empresa em dificuldades procure responsabilizar os seus custos operacionais?
É, mas há uma diferença entre reestruturação e humilhação pública. O que os irritava era que os governantes — pessoas que tomaram as decisões — estavam a falar publicamente como se os trabalhadores fossem o problema, quando havia gestão deficiente, rotas deficitárias, uma privatização que não correu bem.
A privatização da Azores Airlines é mencionada. Isso foi um fracasso?
Não sabemos os detalhes completos, mas o sindicato deixa claro que os trabalhadores não devem ser responsabilizados se a privatização falhar. É uma questão de quem toma as decisões e quem sofre as consequências.
E o plenário de outubro — o que esperam alcançar?
Ainda não sabem exatamente. Vão decidir em conjunto que formas de luta fazem sentido. Pode ser greve, pode ser pressão política contínua. O importante é que estão a organizar-se para não serem passivos nisto.
Há alguma coisa que os governantes poderiam fazer agora para desescalar?
Assumir responsabilidade. Deixar de culpar os trabalhadores publicamente. Ser honesto sobre o que correu mal e quem o fez correr mal. Mas isso exigiria uma coragem política que não parece estar presente.
O Pulso
- A tensão acumulou-se durante semanas, mas explodiu quando governantes açorianos começaram a responsabilizar publicamente os trabalhadores pelos maus resultados financeiros da companhia aérea.
- O secretário das Finanças Duarte Freitas e o vice-presidente Artur Lima tornaram-se alvos diretos das acusações sindicais, que os descrevem como ameaçadores e politicamente desonestos.
- A sombra da privatização da Azores Airlines e de quatro anos de gestão descrita como desastrosa paira sobre o conflito, com os trabalhadores a recusarem ser responsabilizados por um processo que não controlaram.
- Uma moção foi entregue à administração da SATA e à Secretaria das Finanças, exigindo que gestores e políticos assumam as consequências da sua própria conduta.
- Para 10 de outubro está marcado um plenário que definirá as próximas formas de luta, sinalizando que este protesto é apenas o início de uma batalha mais prolongada.
Quando uma empresa enfrenta dificuldades, é tentador encontrar culpados entre os que menos poder têm para se defender. Em Ponta Delgada, a 29 de setembro, cerca de 150 trabalhadores da SATA saíram à rua para recusar esse papel — o de bode expiatório de uma gestão que não era a sua. O movimento Somos Todos SATA, voz de aproximadamente dois mil funcionários, ergueu-se contra o que considera uma transferência desonesta de responsabilidades por parte de governantes e administradores, num conflito que coloca frente a frente quem dá as ordens e quem as executa.
Na manhã de 29 de setembro, cerca de 150 trabalhadores da SATA reuniram-se em frente à sede da companhia em Ponta Delgada. O movimento Somos Todos SATA, nascido da união entre sindicatos e comissão de trabalhadores e representando cerca de dois mil funcionários, levou-os à rua com uma queixa clara: estavam a ser responsabilizados por problemas financeiros que não tinham criado.
O conflito vinha de longe. A 12 de setembro, o Sindicato dos Trabalhadores da Aviação e Aeroportos já exigia demissões no Governo dos Açores e na administração da SATA. O sindicato acusava o secretário das Finanças, Duarte Freitas, de ameaçar publicamente os trabalhadores, e criticava o vice-presidente Artur Lima por anunciar o reforço de rotas para a Terceira sem reconhecer que muitas dessas rotas internacionais operavam sistematicamente com prejuízo.
Numa moção entregue à administração e à Secretaria das Finanças, o movimento descrevia quatro anos de gestão marcada por incompetência manifesta e alertava que os governantes não estavam dispostos a assumir as consequências da sua própria conduta. A privatização da Azores Airlines, que deveria ter sido uma solução, transformara-se num ponto de tensão — e os trabalhadores recusavam ser responsabilizados por uma eventual falha nesse processo.
João Pacheco, porta-voz do movimento, traduziu em palavras a raiva contida dos presentes. Disse que os trabalhadores estavam cansados de serem expostos como culpados e que não tolerariam continuar a ser 'achincalhados na praça pública'. Exigiu que se identificasse quem realmente era responsável pelos problemas do grupo.
O movimento olha já para o futuro: a 10 de outubro está marcado um plenário para definir as próximas formas de luta. O que começou como uma concentração de protesto deixou claro que os trabalhadores da SATA estão preparados para uma batalha mais longa — e que não pretendem aceitar em silêncio a culpa que outros lhes querem atribuir.
Na manhã de 29 de setembro, cerca de 150 trabalhadores da SATA reuniram-se em frente à sede da companhia aérea em Ponta Delgada para expressar uma frustração que vinha crescendo há semanas. O movimento, batizado Somos Todos SATA, nasceu da união entre sindicatos e a comissão de trabalhadores da empresa — uma coligação que representa aproximadamente dois mil funcionários. O que os levou à rua foi uma acusação que consideravam não apenas injusta, mas humilhante: a de que eles próprios eram responsáveis pelos problemas financeiros que assolavam o grupo.
O conflito não começou naquele dia. A 12 de setembro, o Sindicato dos Trabalhadores da Aviação e Aeroportos já havia feito soar o alarme, exigindo demissões tanto no Governo dos Açores quanto na administração da SATA. O sindicato apontava o dedo para Duarte Freitas, secretário das Finanças, acusando-o de ameaçar publicamente os trabalhadores. Também criticava Artur Lima, vice-presidente, pela forma como anunciava o reforço de rotas para a Terceira — um anúncio que, segundo o sindicato, ignorava uma realidade incómoda: muitas das rotas internacionais ligadas àquela ilha operavam sistematicamente com prejuízo.
O que tornava a situação particularmente amarga era o contraste entre as acusações dirigidas aos trabalhadores e a realidade da gestão empresarial. Numa moção entregue tanto ao conselho de administração da SATA como à Secretaria das Finanças, o movimento argumentava que os governantes não estavam dispostos a assumir as consequências da sua própria conduta. Apontavam quatro anos de gestão que descreviam como desastrosa, marcada pelo que chamavam de incompetência manifesta na reestruturação do grupo. A privatização da Azores Airlines, que deveria ter sido uma solução, tornou-se um ponto de tensão — e os trabalhadores não queriam ser responsabilizados por uma eventual falha nesse processo.
João Pacheco, porta-voz do movimento, dirigiu-se aos trabalhadores concentrados com palavras que refletiam a raiva contida. Disse que havia um descontentamento generalizado na empresa, agravado pelas declarações públicas que sugeriam que a SATA poderia deixar de existir em breve. Os trabalhadores, afirmou, estavam cansados de serem expostos publicamente como culpados por uma situação que não tinham criado. "Os trabalhadores estão unidos e não vão tolerar a forma como foram achincalhados na praça pública", declarou, pedindo que se identificasse quem realmente era responsável pelos problemas do grupo.
A linguagem utilizada na moção era forte. Os trabalhadores repudiavam o que descreviam como ameaças grosseiras da administração, exigindo que gestores e responsáveis políticos recolocassem a verdade no seu lugar e assumissem os resultados da sua própria gestão. Não era apenas um protesto contra acusações injustas — era uma recusa em aceitar que a culpa fosse transferida para quem executava as ordens, não quem as dava.
O movimento tinha planos para o futuro. A 10 de outubro estava marcado um plenário onde seriam decididas as formas de luta que considerassem mais apropriadas. O objetivo declarado era lutar pela recuperação de todas as empresas do grupo. O que começou como uma concentração de protesto em Ponta Delgada sinalizava que os trabalhadores da SATA estavam preparados para uma batalha mais longa — uma em que pretendiam deixar claro que a responsabilidade pelos problemas da companhia não lhes pertencia.
Citações Notáveis
Os trabalhadores estão unidos e não vão tolerar a forma como foram achincalhados na praça pública, e pedem que se apure quem são os culpados pela situação no grupo SATA— João Pacheco, porta-voz do movimento
Existe um descontentamento generalizado na empresa, que se tem vindo a agravar com base nas declarações públicas que a empresa poderá deixar de existir nos próximos tempos— João Pacheco