Em meio ao ruído das telas e à ansiedade coletiva sobre o futuro da leitura, uma pesquisa brasileira revela que o verdadeiro mediador entre um jovem e os livros não é o algoritmo, mas o exemplo silencioso de quem vive ao seu lado. O hábito de ler, como tantos outros, nasce — ou morre — dentro de casa, antes mesmo de qualquer escola ou plataforma digital entrar em cena. A tecnologia, que tantas vezes carrega o peso da culpa, parece ser menos determinante do que a presença — ou ausência — de adultos que abrem livros.
Telas atrapalham, mas família e acesso definem hábito de leitura em adolescentes
Quem não gostava de ler na TV não gosta agora
Se 81% das crianças entre 11 e 13 anos leem, por que caímos para 62% aos 14? O que muda tão drasticamente?
A pesquisa mostra o pico, mas não explica a queda. O que sabemos é que nessa transição começam a aparecer outras pressões — escola mais exigente, redes sociais mais intensas, identidade em formação. E se a família não reforçou o hábito, ele desaparece.
Mas espera — 81% é considerado leitor. Qual é a definição? Alguém que leu um livro no ano? Que lê regularmente? Porque isso muda tudo.
Ótima pergunta. A pesquisa Retratos da Leitura usa critério próprio, mas não está claro no material. O que importa é a tendência: há uma queda real entre essas faixas.
E quanto às telas? A reportagem diz que não são as vilãs, mas elas claramente competem pela atenção.
Competem, sim. Mas Juçara Teixeira faz uma comparação importante: na era da TV, quem não gostava de ler também não gostava. Então o problema não é a tecnologia em si, é se a família criou o hábito antes.
Isso pressupõe que a família teve acesso a livros e tempo para ler. Quantas famílias brasileiras têm isso? A reportagem não toca em classe social, renda, acesso material.
Verdade. Ela foca em influência familiar, mas não desagrega por contexto socioeconômico. Sabemos que Diário de um Banana lidera empréstimos em bibliotecas públicas de São Paulo — isso é acesso, não preferência natural.
Então o livro físico versus digital — por que os adolescentes preferem físico se cresceram com telas?
Eles dizem que é pela textura, pelo cheiro, pela possibilidade de sublinhar. Mas Carla Coscarelli sugere algo mais: eles estão conscientemente buscando se afastar das telas. É uma reação.
Ou é porque o livro físico é mais acessível em bibliotecas públicas do que o digital. A reportagem não pergunta se eles têm acesso a leitores de e-book ou assinaturas de plataformas digitais.
The Pulse
- O interesse pela leitura despenca de 81% para 62% entre os 11 e os 17 anos, sinalizando uma janela crítica em que o hábito pode se consolidar ou desaparecer para sempre.
- A narrativa conveniente de que celulares e redes sociais destroem leitores é contestada por especialistas: o mesmo padrão de abandono existia na era da televisão, apontando para causas mais profundas.
- A escola agrava o problema ao impor leituras obrigatórias desconectadas do universo adolescente, enquanto bibliotecas públicas revelam que séries como Diário de um Banana e Harry Potter dominam os empréstimos com folga.
- Jovens que encontraram seu gênero — terror, fantasia, mangá, quadrinhos — tornaram-se leitores por conta própria, sugerindo que o acesso ao livro certo, na hora certa, é decisivo.
- Num paradoxo revelador, adolescentes nativos digitais declaram preferência pelo livro físico: querem sentir a textura, o cheiro, e reconhecem a necessidade de escapar das telas.
Em meio ao ruído das telas e à ansiedade coletiva sobre o futuro da leitura, uma pesquisa brasileira revela que o verdadeiro mediador entre um jovem e os livros não é o algoritmo, mas o exemplo silencioso de quem vive ao seu lado. O hábito de ler, como tantos outros, nasce — ou morre — dentro de casa, antes mesmo de qualquer escola ou plataforma digital entrar em cena. A tecnologia, que tantas vezes carrega o peso da culpa, parece ser menos determinante do que a presença — ou ausência — de adultos que abrem livros.
Os adolescentes brasileiros vivem cercados de telas, e num país onde a maioria das pessoas não lê, é tentador apontar a tecnologia como culpada pelo afastamento dos livros. Mas especialistas ouvidos pela Folha propõem um diagnóstico mais desconfortável: o problema mora na família.
Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil de 2024, 81% das crianças entre 11 e 13 anos são leitoras. Esse número cai para 62% na faixa dos 14 aos 17 — uma queda que educadores consideram estratégica. Juçara Teixeira, professora de português no Centro Pedagógico da UFMG, observa que o padrão atual replica o que acontecia na era da televisão: quem não lia naquela época se parece muito com quem não lê hoje. O que faz diferença, segundo ela, é se a família pratica a leitura em casa.
Os relatos dos próprios jovens confirmam essa lógica. Anna Carolina, 14 anos, tornou-se leitora assídua espelhando-se na irmã mais velha. Samuel Matheus, 13, só descobriu os livros recentemente, atraído por sagas de fantasia que dialogam com os desenhos que sempre consumiu. Barbara, 13, encontrou o prazer da leitura quando finalmente topou com livros de terror — seu gênero. Antes disso, nunca conseguia terminar nada.
Outro obstáculo é a desconexão entre o que a escola exige e o que os adolescentes querem ler. Pedro Ryan, 14, reclama que os livros obrigatórios são histórias antigas, distantes da sua realidade. Os dados de empréstimos em bibliotecas públicas de São Paulo são eloquentes: 16 títulos da série Diário de um Banana estavam entre os 20 mais emprestados no ano passado, somando quase 3.800 retiradas. Fantasia, aventura, quadrinhos e mangás são os gêneros que realmente falam com essa geração.
Um detalhe surpreendente emerge quando se pergunta sobre formato: apesar de nativos digitais, esses jovens preferem o livro físico. Maria Eduarda, 14, fala na alegria de pegar o objeto, sentir a textura e o cheiro, sublinhar com marca-texto. Katy Michelle, 11, fã de mangás, concorda — e admite que, depois de tanto tempo no telefone, quer algo diferente. Para Carla Coscarelli, professora da UFMG, essa preferência revela tanto o prazer tátil do livro quanto uma consciência crescente dos jovens sobre a necessidade de equilibrar o tempo de tela com outras experiências.
Os adolescentes brasileiros vivem cercados por celulares, redes sociais e plataformas de jogos que competem pela atenção desde cada vez mais cedo. Num país onde a maioria das pessoas não lê, é fácil culpar as telas pelo fracasso em criar hábitos de leitura entre jovens. Mas especialistas apontam uma verdade mais incômoda: o problema não está na tecnologia em si, e sim na família.
Entre 11 e 14 anos, a leitura atinge seu pico — 81% das crianças nessa faixa etária são consideradas leitoras, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil de 2024. Depois disso, o interesse desaba. Aos 14 anos, quando entra na faixa dos 14 aos 17, o percentual cai para 62%. Essa transição marca um ponto crítico que educadores veem como estratégico para consolidar ou perder o hábito para sempre.
Juçara Teixeira, professora de português do 9º ano no Centro Pedagógico da UFMG, rejeita a narrativa das telas como vilãs. Ela observa que o padrão atual replica exatamente o que acontecia na era da televisão — quem não gostava de ler naquela época é semelhante a quem não gosta agora. O que realmente importa, segundo ela, é se a família pratica leitura, compra livros, lê em casa. Quando essa cultura não existe, o estudante raramente a desenvolve por conta própria.
Anna Carolina, 14 anos, é um exemplo vivo dessa influência. Leitora assídua de romances infantojuvenis, ela se espelhou na irmã mais velha, de 25 anos, e hoje lê em qualquer lugar — em casa, na escola, em todo canto. Samuel Matheus, 13, teve trajetória oposta. Sem incentivo familiar na infância, só começou a se interessar por livros recentemente, atraído por sagas como Harry Potter e Assassin's Creed — histórias com magia e seres míticos que dialogam com os desenhos animados que consumiu a vida toda.
Outro obstáculo emerge quando as preferências dos adolescentes colidem frontalmente com o que a escola impõe. Pedro Ryan, 14, reclama que os livros obrigatórios são histórias antigas, desconectadas da realidade dele. Ele não se considera grande leitor, mas gosta de gibis da Turma da Mônica. Patrícia Cardoso, professora de português numa escola da zona norte de São Paulo, confirma o padrão: muitos alunos adoram mangá, quadrinhos e romances infantojuvenis, mas rejeitam o que ela e seus colegas propõem em sala.
Os dados de empréstimos em bibliotecas públicas de São Paulo revelam o que adolescentes realmente querem ler. A série Diário de um Banana, de Jeff Kinney, domina completamente. No ano passado, 16 títulos da coleção estavam entre os 20 mais emprestados, somando 3.745 retiradas. De 2022 a 2024, a série manteve a hegemonia. O único livro fora dessa série que entra no top dez é Harry Potter e a Pedra Filosofal. Outros destaques incluem O Ladrão de Raios de Rick Riordan, Diário de uma Garota Nada Popular de Rachel Renée Russell, Heartstopper de Alice Oseman e O Homem-cão de Dav Pilkey. Fantasia, aventura e romances infantojuvenis são os gêneros que realmente falam com essa geração, junto com quadrinhos e mangás.
Barbara, 13, descobriu o prazer da leitura quando encontrou livros de terror — seu gênero. Antes disso, tentava ler e nunca conseguia terminar nada porque nada a interessava. Duda Spier, 20, estudante de publicidade que mantém o perfil literário @entremundosepáginas desde os 16, identificou um vazio: não existe um site oficial que classifique livros por faixa etária. Ela começou a publicar resenhas com indicação de idade, pesquisando em editoras, Amazon e outras fontes, porque sabe que muitos adolescentes não sabem por onde começar.
Um detalhe surpreendente emerge quando se pergunta aos jovens sobre formato: apesar de nativos digitais, eles preferem livro físico. Maria Eduarda, 14, explica que o digital é legal, mas não tem a mesma alegria de pegar um livro físico, sentir a textura, o cheiro. Ela gosta de sublinhar trechos com marca-textos. Katy Michelle, 11, fã de mangás como Takagi - A Mestra das Pegadinhas, concorda: o livro permite tocar, ver as páginas, analisar melhor. Ela passa muito tempo no telefone e quer algo diferente. Carla Coscarelli, professora da Faculdade de Letras da UFMG, vê nisso tanto o prazer tátil do objeto quanto uma consciência dos jovens sobre a necessidade de limitar o tempo de tela. É positivo que eles entendam que existem outras atividades tão legais quanto — jogar futebol, tocar um instrumento, fazer arte, ler um livro.
Notable Quotes
Se a família não tem a prática de leitura, a cultura de comprar livros, de ler livros, isso interfere no hábito daquele estudante— Juçara Teixeira, professora de português do 9º ano do Centro Pedagógico da UFMG
É muito positivo que os alunos tenham essa consciência de que o tempo de tela é legal no tempo dele, mas que tem outras atividades tão legais— Carla Coscarelli, professora da Faculdade de Letras da UFMG