Cirurgiã-dentista de Natal com trajetória no movimento estudantil e negro, Martins chega à disputa presidencial após concorrer a vice em 2022 com apenas 0,05% dos votos. Seu programa inclui calote da dívida pública, reestatização de empresas, nacionalização de bancos e recursos estratégicos, além de frentes emergenciais de trabalho.
Única candidata negra à Presidência promete dobrar salário mínimo e fim da escala 6x1
Violência política que demonstra misoginia, patriarcado, machismo e racismo
Então ela trabalhou como dentista até julho enquanto fazia campanha presidencial? Como é possível conciliar isso?
Ela mesma diz que conciliou emprego com viagens de pré-campanha. Não é incomum em candidaturas de partidos menores, que têm menos recursos. A Unidade Popular cresceu em filiados, mas continua dependendo da militância e contribuições dos próprios membros.
Mas a gente não sabe quanto tempo ela realmente dedicava a cada coisa. "Conciliar" pode significar muita coisa. E a pesquisa Datafolha mostra 1% — isso é praticamente invisível eleitoralmente.
Verdade. Mas ela minimiza esse número, focando no crescimento do partido e na possibilidade de eleger deputados. Para ela, essa candidatura é mais sobre construir base do que vencer agora.
E quanto ao programa de governo? Duas páginas parece muito pouco.
É o mínimo legal exigido pelo TSE. Ela promete um programa mais detalhado depois, mas reconhece que não conseguiram no tempo que queriam.
Então o eleitor está votando em ideias gerais — socialismo brasileiro, nacionalizações, fim da escala 6x1 — sem um plano detalhado. Isso é um risco real.
Os ataques que ela sofre nas redes — sobre cabelo, pele, higiene — isso é documentado ou são relatos dela?
Ela diz que fez boletim de ocorrência e pretende levar à Justiça. Mas a reportagem não traz exemplos específicos dos comentários.
Exato. Sabemos que ela sofreu ataques e que ela os caracteriza como violência política racista e misógina. Mas não vemos os comentários reais. É importante distinguir entre o que ela relata e o que está verificado.
E a rejeição a federações com PT e PSOL — isso a isola muito à esquerda?
Ela diz que prefere alianças programáticas, não eleitorais. Mas sim, isso significa que ela não vai fazer acordos tradicionais. É uma posição ideológica clara.
E também significa que ela tem menos poder de barganha. Um partido com 1% de intenção de voto não consegue impor muita coisa em negociações.
The Pulse
- Samara Martins, 38 anos, cirurgiã-dentista no SUS em Natal, única mulher negra candidata à Presidência
- Propõe dobrar o salário mínimo e eliminar a escala de trabalho 6 por 1
- Concorreu a vice em 2022 com 0,05% dos votos; agora soma 1% em pesquisa Datafolha
- Unidade Popular cresceu de 3.210 para 16.527 filiados entre 2022 e 2026
- Programa de governo registrado no TSE tem duas páginas; promete versão mais detalhada
Cirurgiã-dentista de Natal com trajetória no movimento estudantil e negro, Martins chega à disputa presidencial após concorrer a vice em 2022 com apenas 0,05% dos votos. Seu programa inclui calote da dívida pública, reestatização de empresas, nacionalização de bancos e recursos estratégicos, além de frentes emergenciais de trabalho.
Samara Martins (UP), única mulher negra candidata à Presidência, defende dobrar o salário mínimo, acabar com escala 6x1 e implementar nacionalizações estratégicas como plataforma socialista brasileira.
Samara Martins tem 38 anos, é cirurgiã-dentista no SUS em Natal e acaba de se tornar a única mulher negra candidata à Presidência da República. Nascida em Belo Horizonte, ela brinca que é "potineira" — mora no Rio Grande do Norte desde que se formou pela Universidade Federal local, onde também constituiu família. Sua plataforma é clara: dobrar o salário mínimo e eliminar a escala de trabalho 6 por 1, medidas que ela enquadra dentro de um projeto maior de transformação socialista do país.
A trajetória política de Martins começou cedo. Ainda adolescente, participou do movimento estudantil, integrou o grêmio escolar e se envolveu na mobilização pelo passe livre. Depois, foi diretora de mulheres da União Nacional dos Estudantes, militou no movimento de mulheres Olga Benário e coordenou a Frente Negra Revolucionária, uma iniciativa da Unidade Popular dedicada ao combate ao racismo. Até julho deste ano, ela continuava trabalhando como dentista, conciliando o emprego com viagens de pré-campanha.
Esta não é sua primeira candidatura presidencial. Em 2022, Martins concorreu como vice-presidenta ao lado de Leonardo Péricles, também pela Unidade Popular. A chapa recebeu pouco mais de 53 mil votos — 0,05% do total. Agora, quatro anos depois, ela encabeça a chapa como candidata principal. Martins atribui a mudança ao fortalecimento do partido, que cresceu de 3.210 filiados para 16.527. Mesmo assim, os recursos continuam escassos: a campanha depende da militância e das contribuições dos próprios filiados, assim como acontecia em 2022.
Uma pesquisa Datafolha de julho mostrou que Martins soma 1% das intenções de voto para presidente — um número que ela minimiza em entrevista. "Queremos que neste ano seja a primeira eleição dos nossos deputados federais e estaduais", afirma. Seu projeto se define como uma alternativa socialista à esquerda tradicional, mas sem inspiração em Cuba, Venezuela, China ou Vietnã. Ela fala em "socialismo brasileiro".
Quanto aos primeiros cem dias no Palácio do Planalto, Martins cita o calote — ou suspensão, como prefere chamar — da dívida pública como a medida mais importante. Em seguida, aparecem a reestatização de empresas públicas que foram privatizadas e a nacionalização de recursos estratégicos como terras raras, petróleo e minérios. Ela também defende a nacionalização dos bancos: "para que o dinheiro do povo brasileiro não esteja à mercê dos bancos privados, que usam para especulação, para o rentismo, como foi o escândalo do Banco Master". Seu plano inclui ainda a criação de frentes emergenciais de trabalho, redução da jornada laboral e aumento salarial, tudo empacotado em um projeto de reindustrialização do país.
Martins rejeita integrar federações com partidos como PT, PSOL, PSTU ou PCB. Ela prioriza o que chama de alianças "programáticas" em pautas específicas — como o fim da escala 6 por 1 — em vez de acordos eleitorais entre legendas. Quando questionada sobre eventual apoio a Lula em um segundo turno, ela resiste em se antecipar, embora reconheça que o petista e Flávio Bolsonaro "não são a mesma coisa".
Desde que foi oficializada como candidata, Martins relata sofrer ataques nas redes sociais. Os comentários focam em seu cabelo, sua pele e até sua higiene. "Há uma violência política muito grande que demonstra toda a misoginia, todo o patriarcado, todo o machismo e todo o racismo dessa sociedade", afirma. Ela já fez um boletim de ocorrência e pretende levar os responsáveis à Justiça. Em seu programa de governo, defende a criminalização da misoginia e a implementação de uma educação não sexista nas escolas, além de políticas de moradia e renda para mulheres em situação de violência.
O plano de governo da Unidade Popular registrado no Tribunal Superior Eleitoral tem apenas duas páginas — uma exigência legal mínima. Questionada sobre isso, Martins explica que pretendem lançar um programa mais detalhado em breve. "A gente não conseguiu no tempo que a gente queria. Vamos apresentar [um novo plano de governo], até porque já temos um programa, que é o programa da Unidade Popular."
Notable Quotes
Queremos que neste ano seja a primeira eleição dos nossos deputados federais e estaduais— Samara Martins
Há uma violência política muito grande que demonstra toda a misoginia, todo o patriarcado, todo o machismo e todo o racismo dessa sociedade— Samara Martins, sobre ataques nas redes sociais