Lacerda: Coração de Tempestade revela a trajetória contorcida do político demolidor

Major Rubens Vaz morreu em atentado a tiros em 5 de agosto de 1954 ao escoltar Lacerda; presidente Getúlio Vargas se suicidou dezenove dias depois.
Espremendo-se o legado sobra um sujeito inteligente para pouco
Reflexão sobre a trajetória política de Lacerda nos primeiros 41 anos de vida documentados por Magalhães.
Mark

Por que um livro sobre Lacerda importa agora, em 2026? Ele morreu há quase 50 anos.

Mimi

Porque Magalhães desfaz mitos que duraram décadas. A gente pensava que sabia quem era Lacerda, mas a pesquisa revela contradições que ainda ecoam — um comunista que nunca se filiou, um demolidor que terminou defendendo a ditadura.

Luke

Mas o livro cobre só até 1955. A maior parte da vida dele, a defesa da ditadura que você mencionou, fica para volumes posteriores?

Mimi

Sim, esse é apenas o primeiro volume. Magalhães vai até o exílio de 1955. O epílogo salta para 1966 em Lisboa, mas a trajetória completa ainda está por vir.

Mark

E quanto ao atentado de 1954? Magalhães conseguiu apurar quem exatamente atirou?

Mimi

Ele identifica que foram pistoleiros da guarda pessoal de Vargas, financiada pelo caixa dois do Sistema S. Mas o livro é claro: o major Rubens Vaz morreu protegendo Lacerda.

Luke

Então não sabemos os nomes dos atiradores? Só que eram da guarda presidencial?

Mimi

Correto. Magalhães trabalha com o que a documentação permite — e ele é preciso nisso.

Mark

E Kubitschek? Como ele sai dessa história?

Mimi

Como o oposto de Lacerda. Onde Lacerda combatia e demolía, JK construía — estradas, hidrelétricas, Brasília. E onde Lacerda depois se rendeu à ditadura, JK manteve a fé nas liberdades democráticas.

Luke

Mas Magalhães está comparando dois homens que tiveram trajetórias muito diferentes. Como ele justifica colocar os dois no mesmo relato?

Mimi

Porque ambos foram proscritos da ditadura, ambos pensaram que poderiam fazer algo juntos em 1966. E porque seus legados, medidos hoje, mostram escolhas fundamentalmente diferentes sobre o que vale a pena defender.

  • Lacerda foi comunista mas nunca se filiou ao Partido Comunista
  • Major Rubens Vaz morreu em atentado a tiros em 5 de agosto de 1954 ao escoltar Lacerda
  • Getúlio Vargas se suicidou dezenove dias depois, em 24 de agosto de 1954
  • General Henrique Lott derrubou dois presidentes na noite de 11 de novembro de 1955 e garantiu posse de Juscelino Kubitschek
  • Lacerda foi exilado nos Estados Unidos após o golpe de 1955

Lacerda foi comunista mas nunca filiado ao PC; jornalista talentoso que se tornou feroz adversário de Getúlio Vargas e mobilizador político. Major Rubens Vaz morreu protegendo Lacerda em 1954; dezenove dias depois Vargas se suicidou; Lacerda foi exilado após golpe de Henrique Lott em 1955.

Novo livro de Mário Magalhães sobre Carlos Lacerda (1914-1955) documenta a vida do político que transitou da esquerda para a direita, participou de crises presidenciais e foi exilado após golpe de 1955.

Mário Magalhães acaba de lançar "Lacerda: Coração de Tempestade", primeiro volume de uma biografia que cobre os anos de 1914 a 1955 na vida de Carlos Lacerda. O livro chega às livrarias carregando respostas para perguntas que pairaram sobre um dos personagens mais centrais da política brasileira do século XX — um homem que começou comunista, virou demolidor de presidentes, e terminou exilado.

Antes de se tornar ícone da direita, Lacerda foi de fato comunista, embora nunca tenha se filiado formalmente ao Partido Comunista. Seu nome, Carlos Frederico, não era homenagem a Karl Marx e Friedrich Engels como se especulava — a biografia desfaz esse mito. O que é verdade é que seu primeiro amor foi a poeta Cecília Meireles, quando ela tinha 28 anos e ele mal completava 17. Jornalista de talento aguçado, possuía raciocínio rápido, prosa clara e dedos velozes nas máquinas de escrever. Em 1934, aos 20 anos, leu São Bernardo e reconheceu em Graciliano Ramos um grande romancista — enquanto tentava se matar pela primeira vez.

O general De Gaulle o chamava de "demolidor de presidentes". Lacerda desmontava tudo ao seu alcance, inclusive seu próprio pai, a quem chamava de "demagogo de merda". Feroz adversário de Getúlio Vargas, tornou-se um mobilizador político que o caricaturista Lan eternizou como Corvo. Sua escolta era composta por oficiais — nove da Força Aérea e alguns do Exército, entre eles Emílio Garrastazu Médici. Na madrugada de 5 de agosto de 1954, o major Rubens Vaz o acompanhava de volta ao apartamento na rua Tonelero, em Copacabana, quando dois pistoleiros abriram fogo. O major morreu. Dezenove dias depois, às portas da deposição política, Getúlio Vargas se suicidou. Magalhães dedica cerca de 40 páginas a esses dois episódios com a precisão de um repórter policial.

Lacerda havia defendido um regime de exceção para impedir que Vargas fosse eleito em 1950, tomasse posse em 1951 e governasse daí em diante. Ao fim, perdeu. Em 1955, o presidente morto elegeu Juscelino Kubitschek. O general Henrique Lott, ministro da Guerra, derrubou dois presidentes na noite de 11 de novembro e garantiu a posse de JK. O vencedor de 1954 teve que deixar o país, exilado nos Estados Unidos.

Magalhães reconstrói os primeiros 41 anos dessa vida contorcida num período tumultuado. Espremendo-se o legado desse Lacerda, sobra um sujeito inteligente e combativo para pouco, quase nada. Teria mais triunfos e fracassos até 1977, quando a morte o pegou aos 63 anos. Naqueles anos de transformação política, enquanto Lacerda ia da esquerda para a direita, dom Hélder Câmara e Alceu Amoroso Lima fizeram o caminho inverso. Cecil Borer, o ferrabrás dos calabouços do Estado Novo, ficou onde estava, a serviço do Palácio — foi ele quem prendeu Lacerda aos 19 anos, três dias antes de Adolf Hitler chegar ao poder.

Com o livro de Magalhães nas livrarias e a campanha presidencial na rua, a biografia funciona como um salto do passado no presente. Lacerda cavalgava o moralismo, combatendo o "mar da lama" do governo de Getúlio — pouco mais que um exagero. Juscelino Kubitschek, por sua vez, tomou posse em 1956 prometendo 50 anos em 5 e uma nova capital no Planalto Central. Com um sorriso inesquecível e otimismo contagiante, entregou quase tudo o que prometeu, mais uma economia envenenada pela inflação.

No epílogo, Magalhães salta de 1955 para 1966, em Lisboa, quando Lacerda e Kubitschek eram dois proscritos da ditadura e pensavam que juntos podiam ir a algum lugar. Foram a lugar algum. Passado meio século, pode-se medir o legado dos dois. Lacerda deu ao Rio água e a alma do Aterro, concebida por Lota de Macedo Soares, mas depois se tisnou defendendo a ditadura que o mastigou. Kubitschek fez estradas e hidrelétricas, mas seu pedestal é o compromisso com as liberdades democráticas e a fé no "monstro" — a opinião pública. Em dezembro de 1974, quando a oposição derrotou a ditadura nas urnas, JK estava num almoço e disse que não sabia o que aconteceria no Brasil, mas que haviam soltado o monstro e ele estava em todos os lugares. Dois anos depois, JK morreu num acidente de automóvel e o monstro o carregou nos ombros ao avião que o levaria a Brasília, onde ocorreu a maior manifestação popular desde 1964.

O que vai acontecer, não sei. Soltaram o monstro. Ele está em todos os lugares.
— Juscelino Kubitschek, em dezembro de 1974, referindo-se à opinião pública
Demolidor de presidentes
— General De Gaulle, descrevendo Carlos Lacerda
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