Às vésperas do primeiro turno das eleições brasileiras, o mercado de renda fixa encerrou a sexta-feira dividido entre dois impulsos contraditórios: dados econômicos fracos — tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos — pressionaram as taxas curtas para baixo, enquanto o avanço de Lula nas pesquisas elevou o prêmio de risco nas taxas longas. É o momento em que a economia e a política falam ao mesmo tempo, e o mercado tenta ouvir as duas vozes sem perder o equilíbrio.
Taxas curtas caem e longas sobem em sessão de cautela antes do primeiro turno
O mercado cobra mais prêmio para emprestar dinheiro por mais tempo
Por que as taxas curtas caem enquanto as longas sobem? Normalmente elas se movem juntas.
Porque o mercado está lendo dois sinais diferentes. Os dados fracos — produção industrial, empregos nos EUA — fazem o mercado pensar que os juros podem cair no curto prazo. Mas a eleição no domingo traz incerteza sobre quem vai controlar a inflação, então o mercado cobra mais prêmio para emprestar dinheiro por mais tempo.
Mas espera. Quanto dessa queda nas taxas curtas é realmente sobre os dados econômicos e quanto é apenas o mercado se posicionando antes da votação? O texto diz que as taxas "se recuperaram na sequência" — então talvez o movimento de queda tenha sido pequeno.
Verdade. O DI de janeiro de 2028 caiu 7 pontos-base, o que é uma queda modesta. E o texto deixa claro que houve reposicionamento durante o dia.
E por que Flávio é o preferido da Faria Lima se Lula está ganhando nas pesquisas?
Porque Flávio é visto como mais comprometido com a austeridade fiscal. O mercado teme que Lula reeleito não controle bem as contas públicas, o que alimentaria a inflação.
Mas o texto não diz que Flávio prometeu austeridade. Ele diz que é "visto" dessa forma. Isso é percepção de mercado, não necessariamente fato.
Faz sentido. Então quando as pesquisas mostram Lula na frente, o mercado sobe as taxas longas como forma de se proteger?
Exatamente. É um prêmio de risco. Se há mais chance de Lula vencer, o mercado quer ser compensado por esse risco.
Mas também vale notar que Lula e Flávio estão tecnicamente empatados no segundo turno — a margem de erro é de dois pontos. Então essa "vantagem numérica" de 3 pontos é real, mas não é uma diferença estatisticamente significativa ainda.
Il Polso
- A produção industrial brasileira recuou 0,6% em agosto e os EUA criaram apenas 29 mil empregos em setembro — números que frustraram expectativas e abriram a sessão em território negativo.
- A pesquisa Datafolha colocou Lula numericamente à frente de Flávio Bolsonaro, acendendo o alerta de investidores que temem impactos fiscais em caso de reeleição.
- Flávio Bolsonaro abandonou o debate da TV Globo, que foi cancelado — movimento interpretado como sinal desfavorável ao candidato preferido da Faria Lima.
- A curva de juros se partiu ao meio: DI janeiro 2028 caiu 7 pontos-base para 13,495%, enquanto DI janeiro 2035 subiu 3 pontos-base para 14,145%, traduzindo em números a tensão entre fraqueza econômica e risco eleitoral.
- Os Treasuries norte-americanos, após cair com o payroll fraco, voltaram a subir no fim do dia — o Treasury de dez anos ganhou 5 pontos-base para 5,281%, sinalizando que o prêmio de risco global também segue elevado.
Às vésperas do primeiro turno das eleições brasileiras, o mercado de renda fixa encerrou a sexta-feira dividido entre dois impulsos contraditórios: dados econômicos fracos — tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos — pressionaram as taxas curtas para baixo, enquanto o avanço de Lula nas pesquisas elevou o prêmio de risco nas taxas longas. É o momento em que a economia e a política falam ao mesmo tempo, e o mercado tenta ouvir as duas vozes sem perder o equilíbrio.
A última sexta-feira antes do primeiro turno das eleições brasileiras terminou com o mercado de renda fixa dividido — e esse racha na curva de juros contou, por si só, uma história sobre o momento do país.
O dia começou sob o peso de dados decepcionantes. O IBGE revelou que a produção industrial caiu 0,6% em agosto ante julho e 1,2% na comparação anual, quando o mercado esperava crescimento. Poucas horas depois, os Estados Unidos divulgaram a criação de apenas 29 mil empregos em setembro — muito abaixo dos 90 mil projetados — e a taxa de desemprego subiu para 4,2%. Os Treasuries despencaram, arrastando as taxas futuras brasileiras. O DI para janeiro de 2028 fechou em queda de 7 pontos-base, para 13,495%.
Mas o mercado não ficou apenas no pessimismo econômico. À medida que a sessão avançava, o foco se deslocou para o domingo. A pesquisa Datafolha mostrava Lula com 48% das intenções de voto num eventual segundo turno contra 45% de Flávio Bolsonaro — tecnicamente empatados, mas com vantagem numérica para o presidente. No primeiro turno, Lula marcava 42% e Flávio 38%. Para boa parte dos operadores financeiros, esse cenário é visto com desconfiança: Flávio é percebido como mais comprometido com a austeridade fiscal, enquanto Lula carrega o estigma de quem pode afrouxar o controle das contas públicas.
A decisão de Flávio de abandonar o debate da TV Globo — que acabou cancelado — foi lida como mais um sinal desfavorável ao senador. O resultado apareceu na ponta longa da curva: o DI para janeiro de 2035 subiu 3 pontos-base para 14,145%, embutindo o prêmio de risco eleitoral. No exterior, os Treasuries se recuperaram ao longo da tarde, com o papel de dez anos ganhando 5 pontos-base para 5,281%.
O mercado encerrou operando em dois tempos simultâneos — reconhecendo a fraqueza da economia global nas taxas curtas e se protegendo da incerteza política nas taxas longas. Essa tensão deve permanecer até que os votos de domingo sejam contados.
A sexta-feira nos mercados de renda fixa brasileiros começou com uma queda clara nas taxas de curto prazo, mas terminou com um quadro mais complexo: os juros futuros de longo prazo subiram enquanto os de curto prazo recuavam, tudo isso em um dia marcado pela cautela dos investidores diante de dois fatores que não costumam andar juntos — dados econômicos fracos e a proximidade de uma eleição presidencial.
O gatilho inicial veio de dados domésticos. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou que a produção industrial brasileira caiu 0,6% em agosto na comparação mensal e recuou 1,2% ante agosto do ano anterior. Os economistas consultados pela Reuters esperavam crescimento de 0,1% no mês e 0,4% no ano. Essa frustração abriu a sessão com as taxas dos DIs em território negativo, sinalizando que o mercado precificava uma economia mais fraca do que o esperado.
O cenário internacional amplificou essa pressão. Os Estados Unidos criaram apenas 29 mil postos de trabalho em setembro — bem menos que os 90 mil projetados — enquanto a taxa de desemprego subiu para 4,2%, acima da expectativa de 4,1%. A reação foi imediata: os rendimentos dos Treasuries despencaram, arrastando consigo as taxas futuras brasileiras. No fim da tarde, o DI para janeiro de 2028 fechou em 13,495%, uma queda de 7 pontos-base ante a sessão anterior. Parecia um dia de puro pessimismo.
Mas então o mercado respirou fundo e reposicionou suas apostas. Os investidores começaram a se preparar para o primeiro turno das eleições no domingo, e aqui a lógica se inverteu. A pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira mostrava Luiz Inácio Lula da Silva com 48% das intenções de voto em um eventual segundo turno contra 45% do senador Flávio Bolsonaro — tecnicamente empatados pela margem de erro de dois pontos percentuais, mas com Lula abrindo uma vantagem numérica de 3 pontos. No primeiro turno, Lula tinha 42% e Flávio 38%, com Augusto Cury em terceiro com 4%.
Para boa parte dos agentes do mercado financeiro, essa notícia não era favorável. Flávio Bolsonaro é visto como o candidato preferido da Faria Lima — a região de São Paulo que concentra operadores financeiros — porque é percebido como mais alinhado com a austeridade fiscal. Lula, por sua vez, segue sendo visto com desconfiança por investidores que temem sua reeleição prejudique o controle das contas públicas e, por consequência, o combate à inflação. Quando as pesquisas mostram Lula ganhando força, o mercado tende a precificar um prêmio de risco maior, elevando as taxas de longo prazo.
O dia também foi marcado por movimentos políticos que reforçaram a incerteza. Flávio desistiu de participar do debate da TV Globo na quinta-feira à noite, e a emissora cancelou o evento. Enquanto isso, Lula concedeu entrevista ao podcast Flow. Esses sinais foram interpretados como desfavoráveis ao senador, o que contribuiu para o viés de alta na curva brasileira.
O resultado final refletiu essa tensão entre dois movimentos: as taxas curtas, sensíveis aos dados econômicos fracos, fecharam em baixa. O DI para janeiro de 2035 — na ponta longa da curva — subiu 3 pontos-base para 14,145%, refletindo o prêmio de risco eleitoral. No exterior, após o choque inicial do payroll, os rendimentos dos Treasuries voltaram a subir, com o Treasury de dez anos ganhando 5 pontos-base para 5,281%, continuando uma tendência recente de elevação de prêmios na curva norte-americana.
O que fica claro é que o mercado está operando em dois tempos: reconhecendo a fraqueza econômica global, mas também se posicionando defensivamente diante da incerteza eleitoral brasileira. Até domingo, quando os votos forem contados, essa tensão deve permanecer.
Citazioni salienti
O mercado ainda vê Lula com desconfiança, enxergando sua reeleição como um empecilho para o controle das contas públicas e da inflação— Profissionais de mercado ouvidos pela Reuters