Nos mercados financeiros, a palavra de um relator pode valer mais do que a maré global. Na quinta-feira, enquanto os rendimentos dos títulos americanos subiam impulsionados por negociações sobre o teto da dívida dos EUA e pela persistência da inflação, a curva de juros brasileira seguiu caminho oposto — não por força própria, mas pela voz do deputado Cláudio Cajado, que desmentiu interpretações de que seu relatório sobre o arcabouço fiscal abriria espaço para 80 bilhões de reais em gastos adicionais em 2024. O esclarecimento reduziu o prêmio de risco embutido nos contratos longos, lembrando qu
Taxas futuras de juros caem com explicações de Cajado sobre arcabouço fiscal
As explicações de Cajado ajudaram a reduzir o prêmio de risco
Por que as explicações de Cajado tiveram tanto peso? As pessoas realmente acreditaram que ele tinha liberado 80 bilhões?
A imprensa havia publicado essa avaliação, então estava circulando entre os investidores como risco real. Quando Cajado saiu com uma nota técnica desmentindo, reduziu a incerteza sobre o tamanho do rombo fiscal.
Mas ele apenas explicou os cálculos. Não temos confirmação independente de que sua análise está correta ou de que a imprensa estava errada. É uma disputa de interpretação.
Verdade, mas para o mercado o que importa é a percepção. Se o relator consegue convencer que não há liberação de 80 bilhões, o prêmio de risco cai.
E por que a curva brasileira caiu enquanto os Treasuries subiam? Isso não deveria acontecer junto?
Normalmente sim, mas o Brasil estava respondendo a um fator doméstico específico — o arcabouço fiscal — enquanto os EUA respondiam a negociações sobre dívida e inflação. São dinâmicas diferentes.
Exatamente. O mercado brasileiro estava precificando risco fiscal. Quando Cajado reduziu esse risco, a curva virou. Nos EUA, o foco era outro.
Então o Banco Central mantém juros altos por enquanto?
Tudo indica que sim. O IPCA segue elevado e o BC está em postura dura, como disseram os operadores.
Mas isso pode mudar se a inflação ceder. Ainda é cedo para saber qual será o próximo movimento.
Der Puls
- A imprensa havia publicado que o relatório de Cajado permitiria ao governo ampliar despesas em cerca de 80 bilhões de reais em 2024, gerando tensão imediata nos contratos de juros longos.
- Durante quase toda a sessão, a curva brasileira acompanhou a alta dos Treasuries americanos, pressionada pelo risco fiscal doméstico e pelo ambiente externo adverso.
- Perto do fechamento, Cajado divulgou nota detalhando os cálculos técnicos de seu substitutivo e afirmando categoricamente que não havia acréscimo de despesas além do já proposto pelo governo.
- O esclarecimento reverteu as taxas longas: o DI para janeiro de 2027 recuou de 11,313% para 11,28%, enquanto os contratos de 2025 e 2026 também fecharam abaixo dos ajustes anteriores.
- A curva brasileira descolou do cenário externo, onde Treasuries de cinco e dez anos seguiam em alta, respondendo não a Nova York, mas ao que foi dito em Brasília.
Nos mercados financeiros, a palavra de um relator pode valer mais do que a maré global. Na quinta-feira, enquanto os rendimentos dos títulos americanos subiam impulsionados por negociações sobre o teto da dívida dos EUA e pela persistência da inflação, a curva de juros brasileira seguiu caminho oposto — não por força própria, mas pela voz do deputado Cláudio Cajado, que desmentiu interpretações de que seu relatório sobre o arcabouço fiscal abriria espaço para 80 bilhões de reais em gastos adicionais em 2024. O esclarecimento reduziu o prêmio de risco embutido nos contratos longos, lembrando que, nos mercados, a percepção muitas vezes precede — e às vezes supera — a realidade.
A sessão de quinta-feira nos mercados de juros futuros começou dentro do esperado: taxas curtas cedendo, taxas longas em alta, acompanhando o movimento dos títulos americanos. O ambiente externo justificava a pressão — Biden e o republicano Kevin McCarthy haviam declarado determinação em negociar o limite da dívida americana de 31,4 trilhões de dólares, o que reduzia o risco de calote, mas a inflação persistente nos EUA mantinha viva a expectativa de juros altos por mais tempo. Philip Jefferson, diretor do Fed indicado a vice-presidente, alertou que o progresso no combate à inflação podia estar desacelerando.
No Brasil, porém, a dinâmica mudou perto do fechamento. O deputado Cláudio Cajado, relator do novo arcabouço fiscal, divulgou uma nota desmentindo avaliações que circulavam na imprensa: seu relatório não abriria espaço para o governo ampliar despesas em 80 bilhões de reais em 2024. Cajado detalhou os cálculos técnicos utilizados e afirmou que seu substitutivo não acrescentava nenhum valor além do já proposto pelo governo.
O impacto foi imediato. As taxas longas, que estavam em alta, reverteram o movimento. O estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, explicou que as declarações de Cajado ajudaram a reduzir o prêmio de risco embutido nos contratos. O DI para janeiro de 2025 fechou em 11,71%, ante 11,766%; o de 2026 recuou para 11,215%, ante 11,271%. Felipe Garcia, do C6 Bank, havia observado antes da reviravolta que a curva vinha passando por um aplanamento, com o Banco Central mantendo postura dura e o IPCA elevado pressionando os juros curtos. A quinta-feira representou uma pequena — mas significativa — interrupção desse movimento, conduzida não pelo mercado global, mas por uma nota técnica enviada de Brasília.
A sessão de quinta-feira nos mercados de juros futuros brasileiros começou com um padrão que parecia previsível: as taxas curtas cediam enquanto as longas ganhavam força, acompanhando o movimento dos títulos americanos. Mas perto do fechamento, uma reviravolta. O relator do novo arcabouço fiscal, deputado Cláudio Cajado, do PP da Bahia, divulgou uma nota à imprensa desmentindo avaliações que circulavam sobre seu relatório. A imprensa havia publicado que seu texto abriria espaço para o governo ampliar despesas em aproximadamente 80 bilhões de reais em 2024. Cajado respondeu detalhando os cálculos e ajustes técnicos que havia utilizado, afirmando categoricamente que seu substitutivo não estava acrescentando nenhum valor além do que o governo já havia proposto.
Essas explicações tiveram impacto imediato na ponta longa da curva, que até então estava em alta. O movimento refletiu uma redução no prêmio de risco que os investidores estavam embutindo nos contratos. Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho, resumiu o efeito: as declarações de Cajado, ao tentar desfazer o ruído em torno da liberação de 80 bilhões que supostamente seu relatório permitiria, estavam ajudando a reduzir esse prêmio. No fechamento, a taxa do DI para janeiro de 2024 estava em 13,32%, ligeiramente abaixo dos 13,328% do ajuste anterior. Para janeiro de 2025, a taxa caiu para 11,71%, ante 11,766%. Os contratos mais longos também recuaram: janeiro de 2026 fechou em 11,215%, ante 11,271%, e janeiro de 2027 em 11,28%, ante 11,313%.
O que tornou esse movimento notável foi sua desconexão com o cenário internacional. Enquanto a curva brasileira fechava em queda, os rendimentos dos Treasuries americanos subiam. Nos EUA, o contexto era de alívio sobre a dívida federal. O presidente Joe Biden e o líder republicano Kevin McCarthy haviam declarado determinação em chegar a um acordo e iniciaram negociações diretas sobre o limite de dívida de 31,4 trilhões de dólares. Os investidores interpretaram isso como redução da probabilidade de calote americano. Simultaneamente, porém, persistia a percepção de que a inflação norte-americana seguia elevada, reduzindo as chances de corte de juros pelo Federal Reserve no curto prazo. Philip Jefferson, diretor do Fed indicado a vice-presidente, afirmou que o progresso no combate à inflação pode estar desacelerando, mas alertou que era cedo para avaliar o impacto total dos aumentos de juros já aprovados.
Esse viés de alta na curva americana se refletiu no Brasil durante quase toda a sessão, até o momento em que os comentários de Cajado mudaram a dinâmica. Felipe Garcia, chefe da mesa de operações do C6 Bank, havia observado antes dessa reviravolta que a curva estava passando por um aplanamento nos últimos dias, com o Banco Central mantendo postura mais dura e o IPCA elevado pressionando os juros curtos para cima enquanto os longos fechavam. A quinta-feira representava uma pequena reversão desse movimento. No fechamento, o Treasury de dez anos, referência global para decisões de investimento, subia 7,20 pontos-base, chegando a 3,6534%. O Treasury de cinco anos subia 10,30 pontos-base, a 3,6948%. A curva brasileira, porém, seguiu seu próprio caminho, respondendo não ao que acontecia em Nova York, mas ao que o relator do arcabouço fiscal havia dito em Brasília.
Bemerkenswerte Zitate
As declarações do Cajado, tentando desfazer o ruído da liberação de 80 bilhões que o relatório supostamente está fazendo, está ajudando a reduzir o prêmio— Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho
Seu substitutivo não está acrescentando nenhum valor ao que foi proposto pelo governo— Cláudio Cajado, relator do arcabouço fiscal