Startup de Nova York oferece serviço de morte assistida com rigor médico e ético

Pacientes terminais e gravemente doentes buscam morte assistida como alívio do sofrimento, incluindo idosos com doenças degenerativas e pessoas com câncer terminal.
Você é a solução e o pesadelo
O que um médico sente ao assumir o papel de ajudar alguém a morrer, segundo Cristian Zanartu.
Mark

Por que Tara Shapiro decidiu criar esse serviço depois de ajudar a sogra a morrer em Vermont? Parece uma mudança radical para uma médica de cuidados paliativos.

Mimi

Ela passou três décadas em hospitais combatendo a morte. Aquela experiência com a sogra a forçou a confrontar uma questão que não conseguia evitar: se a morte é inevitável e o sofrimento é real, qual é o papel do médico? Nova York legalizou a prática, e ela decidiu que poderia fazer isso com rigor.

Luke

Mas precisamos ser claros — ela não criou o serviço sozinha. São nove profissionais, e há tensões reais entre eles sobre como isso deveria funcionar. Cogan quer disponibilidade 24 horas; Zanartu acha que isso tornaria a morte mercantilizada. Essas não são questões resolvidas.

Mark

Qual é o critério legal para alguém receber essa ajuda?

Mimi

Duas avaliações médicas, uma psicológica, e você precisa ter uma doença terminal ou estar gravemente doente. Nova York tem normas rigorosas — entre as mais rigorosas do país.

Luke

Mas "gravemente doente" é vago. A equipe já sabe que vai receber ligações de pessoas que não se encaixam — alguém com Parkinson que pode viver anos, ou um paraplégico que quer morrer mas não tem doença terminal. Eles terão de recusar. Isso vai ser difícil.

Mark

Quanto custa?

Mimi

Pouco menos de 12 mil dólares. Para alguns pacientes, só saber que o medicamento está chegando à porta já é um alívio.

Luke

Mas quem paga? A reportagem não diz se há cobertura de seguro, se há subsídios para pobres. Isso importa muito para quem realmente tem acesso.

Mark

Zanartu disse algo que parece central — que ele é "a solução e o pesadelo". Como os médicos vivem com isso?

Mimi

Eles estão no começo. Ainda estão descobrindo como fazer isso com dignidade. Não há manual para isso.

Luke

E não sabemos ainda como vai ser quando tiverem dezenas ou centenas de pacientes. Uma coisa é a primeira paciente, uma mulher com câncer terminal. Outra é lidar com a pressão, as ligações, as recusas difíceis.

  • Nova York tornou-se o 13º estado americano a legalizar o suicídio assistido, com exigências entre as mais severas do país — duas avaliações médicas e uma psicológica antes de qualquer prescrição.
  • A Quiĕtus nasceu da tensão entre décadas de combate à morte e a escolha deliberada de acelerá-la, reunindo médicos, enfermeiros e um ex-monge budista em torno de questões que a medicina raramente precisa responder.
  • A equipe enfrenta dilemas práticos e éticos sem precedentes: como obter medicamentos letais em quantidade, como lidar com pacientes que não preenchem os critérios legais e se uma 'boa morte' deveria estar disponível a qualquer hora.
  • Desde 5 de agosto, o serviço atende pacientes terminais em seus lares — e cada visita carrega uma dualidade perturbadora, como resumiu o médico Zanartu: 'Você representa o alívio, mas também representa o horror.'

Em Nova York, onde a lei finalmente autorizou o suicídio assistido por médicos, um grupo de profissionais de saúde fundou a Quiĕtus — o primeiro serviço do estado dedicado a acompanhar pacientes até uma morte escolhida. Liderada pela médica Tara Shapiro, cuja própria sogra morreu em seus braços após décadas de medicina paliativa, a iniciativa confronta uma das fronteiras mais antigas da ética médica: a linha entre curar e deixar partir. O serviço, rigoroso e íntimo, cobra cerca de 12 mil dólares e vai até a casa do paciente, carregando consigo tanto o alívio quanto o peso de uma decisão irreversível.

A sogra de Tara Shapiro tinha 81 anos, uma doença muscular degenerativa e uma vontade inabalável: estava pronta para morrer. Quando o marido a salvou de um engasgo com a manobra de Heimlich, ela se enfureceu. Em 2023, a família foi até Vermont — estado que havia legalizado a assistência médica para morrer — e, ao som de Frank Sinatra, Janice bebeu a mistura preparada pela nora. Em vinte minutos, morreu como quis.

A experiência transformou Tara. Médica de cuidados paliativos há três décadas, ela havia presenciado centenas de mortes, mas nunca havia cruzado a linha entre acompanhar e acelerar. Quando Nova York legalizou o suicídio assistido por médicos, ela reuniu oito outros profissionais para criar a Quiĕtus, serviço que começou a funcionar em 5 de agosto. Sem consultório fixo, a equipe vai até a casa dos pacientes, que passam por avaliações médicas e psicológicas antes de receber a prescrição letal. O custo é de cerca de 12 mil dólares.

O grupo é heterogêneo e carregado de história: há um assistente social que foi monge budista, um médico que trata traumas com cetamina e um enfermeiro que sonhou com esse serviço depois de ouvir idosos suplicarem pelo fim do sofrimento. Durante meses, debateram questões inéditas — como obter os medicamentos, como entregá-los com segurança, se deveriam estar disponíveis a qualquer hora. Havia divergências genuínas: para alguns, a disponibilidade imediata era uma obrigação moral; para outros, uma boa morte não deveria funcionar sob demanda.

A equipe sabia que receberia pedidos de pessoas fora dos critérios legais — pacientes com doenças graves mas não terminais, com prognóstico superior a seis meses. A resposta seria dolorosa, mas necessária: solidariedade sem exceção à lei. Na primeira visita oficial, o médico Zanartu foi até uma mulher de meia-idade com câncer terminal. No caminho, refletiu sobre o papel que havia escolhido. 'Você é a solução e o pesadelo', disse. É nessa contradição que a Quiĕtus existe.

A sogra de Tara Shapiro engasgou durante uma refeição. O marido fez a manobra de Heimlich e salvou sua vida. Janice Shapiro, aos 81 anos, enfureceu-se. Ela sofria de uma doença muscular degenerativa e havia tomado uma decisão: estava pronta para morrer. "Nunca mais faça isso comigo", disse ela.

Em 2023, a família dirigiu até Vermont, estado que havia acabado de legalizar a assistência médica para morrer para pessoas de fora de suas fronteiras. Num imóvel alugado, tocaram "My Way" de Frank Sinatra enquanto Tara misturava pós em suco de maçã. Janice bebeu tudo de uma vez. Em vinte minutos, estava morta.

Tara é médica de cuidados paliativos. Ao longo de três décadas em hospitais, presenciou centenas de mortes. Mas esta a transformou. Deixar de combater a morte para acelerá-la — o que isso significava? Como se reconciliava com o juramento de Hipócrates, que proíbe administrar remédio mortal? Ela vinha se debatendo com essas questões quando Nova York legalizou o que se chama suicídio assistido por médicos. Desde fevereiro, trabalha com um grupo de profissionais de saúde para criar o que acreditam ser o primeiro serviço do estado dedicado a ajudar pacientes a morrer em seus próprios termos.

O serviço, batizado Quiĕtus, começou a funcionar em 5 de agosto. Não tem consultório. A equipe vai até a casa dos pacientes. É uma espécie de startup para mortes dignas. Os pacientes passam por duas avaliações médicas e uma de saúde mental, recebendo depois a prescrição da combinação de medicamentos que os matará. Nova York tem algumas das normas mais rigorosas entre os 13 estados onde a prática é legal. O custo total é pouco menos de 12 mil dólares, cerca de 62 mil reais.

A Quiĕtus reúne nove profissionais. Além de Shapiro, está David Atkins, assistente social de cuidados paliativos que foi monge budista. Cristian Zanartu é médico de cuidados paliativos que também trata traumas com terapia de cetamina. Daniel Cogan, enfermeiro que trata dores crônicas, sonhou em criar esse serviço depois de atender idosos que lhe pediam para acabar com seu sofrimento. Durante meses, debateram questões que poucos serviços médicos precisaram considerar. Como conseguir grandes quantidades dos medicamentos? Rob Siegel encontrou uma farmácia familiar em Manhattan disposta a fornecer as doses letais. Como organizar a entrega de medicamentos potencialmente letais? Para alguns pacientes gravemente doentes, a chegada do medicamento à porta já seria, por si só, um alívio.

Mas havia tensões profundas. Cogan acreditava que assumir responsabilidade pela morte de uma pessoa significava estar disponível — se um paciente sentisse dor lancinante no meio da noite e quisesse morrer, os médicos não deveriam agir imediatamente? Zanartu discordava: se quisessem que o trabalho fosse terno e íntimo, talvez uma boa morte não devesse estar disponível sob demanda. Nas semanas antes da lei entrar em vigor, a equipe se sentia ao mesmo tempo insegura e preparada. Não sabiam quantos pacientes esperar. Atkins se perguntava sobre deixar seu emprego em tempo integral. Shapiro folheava álbuns com fotos da sogra, imaginando o que Janice teria dito sobre essa guinada em sua carreira.

A equipe foi alertada de que receberia ligações de pessoas que não atendiam aos critérios legais — pacientes com Parkinson cujos médicos diziam ter mais de seis meses de vida, por exemplo. Cogan imaginou alguém muito doente mas sem doença terminal ligando para pedir ajuda. "A resposta curta é: tenho enorme solidariedade, mas estes são os termos da lei", disse. A Quiĕtus teria de recusar. Em 5 de agosto, Zanartu visitou a primeira paciente, uma mulher de meia-idade com câncer terminal. No trajeto de carro, sentiu a natureza sombria do papel que assumia. "Você representa o alívio, mas também representa o horror", disse. "Você é a solução e o pesadelo."

Nunca mais faça isso comigo
— Janice Shapiro, após seu filho fazer a manobra de Heimlich
Você representa o alívio, mas também representa o horror. Você é a solução e o pesadelo.
— Cristian Zanartu, médico da Quiĕtus
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