Enquanto a América Latina se mobiliza em defesa da Venezuela, Cuba afunda em silêncio — sufocada por 64 anos de embargo, ameaças militares e apagões de até 15 horas diárias que paralisam hospitais, indústrias e a vida cotidiana de seu povo. O chanceler Bruno Rodríguez levará ao Conselho de Segurança da ONU, em 7 de julho, o que chama de crime contra a humanidade em curso. A inconsistência dos governos regionais revela não apenas timidez diplomática, mas uma hierarquia tácita de solidariedades — onde o peso de Washington determina quem merece defesa e quem merece silêncio.
Solidariedade à Venezuela contrasta com abandono de Cuba pela região
Apagões de até 15 horas diárias, alimentos perdidos, hospitais no limite
Por que a região está sendo solidária com a Venezuela mas ignorando Cuba?
Porque Trump ameaçava invadir a Venezuela e isso era visível, concreto. Cuba sofre há 64 anos, é invisível. E agora, com a crise energética, o sofrimento é silencioso — apagões, hospitais vazios, ninguém vê.
Mas a solidariedade à Venezuela também é fraca, não? Ninguém impediu nada.
Verdade. Mas há uma diferença: a Venezuela é recente, dramática, próxima. Cuba é antiga, normalizada. E há medo de Trump.
O Brasil poderia fazer algo?
Poderia. Tem energia, tem agricultura, tem poder. E tem uma dívida — 18 mil médicos cubanos trabalharam aqui.
Mas o Brasil está esperando a decisão do USTR em 15 de julho sobre tarifas. Até lá, vai pisar em ovos.
Exatamente. Lula quer evitar confronto. Mas se as sanções vierem mesmo, ele fica livre para ajudar Cuba.
Então Cuba tem que esperar até depois de 15 de julho?
Ou até depois das eleições brasileiras. Mas ninguém sabe quando isso vai acontecer.
O chanceler cubano vai à ONU no dia 7. Mas uma sessão especial não resolve nada — é apenas denúncia.
E os outros países progressistas? México, Uruguai?
México não quer cutucar os EUA. Uruguai é pequeno. Colômbia elegeu um de direita. Não há coalizão.
Le Pouls
- Cuba enfrenta apagões de até 15 horas diárias desde que o fornecimento de petróleo venezuelano foi interrompido, levando hospitais ao limite e paralisando transportes e indústrias.
- O governo Trump recolocou Cuba na lista de países que apoiam o terrorismo e pressiona diplomaticamente outros governos a votarem contra o fim do embargo na ONU.
- O chanceler cubano Bruno Rodríguez convocou sessão especial na ONU para 7 de julho, classificando o bloqueio como genocídio e punição coletiva contra a população civil.
- Governos latino-americanos, incluindo os progressistas, evitam confrontar Washington sobre Cuba enquanto demonstram solidariedade aberta à Venezuela — uma contradição que expõe os limites reais da autonomia regional.
- O Brasil hesita em agir: potência agrícola e energética com laços históricos a Cuba, enfrenta antes de 15 de julho a ameaça de novas tarifas norte-americanas que podem redefinir sua margem de manobra diplomática.
Enquanto a América Latina se mobiliza em defesa da Venezuela, Cuba afunda em silêncio — sufocada por 64 anos de embargo, ameaças militares e apagões de até 15 horas diárias que paralisam hospitais, indústrias e a vida cotidiana de seu povo. O chanceler Bruno Rodríguez levará ao Conselho de Segurança da ONU, em 7 de julho, o que chama de crime contra a humanidade em curso. A inconsistência dos governos regionais revela não apenas timidez diplomática, mas uma hierarquia tácita de solidariedades — onde o peso de Washington determina quem merece defesa e quem merece silêncio.
A solidariedade que a América Latina demonstra à Venezuela contrasta de forma perturbadora com o silêncio diante da crise cubana. Enquanto governos regionais se mobilizam para apoiar Maduro, Cuba enfrenta um cerco que combina 64 anos de embargo econômico, ameaças de invasão militar e um bloqueio energético que a empurra ao colapso. O chanceler Bruno Rodríguez anunciou que o país solicitará à ONU uma sessão especial para 7 de julho, destinada a denunciar o que chama de escalada de agressões norte-americanas.
A privação mais imediata é a de petróleo. Desde que o fornecimento venezuelano foi interrompido, Cuba experimenta apagões de até 15 horas diárias. Hospitais funcionam no limite, cirurgias são adiadas, alimentos escassos se perdem sem refrigeração, o transporte paralisa. Rodríguez qualificou essas medidas como genocídio e violação massiva dos direitos humanos — não um perigo futuro, mas um crime em execução. O governo Trump recolocou Cuba na lista de países que apoiam o terrorismo e pressiona outras nações a votarem contra a moção anual da ONU que pede o fim do embargo.
O paradoxo regional é flagrante. Nenhum governo latino-americano se move, nem mesmo os progressistas remanescentes — Brasil, México, Uruguai e Colômbia. O Brasil, em particular, carrega uma dívida simbólica: mais de 18 mil médicos cubanos atenderam populações remotas e vulneráveis em seu território, escrevendo uma página relevante da saúde pública brasileira.
Como maior economia do hemisfério após os Estados Unidos e potência agrícola e energética, o Brasil teria capacidade de socorrer Cuba. Mas hesita. Antes de 15 de julho, o USTR decidirá sobre novas tarifas e sanções ao Brasil — e qualquer ilusão de harmonia entre Lula e Trump pode desaparecer. Se isso ocorrer, o Brasil estará mais livre para estender a mão a Havana. O que muitos brasileiros esperam ouvir no dia 7 de julho é uma condenação firme ao bloqueio — do embaixador na ONU ou, preferivelmente, do próprio presidente.
A solidariedade que países da América Latina demonstram à Venezuela contrasta de forma perturbadora com o silêncio que mantêm diante da crise cubana. Enquanto governos regionais se mobilizam para apoiar Nicolás Maduro, Cuba enfrenta um cerco que combina embargo econômico de 64 anos, ameaças de invasão militar e, agora, um bloqueio energético que a está levando ao colapso.
O chanceler cubano Bruno Rodríguez anunciou na terça-feira, 30 de junho, que seu país solicitará à ONU uma sessão especial para o dia 7 de julho, destinada a denunciar o que caracteriza como escalada de agressões norte-americanas. A privação mais imediata é a de petróleo. Desde que o fornecimento da Venezuela foi interrompido após o sequestro de Nicolás Maduro, Cuba experimenta apagões de até 15 horas diárias. Hospitais funcionam no limite de suas capacidades, cirurgias e exames são adiados, alimentos escassos se perdem sem refrigeração, o transporte público paralisa, as indústrias param. Trata-se de um sofrimento sistemático, estruturado para torturar a população e envenenar seu apoio ao governo.
Rodríguez qualificou essas medidas como genocídio, punição coletiva e violação massiva dos direitos humanos. Afirmou que o bloqueio e as sanções, somados às ameaças de agressão militar direta, não representam um perigo futuro, mas um crime contra a humanidade em execução. O governo Trump recolocou Cuba na lista de países que apoiam o terrorismo — de onde havia sido removida por Biden — e circula documentos pelas embaixadas norte-americanas pressionando outros governos a votarem contra a moção anual da ONU que pede o fim do embargo comercial. Essa votação, embora aprovada regularmente, nunca teve efetividade prática.
O paradoxo regional é flagrante. Todos os governos latino-americanos sabiam que Trump planejava invadir a Venezuela para capturar ou matar Maduro, mas nada fizeram. Todos sabem hoje que Cuba está à beira de uma crise humanitária, mas ninguém se move. Nem mesmo o México, que evita cutucar seu vizinho perigoso. As vitórias eleitorais da extrema direita parecem desencorajar até os poucos governos progressistas restantes — Brasil, México, Uruguai e, por enquanto, Colômbia.
O Brasil, em particular, tem uma dívida com Cuba. Mais de 18 mil médicos cubanos vieram trabalhar no país, atendendo moradores de zonas rurais, pequenas cidades e locais ermos, escrevendo uma página importante da saúde pública brasileira. Como maior economia do hemisfério depois dos Estados Unidos e potência tanto agrícola quanto energética, o Brasil teria capacidade de socorrer Cuba assim como está fazendo com a Venezuela. Tal ajuda seria simultaneamente humanitária e um ato de soberania diante das pressões norte-americanas.
O momento é delicado. Antes de 15 de julho, o USTR — órgão máximo da política comercial dos EUA — decidirá sobre imposição de novas tarifas e sanções ao Brasil, supostamente por práticas comerciais desleais, incluindo o Pix. Se as sanções chegarem, qualquer ilusão de harmonia entre Lula e Trump desaparecerá, e o Brasil enfrentará risco de ingerência trumpista em suas eleições. Mas então Lula estará livre, inclusive, para estender a mão a Cuba como se espera que ainda faça. O que milhões de brasileiros que amam Cuba gostariam de ouvir, no dia 7 de julho, é uma condenação dura ao bloqueio — do embaixador Sergio Danese junto à ONU, ou, preferivelmente, do próprio presidente.
Citations marquantes
O bloqueio, as sanções e as ameaças de agressão militar não representam um perigo futuro, mas um crime contra a humanidade em plena execução— Bruno Rodríguez, chanceler cubano
Cuba não é, nem pode ser, uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos, que se constituem em uma grande potência militar e nuclear— Bruno Rodríguez, chanceler cubano