Em Portugal, o sistema de avaliação dos exames nacionais do ensino secundário revelou falhas que afetam dezenas de estudantes em todo o país — provas trocadas, correções erradas, folhas desaparecidas. O Ministério da Educação insiste em classificar os casos como esporádicos, mas as histórias que chegam das escolas de Lisboa, Almada, Porto, Madeira e Algarve sugerem um padrão mais profundo e perturbador. No horizonte, uma data implacável: candidaturas ao Ensino Superior encerram a 6 de agosto, um dia antes de os resultados das reapreciações serem afixados — deixando jovens à beira de perder não
Sofia, Nandhitha, Sara e Telma: quatro vítimas dos erros nos exames nacionais
Como é que eu ia provar que fiz o que fiz se o meu exame tivesse desaparecido?
Como é que um erro numa classificação de exame consegue afectar tanto a vida de um aluno?
Porque o Ensino Superior em Portugal funciona com prazos muito apertados. Se a tua nota não estiver corrigida até 6 de agosto, não consegues inscrever-te na primeira fase de candidaturas. A segunda fase tem muito menos vagas. É a diferença entre entrar no curso que queres e ter de esperar um ano inteiro.
Mas o ministério diz que são erros esporádicos. Porque é que isso não é verdade?
Porque não estamos a falar de um ou dois casos. Dezenas de alunos, de escolas diferentes, em todo o país, com o mesmo tipo de problemas: provas trocadas, itens de escolha múltipla mal corrigidos, notas que caem pela metade. Quando o padrão é tão claro, não é esporádico.
E as escolas? Estão a ajudar?
Sim, muitas escolas têm sido impecáveis, segundo os relatos. Mas o problema não está nas escolas. Está no sistema de correção, na digitalização das provas, na forma como as provas estão a ser distribuídas. As escolas estão a tentar apagar um incêndio que não criaram.
Qual é o custo real para um aluno como a Sofia ou a Nandhitha?
Além da ansiedade — e estamos a falar de alunos que não dormem, que ficam desmotivados — há o custo financeiro. Nandhitha tem de pagar 25 euros para pedir reapreciação. Mas o verdadeiro custo é a incerteza. Não sabem se conseguem inscrever-se no curso que querem, não sabem se vão ter de repetir o ano, não sabem se a culpa é deles ou do sistema.
O que é que os pais estão a fazer?
Estão em pânico. Alguns estão a faltar ao trabalho para ir às escolas ver as provas dos filhos. Outros estão a receber documentos que não pertencem aos seus filhos e não sabem se a nota que veem é a do seu filho ou não. É caos.
E isto vai ser resolvido a tempo?
Não há garantias. O ministério diz que nenhum aluno será prejudicado, mas o calendário não deixa margem. Se a reapreciação não ficar pronta até 6 de agosto, estes alunos ficam de fora da primeira fase. Essa é a realidade.
The Pulse
- Alunos que esperavam notas entre 14 e 18 encontraram classificações de 4 a 9 nas pautas, com casos documentados de provas trocadas e respostas corretas marcadas como erradas.
- O prazo para candidatura à primeira fase do Ensino Superior termina a 6 de agosto, mas os resultados das reapreciações só serão afixados a 7 — uma contradição que pode excluir estudantes das vagas mais disputadas.
- Provas digitalizadas chegam às escolas de forma desorganizada, por vezes sem classificações ou pertencendo a outros alunos, tornando quase impossível verificar os erros a tempo.
- Famílias abandonam o trabalho, cancelam tratamentos médicos e pagam taxas de 25 euros para pedir reapreciações que o ministério recusa isentar, enquanto o pânico se alastra.
- O movimento SOS Escola Pública diz estar 'assoberbado' com contactos de pais desesperados, e a CNN Portugal recebeu dezenas de casos que apontam para um padrão sistemático que contraria a narrativa oficial.
Em Portugal, o sistema de avaliação dos exames nacionais do ensino secundário revelou falhas que afetam dezenas de estudantes em todo o país — provas trocadas, correções erradas, folhas desaparecidas. O Ministério da Educação insiste em classificar os casos como esporádicos, mas as histórias que chegam das escolas de Lisboa, Almada, Porto, Madeira e Algarve sugerem um padrão mais profundo e perturbador. No horizonte, uma data implacável: candidaturas ao Ensino Superior encerram a 6 de agosto, um dia antes de os resultados das reapreciações serem afixados — deixando jovens à beira de perder não apenas notas, mas futuros.
O Ministério da Educação chama-lhes casos isolados. Mas as histórias acumulam-se.
Sofia, 17 anos, de Lisboa, queria entrar em Direito. Quando viu a pauta, encontrou um nove onde esperava um 17. A escola descobriu depois que tinha corrigido a versão errada do exame de Português — e ignorado o registo de dislexia da aluna. Com a reapreciação em curso, Sofia foi aconselhada a repetir o exame já esta semana, apenas por precaução. A mãe, Patrícia, faltou ao trabalho. Sofia perdeu sessões de fisioterapia.
Em Almada, Telma, 14 anos, encontrou um quatro no exame de Português onde esperava um 14. Indignada e desmotivada após dias de estudo, não conseguia sequer inscrever-se na segunda fase dos exames enquanto o erro não fosse resolvido. No Porto, Sara, natural da Madeira, viu pontos decisivos desaparecerem em Matemática B e Física e Química — pontos que podiam determinar a entrada em Medicina. No Algarve, Nandhitha anulou corretamente uma resposta em Geografia, seguindo as orientações, mas recebeu zero nesse item. Oito valores em 200 que podiam mudar a sua candidatura ao Ensino Superior — e para os recuperar, terá de pagar 25 euros numa taxa que o ministério se recusa a abolir.
Goreti Costa, do movimento SOS Escola Pública, descreve pais em pânico, provas digitalizadas a chegar 'a conta-gotas' às escolas, por vezes sem classificações ou pertencendo a outros alunos. O caos logístico agrava o que já é uma crise de confiança.
O ministério garante que nenhum aluno será prejudicado. Mas o calendário contradiz essa promessa: a candidatura à primeira fase do Ensino Superior fecha a 6 de agosto, os resultados das reapreciações só chegam a 7. Sofia, Telma, Sara e Nandhitha são quatro nomes entre dezenas — e o padrão que revelam vai muito além do que as autoridades estão dispostas a reconhecer.
O ministério da Educação insiste que os erros na classificação dos exames nacionais são casos isolados. Mas nas últimas semanas, dezenas de alunos e famílias têm uma história diferente para contar — histórias de notas que caíram pela metade, de provas trocadas, de itens marcados como errados quando estavam certos, de folhas de continuação que desapareceram ou chegaram trocadas.
Sofia, aluna de 17 anos da Escola Maria Amália Vaz de Carvalho em Lisboa, queria entrar em Direito. Tinha duas universidades no horizonte — o ISCTE ou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa — e sabia que as médias seriam apertadas. Na sexta-feira, viu na pauta um código de menos três no exame de Português. Não dormiu. Quando a mãe, Patrícia, explicou que era apenas um código para uma prova não corrigida ou extraviada, o alívio foi breve. "Como é que eu ia provar que fiz o que fiz se o meu exame tivesse desaparecido?", perguntou Sofia. Quando a nota finalmente apareceu, era um nove — mas deveria ter sido 17. A escola descobriu que tinham corrigido a versão errada do exame e não tinham considerado a dislexia de Sofia, apesar de isso estar registado. Agora, com a reapreciação em curso, Sofia foi aconselhada a fazer o exame de novo já nesta terça-feira, só para ter segurança.
Telma Souza, aluna de 14 anos, esperava uma nota em torno do 14 no exame de Português. No sábado, encontrou um quatro na pauta. "Acho que algumas questões não foram bem corrigidas", disse à CNN Portugal, em frente à Escola Secundária Emídio Navarro em Almada, onde tinha ido pedir a reapreciação. Estava indignada, desmotivada. Tinha estudado durante dias e dias. Agora não conseguia nem inscrever-se na segunda fase dos exames porque o problema não estava resolvido.
Sara Pereira, natural da Madeira, passou o último ano no Porto a preparar-se exclusivamente para os exames nacionais. Realizou Matemática B e Física e Química — dois exames que revelaram problemas generalizados. No item 6.2.1 de Matemática B, Sara tinha marcado a resposta correta segundo os critérios de avaliação, mas recebeu zero. Em Física e Química, o item 7.1 da versão 2 teve de ser reclassificado por causa de um erro na leitura automática. Sara contabilizou: menos 14 valores em 200 em Matemática B, menos 10 em 200 em Física e Química. Eram pontos que podiam determinar se entrava ou não em Medicina, com que tanto sonhava. Felizmente, teve 19 em Biologia e Geologia, o que a deixou mais tranquila — mas apenas porque esse exame tinha corrido bem.
No Algarve, Nandhitha Kammath, aluna do 11.º ano da Escola Secundária de Vila Real de Santo António, enfrentou um problema diferente. No exame de Geografia, assinalou uma resposta, arrependeu-se, colocou uma cruz anulando-a e marcou a resposta correta — exatamente como as orientações indicavam. Quando viu o PDF da sua prova, tinha zero nesse item em vez dos oito que merecia. Oito valores em 200 podem parecer pouco, mas podiam subir a sua nota de 145 para 153 — determinante quando precisasse de apresentar a classificação numa candidatura ao Ensino Superior. Nandhitha ia pedir reapreciação, mas teria de pagar 25 euros pela taxa que o ministério recusa abolir, classificando-a de "taxa moderadora".
Goreti Costa, representante do movimento SOS Escola Pública, diz-se "assoberbada" com o número de pais e encarregados de educação que a contactam. "Os pais estão em pânico", garante. Com prazos apertados para tomar decisões, muitos queixam-se que não sabem como vão arranjar tempo para ver as provas com os filhos e cumprir as suas funções no trabalho. Patrícia, mãe de Sofia, não foi trabalhar de manhã. Sofia tem fisioterapia por causa de uma lesão no cotovelo — sessões que agora tem de perder para lidar com os exames. Goreti Costa relata ainda que as provas digitalizadas estão a chegar "a conta-gotas" às escolas. Às vezes chegam as respostas sem as provas, depois as provas sem as classificações. Há pais que recebem provas digitalizadas que não pertencem aos seus filhos, e alguns desses documentos têm a mesma classificação — ninguém sabe se é a nota do seu filho ou não.
O ministério assegura que "nenhum aluno será prejudicado". Mas o calendário diz outra coisa. A data limite para afixação dos resultados de reapreciação é 7 de agosto. A candidatura à primeira fase do Ensino Superior termina a 6 de agosto. Estes jovens podem ficar impedidos de se inscrever na primeira fase, tendo de esperar pela segunda, que tem muito menos vagas. Sofia, Telma, Sara e Nandhitha são apenas quatro nomes entre dezenas de casos que chegaram à redação da CNN Portugal — alguns confirmados, outros que pais, alunos e professores preferiram não contar de viva-voz, mas que revelam um padrão que vai muito além do que o ministério está disposto a admitir.
Notable Quotes
Os pais estão em pânico— Goreti Costa, representante do movimento SOS Escola Pública
Nenhum aluno será prejudicado— Ministério da Educação