Super El Niño coloca Rio em alerta máximo; prefeitura antecipa protocolos de verão

Morte de fã durante show de Taylor Swift em 2023 motivou implementação de protocolo de calor; 40% do território sofre alto impacto do calor afetando crianças, idosos e pessoas em situação de rua.
As águas de março podem estar chegando antes do verão
O prefeito Eduardo Cavaliere explicou que os efeitos do Super El Niño estão antecipando o que normalmente aconteceria apenas no verão.
Mark

Por que a prefeitura está se movimentando agora, meses antes do verão chegar?

Mimi

Porque o Super El Niño não espera pelo calendário. Os efeitos começam a aparecer já no fim do inverno, com temperaturas acima da média. Se a cidade esperar até novembro, quando normalmente ativa esses protocolos, já terá perdido meses de preparação.

Mark

Qual é a diferença entre um El Niño normal e um Super El Niño?

Mimi

A intensidade. Um El Niño normal já aquece as águas do Pacífico e altera padrões de chuva e temperatura. Um Super El Niño faz isso com muito mais força. Aqui no Rio, significa que as ilhas de calor que já existem vão ficar ainda mais quentes, e as chuvas vão ser mais violentas.

Mark

Esses mega ralos que estão instalando — funcionam?

Mimi

Funcionam quando estão limpos e inteiros. O problema é que alguns já foram flagrados quebrados e cheios de lixo. A infraestrutura é só parte da solução. Precisa de manutenção constante, senão vira um equipamento inútil.

Mark

E as pessoas que vivem nas áreas mais sensíveis? Como elas se preparam?

Mimi

Essa é a questão mais difícil. Quarenta por cento do território da cidade sofre alto impacto do calor. Crianças, idosos, pessoas em situação de rua — eles não têm como se preparar sozinhos. Dependem dos pontos de resfriamento que a prefeitura abre, das pausas para hidratação, dos parques urbanos que oferecem sombra.

Mark

A morte da fã de Taylor Swift mudou algo?

Mimi

Mudou porque forçou a cidade a reconhecer que calor extremo mata. Antes disso, o protocolo de calor não existia. Agora existe, com cinco níveis. Não é perfeito, mas é um começo — mostra que a cidade está tentando aprender com tragédias.

Mark

Essas obras de drenagem vão estar prontas a tempo?

Mimi

Nem todas. A prefeitura é honesta sobre isso: não estarão com todas as obras finalizadas quando o Super El Niño chegar. Mas estarão nos locais, mobilizadas para mitigar o dano. É um reconhecimento de que a cidade não consegue se preparar completamente, mas pode tentar reduzir o impacto.

  • 81% de probabilidade de Super El Niño muito forte entre outubro e dezembro de 2026
  • Mais de 50 órgãos municipais, estaduais e federais mobilizados
  • 70 mega ralos instalados na Avenida Brasil; 280 ralos e mega ralos desde 2023
  • 417,5 mil árvores plantadas desde janeiro de 2023
  • 40% do território da cidade sofre alto impacto do calor

Fenômeno climático deve trazer temperaturas acima da média ainda em inverno, com 81% de probabilidade de ser muito forte entre outubro e dezembro. Cidade executa obras de drenagem em Realengo, Acari e outras áreas sensíveis, além de instalar 70 mega ralos na Avenida Brasil para escoamento de água.

Prefeitura do Rio antecipa planos de ação normalmente executados no verão devido ao Super El Niño, que deve intensificar temperaturas e chuvas já no fim do inverno, com mais de 50 órgãos mobilizados.

Ainda estamos no inverno, mas a prefeitura do Rio de Janeiro anunciou na segunda-feira que está adiantando seus planos de resposta ao clima extremo. Normalmente, esses protocolos entram em ação apenas quando chega o verão. Desta vez, porém, um fenômeno chamado Super El Niño — caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial — está forçando a cidade a se preparar meses antes do previsto. As temperaturas acima da média podem começar a aparecer já no fim desta estação, e os efeitos devem se intensificar na primavera e no verão, trazendo consigo tanto calor extremo quanto chuvas intensas.

O prefeito Eduardo Cavaliere explicou durante coletiva de imprensa no Centro de Operações e Resiliência que a cidade está essencialmente antecipando a preparação que já faz todos os anos para lidar com o verão. "As águas de março, neste momento, podem estar chegando antes do verão", disse. Mais de cinquenta órgãos municipais, estaduais e federais foram mobilizados para atuar em situações extremas. A meteorologista Juliana Hermsdorff, do Sistema Alerta Rio, informou que há 81% de probabilidade de o El Niño ser muito forte, principalmente entre outubro e dezembro deste ano. Ela ressaltou que as grandes áreas urbanizadas da cidade já criam ilhas de calor naturalmente, e o El Niño vai reforçar esse efeito, funcionando como combustível para chuvas ainda mais intensas.

A confirmação do fenômeno veio da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) em junho, após meses de expectativa entre meteorologistas. A agência havia previsto em maio uma probabilidade de 82% de o El Niño se formar até julho — previsão que se confirmou. Rodrigo Gonçalves, subsecretário de Defesa Civil, resumiu a estratégia: "A prefeitura está antecipando suas ações, que normalmente a gente executava lá em novembro. A partir deste momento, estamos colocando em alerta máximo todas as secretarias e órgãos que trabalham com prevenção e resposta." Ele reforçou a importância de a população acompanhar os estágios operacionais da cidade, que variam de um (sem mudança significativa) até cinco (ocorrências de alto risco sem previsão de retorno à normalidade). O nível cinco nunca foi acionado.

A cidade está em movimento para mitigar os danos. Obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) estão em andamento em várias regiões sensíveis. Em Realengo, a primeira fase de drenagem nas principais vias, incluindo a Avenida Bernardo de Vasconcelos, será entregue ainda este ano, com a construção de um piscinão para receber água da chuva já iniciada. Em Acari, uma das áreas mais afetadas em dias de chuva intensa, as intervenções incluem a ampliação da calha do rio que vai de Acari ao Jardim América, com duração prevista de três anos. Outras frentes incluem o Jardim Maravilha, onde a segunda fase com construção de diques já começou, e projetos na Maré, Rocinha e Complexo do Alemão focados em infraestrutura integrada de água, drenagem e saneamento. Na Grande Tijuca, a prefeitura planeja conectar os rios Maracanã e Joana para desviar excedentes de água.

Além das obras de infraestrutura, a cidade está expandindo sua cobertura vegetal. Desde 2023, foram plantadas 417,5 mil árvores, com 112,4 mil apenas neste ano. A Secretaria de Ambiente e Clima prioriza as Áreas de Planejamento 3 (boa parte da Zona Norte) e 5 (Zona Oeste). Parques urbanos também são parte da estratégia — já existem sete implementados, e novos estão em construção, como o Parque Terra Prometida em Santa Cruz (no local da antiga Cidade das Crianças), o Parque Linear da Maré (onde havia um lixão) e o Parque do Tanque, em área sensível a alagamentos. Esses espaços ampliam a vegetação da cidade e oferecem conforto térmico em dias de calor extremo.

Uma medida prática já em andamento é a instalação de "mega ralos" — estruturas capazes de escoar grandes volumes de água. Pelo menos 70 exemplares já foram instalados ao longo da Avenida Brasil, a via onde alagamentos são mais frequentes. A prefeitura informou que desde 2023 implantou mais de 280 ralos e mega ralos nas zonas Norte, Oeste e Sudoeste, beneficiando bairros como Bonsucesso, Guaratiba, Jacarepaguá, Manguinhos e Parada de Lucas. Porém, uma equipe do GLOBO flagrou alguns desses equipamentos já quebrados e cheios de lixo na altura de Manguinhos — a prefeitura anunciou que enviará uma equipe para vistoriar e avaliar a necessidade de reparos. A Secretaria de Conservação também desobstruiu 1,7 quilômetro da rede de drenagem este ano, removendo 129 toneladas de lixo. A "Operação Moto Ralo", com dez motocicletas, busca chegar mais rápido a pontos de alagamento, enquanto ações de desassoreamento dos rios removeram 257 mil toneladas de resíduos apenas neste ano, atendendo mais de 70 quilômetros de rios e canais.

Outra frente crítica é o protocolo de calor, implementado após a morte de uma fã durante show da cantora Taylor Swift em novembro de 2023. O protocolo tem cinco níveis baseados em temperatura e umidade. A partir do nível 4 — acionado quando o índice de calor ultrapassa 40ºC por pelo menos três dias consecutivos — a cidade abre pontos de resfriamento em clínicas da família, naves do conhecimento e parques urbanos. Aulas de educação física são transferidas para espaços cobertos, e pausas para hidratação são obrigatórias para quem trabalha exposto ao sol. Eventos podem ser suspensos a menos que os organizadores adotem medidas de proteção, como fornecimento gratuito de água. O secretário municipal de Saúde, Rodrigo Prado, ressaltou que 40% do território da cidade sofre alto impacto do calor, gerando problemas especialmente para crianças, idosos e pessoas em situação de rua. O prefeito reconheceu que "boa parte dessas áreas mais sensíveis ainda estão sujeitas a eventos extremos e riscos no próximo verão", mas reforçou que a estratégia de prevenção é essencial para salvar vidas.

Estamos antecipando a preparação que a cidade já faz todos os anos para lidar com o verão. As águas de março, neste momento, podem estar chegando antes do verão.
— Prefeito Eduardo Cavaliere
Os impactos do El Niño vão reforçar principalmente a questão da temperatura, um combustível formador de chuvas intensas aqui na cidade do Rio.
— Meteorologista Juliana Hermsdorff, Sistema Alerta Rio
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