Mais de oito mil portugueses perderam a vida durante a pandemia não por causa do vírus, mas por falta de acesso a cuidados de saúde que o sistema deveria ter garantido. Este número coloca em evidência uma verdade incómoda: o falhanço não foi dos profissionais de saúde, que se sacrificaram além do razoável, mas da gestão política de um sistema que já era frágil antes da crise. A pandemia não criou as fragilidades do SNS — apenas as tornou impossíveis de ignorar.
SNS falhou: como recuperar a política de saúde em Portugal
Milhares de pessoas morreram porque o governo decidiu que apenas o SNS importava
Quando diz que o SNS falhou, está realmente a culpar os médicos e enfermeiros?
Não. Os profissionais de saúde fizeram um esforço sobre-humano com o que tinham. O falhanço foi da gestão política — do governo, do Ministério das Finanças, da Direção-Geral de Saúde.
Mas Portugal não gastava pouco em saúde. Como é que falta de dinheiro pode ser a desculpa?
Exatamente. Portugal gasta 9,6% do PIB em saúde, mais do que países mais ricos. O problema não era a quantidade de dinheiro. Era como era gasto e, mais importante, como era investido. Metade do investimento planeado nunca foi realizado.
E quanto aos hospitais privados? Por que é que não foram usados?
Havia 119 hospitais privados e sociais com mais de onze mil camas. Poderiam ter feito mais de cem mil cirurgias. Mas o governo decidiu que apenas o SNS importava. Foi uma decisão ideológica, não prática.
Isso significa que as mortes foram evitáveis?
Sim. Mais de oito mil pessoas morreram por falta de tratamentos não relacionados com Covid. Muitas dessas mortes teriam sido evitáveis se o sistema tivesse sido coordenado e se os recursos disponíveis tivessem sido usados.
O que deveria ter sido feito diferente?
Uma estratégia clara desde o início. Coordenação entre o SNS, o setor privado e o setor social. Investimento real em infraestruturas. Comunicação transparente com a população. E, acima de tudo, gestão competente.
Isso é possível agora?
Só se houver vontade política de mudar. A saúde dos portugueses não depende apenas do SNS. Depende de todo o sistema. Enquanto o governo não entender isso, os problemas vão continuar.
El Pulso
- Mais de 8.000 mortes evitáveis durante a pandemia revelam que o colapso do SNS foi uma crise dentro da crise, silenciosa mas devastadora.
- O governo reteve 625 milhões de euros em investimento em saúde entre 2015 e 2019, enquanto a despesa corrente crescia sem produzir melhores resultados.
- Nove meses após o início da pandemia, Portugal ainda não tinha um plano coerente — enquanto outros países europeus já preparavam as suas campanhas de vacinação.
- Cento e dezanove hospitais privados e sociais, com mais de onze mil camas e milhares de especialistas, foram ignorados pelo governo quando o SNS mais precisava de reforços.
- A solução exige uma reforma estrutural que integre SNS, setor privado e setor social numa resposta coordenada, liderada por gestão competente e responsável.
Mais de oito mil portugueses perderam a vida durante a pandemia não por causa do vírus, mas por falta de acesso a cuidados de saúde que o sistema deveria ter garantido. Este número coloca em evidência uma verdade incómoda: o falhanço não foi dos profissionais de saúde, que se sacrificaram além do razoável, mas da gestão política de um sistema que já era frágil antes da crise. A pandemia não criou as fragilidades do SNS — apenas as tornou impossíveis de ignorar.
Mais de oito mil portugueses morreram durante a pandemia por falta de acesso a tratamentos que nada tinham a ver com a Covid-19. Este número representa um falhanço profundo do sistema de saúde — não dos médicos, enfermeiros e técnicos que trabalharam em condições extremas, mas da gestão política que os deixou sem organização nem recursos adequados.
Portugal já chegou à pandemia fragilizado. Em 2018, era o 11º pior país da União Europeia em acesso a serviços médicos, segundo a OCDE. Mas a crise de 2020 expôs algo ainda mais grave: uma incapacidade de resposta em tempo de emergência, assente em quatro erros fundamentais.
O primeiro foi financeiro: entre 2015 e 2019, apenas 52% do investimento orçamentado para a saúde foi efetivamente gasto, ficando 625 milhões retidos. O segundo foi estratégico: nove meses depois do início da pandemia, não existia um plano coerente, as declarações governamentais eram contraditórias e instrumentos como a teleconsulta foram ignorados. O terceiro erro foi o mais custoso em vidas: os 119 hospitais privados e sociais do país — com mais de onze mil camas, quase cinco mil médicos especialistas e milhares de enfermeiros e técnicos — foram menosprezados, deixando por realizar mais de cem mil cirurgias e um milhão de consultas. As Misericórdias, com cinco séculos de história em Portugal, foram postas de lado. O quarto erro foi de comunicação: apesar das conferências diárias, a informação foi incoerente, as prioridades nunca foram claramente definidas e as contradições entre discurso e prática — como permitir comícios enquanto se impunham restrições à população — corroeram a confiança pública.
A conclusão é direta: uma política de saúde que pense apenas no SNS e ignore o resto do sistema está condenada a falhar. Portugal tem recursos públicos, privados e sociais que precisam de ser coordenados. Mas nenhuma reforma será suficiente sem pessoas competentes e responsáveis a liderar o processo.
Mais de oito mil portugueses morreram durante a pandemia por falta de acesso a tratamentos que nada tinham a ver com Covid-19. Este número não é uma estatística abstrata — representa um falhanço monumental do Serviço Nacional de Saúde na sua missão fundamental de cuidar dos doentes. Mas é importante ser claro sobre onde reside a culpa. Os médicos, enfermeiros e técnicos que trabalharam nos hospitais e centros de saúde fizeram um esforço quase desumano, lutando contra a pandemia com equipamentos insuficientes e organização deficiente. O falhanço não foi deles. Foi da gestão política do sistema.
Portugal já tinha problemas de saúde muito antes do coronavírus chegar. Um relatório recente da OCDE mostrou que o país era o 11º pior da União Europeia em acesso a serviços médicos em 2018. Os centros de saúde colocavam o atendimento ao utilizador em último lugar. Os médicos de família que o governo prometia continuavam desaparecidos. Mas a crise de 2020 expôs algo muito mais grave: uma incapacidade total de gestão em tempos de emergência.
O governo cometeu quatro erros fundamentais. O primeiro foi o investimento. Entre 2015 e 2019, o Ministério das Finanças orçamentou 1.301 milhões de euros para investimento público em saúde, mas apenas permitiu que 52% desse dinheiro fosse realmente gasto. Os restantes 625 milhões ficaram retidos. Enquanto isso, a despesa corrente aumentava 6% ao ano — Portugal gasta 9,6% do seu PIB em saúde, mais do que muitos países mais ricos. O problema não era falta de dinheiro. Era incompetência na organização e na utilização inteligente dos recursos.
O segundo erro foi a ausência de uma estratégia clara. Nove meses após o início da pandemia, ainda não existia um plano coerente. O verão foi caótico. Os membros do governo davam declarações contraditórias sobre transportes públicos. Os delegados de saúde e as autoridades regionais não conseguiam implementar as medidas no terreno. Ninguém pensou em incentivar teleconsultas para reduzir o número de pessoas nos hospitais. Enquanto isso, outros países europeus já tinham anunciado os seus planos de vacinação. Portugal continuava sem saber o que fazer.
O terceiro erro foi ainda mais incompreensível: o governo ignorou completamente os recursos privados e sociais disponíveis no país. Existem 119 hospitais fora do SNS com 11.318 camas de internamento, onde trabalham 4.577 médicos especialistas, 5.138 enfermeiros e 3.099 técnicos. Estes hospitais poderiam ter realizado mais de cem mil cirurgias e mais de um milhão de consultas que ficaram por fazer. Mas foram menosprezados pelos responsáveis governamentais. As Obras de Misericórdia, que têm uma tradição de cinco séculos em Portugal desde a Rainha D. Leonor, foram deixadas de lado. Milhares de pessoas morreram porque o governo decidiu que apenas o SNS importava.
O quarto erro foi a comunicação. Apesar das conferências diárias e da apresentação constante de números, a informação foi insuficiente e incoerente desde o início. Não havia uma explicação clara do que era fundamental e do que era acessório. As prioridades não eram definidas. Enquanto isso, o governo permitia que a Fórmula 1 se realizasse, que o PCP fizesse comícios e que o Dia do Trabalho fosse celebrado, enquanto a população era submetida a restrições cada vez mais severas. A confusão sobre a prioridade dos idosos na vacinação gerou desconfiança. Tudo isto reforçou a sensação de que não havia um plano real.
O que é necessário fazer agora é claro: não pode haver uma política de saúde que pense apenas no SNS e ignore o resto do sistema. Portugal tem recursos — privados, sociais e públicos — que precisam de ser coordenados e utilizados em conjunto. O verdadeiro serviço nacional de saúde não é apenas o SNS. É todo o sistema de saúde que existe no país. Mas acima de tudo, é necessário que haja pessoas competentes e responsáveis a gerir o país e as políticas de saúde. Sem isso, nenhuma reforma funcionará.
Citas Notables
Não pode continuar a haver uma política de saúde que pense apenas numa parte do sistema, o SNS, e opte por ostracizar o restante— Autor do artigo de opinião
Os profissionais de saúde despenderam um esforço quase sobre-humano ao longo dos últimos meses enquanto lutavam com os efeitos da pandemia e as deficiências de organização— Autor do artigo de opinião