O Santos goleou a UCV por 4 a 1 em estádio esvaziado, com gols de Bontempo, Menino, Thaciano e Rony, em partida que homenageou vítimas dos sismos. A Venezuela enfrenta crise humanitária com 5.208 mortos confirmados e 16.740 desaparecidos; o FMI liberou US$ 346 milhões para reconstrução.
Santos vence na Venezuela um mês após terremotos que mataram 5 mil
A vida segue adiante e buscamos jogar uma boa partida
Por que o Santos insistiu em jogar na Venezuela agora, tão logo depois dos terremotos?
Não era insistência. Era o oposto. O Santos pediu para mudar o local de Caracas para Valencia especificamente porque a capital estava destruída e precisava de seus recursos para salvar vidas, não para organizar um jogo.
E mesmo assim decidiram jogar. Por quê?
Porque o futebol é uma linguagem que a Venezuela entende. Depois de um mês de luto e caos, um jogo diz ao povo que existe um amanhã. Que a vida segue.
Maicol Ruiz perdeu pessoas próximas nos terremotos e mesmo assim jogou. Como alguém faz isso?
Ele disse exatamente isso: "a vida segue adiante". Não é resignação. É uma forma de honrar os que ficaram, de não deixar que a tragédia congele tudo.
O técnico Cuca chorou depois da partida?
Não chorou durante, mas se emocionou com a destruição que viu. Disse que é impossível entrar em campo e não pensar no que está acontecendo ao redor. Mas que quando você entra, tem que fazer o melhor pelo time.
Qual foi o gesto mais importante do Santos naquele dia?
Provavelmente não foi nenhum gol. Foi doar todas as camisas para que a Universidad Central as leiloasse e arrecadasse dinheiro para as vítimas. Um jogo é passageiro. Aquelas camisas podem ajudar alguém a reconstruir.
O que muda agora que o futebol voltou?
Talvez nada mude rapidamente. Mas muda o sinal que é enviado. A Venezuela tem 5.208 mortos confirmados, 16.740 desaparecidos, hiperinflação, crise política. Um jogo de futebol não resolve nada disso. Mas diz que o país não desistiu de si mesmo.
The Pulse
- Santos venceu Universidad Central de Venezuela por 4 a 1 em Valencia, um mês após os terremotos
- 5.208 mortos confirmados e 16.740 desaparecidos na Venezuela
- Yimver Berroterán, 18 anos, jogador da UCV, morreu em La Guaira
- FMI liberou US$ 346 milhões para reconstrução do país
O Santos goleou a UCV por 4 a 1 em estádio esvaziado, com gols de Bontempo, Menino, Thaciano e Rony, em partida que homenageou vítimas dos sismos. A Venezuela enfrenta crise humanitária com 5.208 mortos confirmados e 16.740 desaparecidos; o FMI liberou US$ 346 milhões para reconstrução.
Quase um mês após dois terremotos que mataram mais de 5 mil pessoas, o Santos venceu a Universidad Central de Venezuela por 4 a 1 em Valencia, marcando o retorno do futebol ao país.
Quase um mês depois que dois terremotos devastaram a Venezuela, o futebol voltou ao país na terça-feira (21) com uma partida que funcionou menos como competição e mais como ritual de sobrevivência. O Santos venceu a Universidad Central de Venezuela por 4 a 1 em Valencia, cidade a cerca de 150 quilômetros de Caracas que escapou dos piores danos sísmicos. Os gols foram marcados por Gabriel Bontempo, Gabriel Menino, Thaciano e Rony, enquanto Maicol Ruiz descontou para o time local.
O estádio Misael Delgado, com capacidade para aproximadamente 11 mil pessoas, estava mais vazio do que cheio. Os ingressos custavam entre cinco e dez dólares americanos, mas a população tinha preocupações bem maiores que futebol. A partida foi transferida de Caracas para Valencia por iniciativa do próprio Santos, que se recusou a jogar na capital destruída. O diretor-executivo Alexandre Mattos explicou a decisão com clareza: a capital precisava de suas forças de segurança, hospitais e recursos para atender aos sobreviventes, não para organizar um jogo de futebol.
Os números da tragédia pesavam sobre cada lance. Pelo menos 5.208 pessoas morreram nos terremotos, segundo o regime de Delcy Rodríguez. Outras 16.740 estão desaparecidas. A equipe da Universidad Central de Venezuela entrou em campo usando uma camiseta em homenagem a Yimver Berroterán, um jovem de 18 anos que atuava nas categorias de base do clube e morreu em La Guaira, o balneário a 30 quilômetros de Caracas que foi a zona mais afetada pelos sismos. Berroterán havia jogado quatro partidas pelo time profissional e representado a seleção sub-20 da Venezuela em um torneio na França no início de junho. Antes do apito inicial, um minuto de silêncio homenageou todas as vítimas.
Maicol Ruiz, autor do gol de honra da equipe local, carregava o peso pessoal da tragédia. Ele perdeu companheiros, pessoas próximas, amigos nos sismos. Sua família viajou de Caracas para acompanhar a partida, uma jornada que exigiu coragem em um país onde a destrução ainda estava fresca. "O terremoto nos afetou muito", disse ele. "Mas a vida segue adiante e buscamos jogar uma boa partida." O técnico do Santos, Cuca, também não conseguiu separar o jogo da realidade ao seu redor. Depois da partida, ele admitiu ter se emocionado com a destruição que viu. "Não basta o problema político que o país vive e vem um geológico", afirmou, pedindo força para que a Venezuela se reerguesse.
O Santos fez sua parte. Doou todas as camisas usadas na partida para que a Universidad Central de Venezuela as leiloasse e arrecadasse fundos para as vítimas. A partida em si foi desequilibrada — o Santos enfrentava um adversário muito mais fraco e pouco sofreu, goleando sem grande inspiração ou esforço. Mas o contexto transformou cada gol em algo maior que um simples resultado.
A Venezuela segue em reconstrução, marcada não apenas pelos terremotos mas também por uma crise política, hiperinflação e emigração em massa que vem ocorrendo há anos sob o regime de Nicolás Maduro, atualmente preso nos Estados Unidos. Na sexta-feira (17), o Fundo Monetário Internacional liberou 346 milhões de dólares em recursos que o país já possuía junto ao organismo mas que estavam bloqueados. O dinheiro será usado para reconstruir casas, infraestrutura e apoiar as famílias afetadas. Rafael Lacava, governador do estado de Carabobo, disse à Folha que nunca havia chorado tanto quanto com as cenas dos sismos, mas destacou a solidariedade que emergiu do país após a tragédia.
O futebol retornou como símbolo de que a vida continua, mesmo quando tudo parece quebrado. Um estádio meio vazio em uma cidade que não foi destruída, jogadores que perderam amigos, um técnico visitante emocionado, um minuto de silêncio e um jovem de 18 anos homenageado em uma camiseta. Esses foram os elementos de um retorno que foi menos sobre vitória e mais sobre resistência.
Notable Quotes
Não basta o problema político que o país vive e vem um geológico. A gente fica muito triste, sensibilizado, de alguma forma querendo ajudar.— Cuca, técnico do Santos
O terremoto nos afetou muito. Perdi companheiros, pessoas próximas, amigos. Mas a vida segue adiante e buscamos jogar uma boa partida.— Maicol Ruiz, jogador da Universidad Central de Venezuela