Alemão: história de promessas não cumpridas e dinheiro desperdiçado

Massacre de 117 pessoas pela polícia do Rio no Morro do Alemão em outubro de 2024 marca o contexto de abandono da comunidade.
Nem todo dinheiro foi para o ralo, mas muita parolagem e pouco resultado
Reflexão sobre os investimentos no Morro do Alemão que funcionam parcialmente, mas não compensam décadas de promessas não cumpridas.
Mark

Por que o teleférico virou símbolo dessa história toda?

Mimi

Porque é visível. Está ali, parado, para qualquer um ver. Não é um programa abstrato — é uma máquina que custou centenas de milhões e não funciona. Dilma inaugurou, Lagarde visitou, e depois simplesmente desligaram. É a promessa em forma de ferro.

Mark

Mas houve coisas que funcionaram, certo? As escrituras, a creche, o cinema.

Mimi

Funcionaram, sim. Mas note a diferença: as escrituras foram entregues sem fanfarra, com trabalho discreto. Os megaprojetos ganham cerimônia, bandeiras, discursos. Os resultados reais chegam quietos.

Mark

E o dinheiro novo que vão gastar?

Mimi

Já queimaram R$ 493 milhões. Agora vão gastar mais R$ 210 milhões. Uma empresa já pediu prorrogação porque não foi paga. É um ciclo: promessa, obra parada, dinheiro desaparece, nova promessa.

Mark

O massacre de 117 pessoas muda alguma coisa nessa equação?

Mimi

Deveria. Mas a coluna sugere que não. A comunidade continua sendo tratada como laboratório de promessas políticas, não como lugar onde pessoas vivem e morrem.

Mark

Então qual é a saída?

Mimi

A coluna não oferece uma. Apenas documenta o padrão e sugere que as comunidades precisam de resultados, não de ilusões. Resultados concretos, documentos que funcionem, estruturas que permaneçam.

  • O teleférico que virou símbolo de renovação urbana está parado há anos, e o comércio construído ao seu redor fechou junto com ele.
  • Uma empresa contratada para a recuperação do projeto pediu prorrogação de prazo pela razão mais básica possível: não recebeu o pagamento.
  • O TCU registrou em abril de 2025 que 138 de 196 obras do PAC estavam paralisadas — algumas recicladas e rebatizadas no novo programa de Lula.
  • O governo prepara-se para injetar mais R$ 210 milhões na mesma comunidade onde já foram gastos R$ 493 milhões sem resultado duradouro.
  • Em contraste, uma iniciativa discreta do Judiciário entregou 180 escrituras a moradores em 2023, provando que escala menor pode significar impacto real.
  • A comunidade aguarda respostas concretas enquanto a pergunta de sempre ressoa: desta vez será diferente?

Há décadas, o Complexo do Alemão serve de palco para promessas políticas que chegam com fanfarra e partem sem deixar raízes — do teleférico inaugurado por Dilma Rousseff em 2011, desativado anos depois, às centenas de obras do PAC hoje paralisadas. Em outubro de 2024, a morte de 117 moradores pela polícia do Rio sublinhou, com brutalidade, o custo humano desse abandono sistemático. A pergunta que persiste não é se novos recursos chegarão, mas se desta vez haverá alguém disposto a exigir que permaneçam.

Quinze anos atrás, Dilma Rousseff desceu de um teleférico recém-inaugurado no Morro do Alemão e apostou que aquele complexo de favelas poderia virar ponto turístico. Christine Lagarde, do FMI, chegou a comparar o passeio a uma estação de esqui. Um ano depois da visita de Lagarde, a máquina foi desativada. Permanece assim até hoje.

O Complexo voltou às manchetes em outubro de 2024, quando a polícia do Rio matou 117 pessoas na comunidade — um número que resume décadas de abandono. Se houvesse um museu ali, seria o da empulhação: o PAC, o teleférico, as UPPs, uma operação militar anunciada como tomada histórica que resultou em nada.

Nem tudo foi desperdício absoluto. Em 2023, o Judiciário entregou 180 escrituras definitivas a moradores pelo Programa Solo Seguro, iniciativa conduzida com pouco barulho e muito trabalho por 17 pessoas. A regularização fundiária facilitou a vida comercial de centenas de famílias. Creches, unidades de saúde e espaços culturais também funcionam na região. Mas a proporção entre promessa e resultado continua desequilibrada.

O teleférico parado arrastou consigo o comércio instalado ao seu redor. A recuperação prevê elevadores e escadas rolantes, mas uma das empresas contratadas pediu prazo maior por falta de pagamento. Antes disso, R$ 493 milhões de um PAC anterior já haviam sido gastos. Agora, prepara-se um novo PAC com mais R$ 210 milhões para a mesma comunidade — cujo projeto original, vale lembrar, ignorou a preferência dos próprios moradores, que queriam descer o morro, não subi-lo.

Um painel do TCU de abril de 2025 mostra 138 de 196 obras do PAC paradas. Algumas foram simplesmente recicladas no programa atual. O que vem a seguir é mais dinheiro e mais promessas. A pergunta permanece a mesma.

Quinze anos atrás, a presidente Dilma Rousseff desceu de um teleférico recém-inaugurado no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, e fez uma aposta com a história: aquele complexo de favelas tinha tudo para virar ponto turístico. A frase ficou registrada. Quatro anos depois, Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, entrou no mesmo teleférico e comparou a experiência a estar numa estação de esqui. Um ano depois disso, a máquina foi desativada. Permanece desativada até hoje.

O Morro do Alemão voltou aos jornais em outubro de 2024, quando a polícia do Rio matou 117 pessoas na comunidade. Se aquele lugar pudesse abrigar um museu, seria o Museu da Empulhação — um depósito de todas as promessas que presidentes, governadores e prefeitos fizeram e nunca cumpriram. A comunidade já viu de tudo: o Programa de Aceleração do Crescimento, o teleférico, a Unidade de Polícia Pacificadora. Uma operação militar foi anunciada como a tomada de Berlim em 1945, com bandeira hasteada no topo do morro. Resultou em nada.

Nem todo investimento foi desperdício completo. Em 2023, o Judiciário entregou 180 escrituras definitivas a moradores através do Programa Solo Seguro, uma iniciativa do então corregedor Luis Felipe Salomão. O trabalho foi feito com pouca fanfarra e muito esforço — envolveu 17 pessoas, duas da Corregedoria Nacional de Justiça e 15 da prefeitura. A entrega de documentos de propriedade facilitou a vida comercial de centenas de famílias. Também funcionam na região uma creche, um centro comercial, unidades de saúde, espaços para cursos e um cinema. Mas a proporção entre promessa e resultado permanece desequilibrada.

O teleférico parado deixou um rastro econômico: o comércio instalado em seu entorno fechou. A recuperação da máquina prevê elevadores e escadas rolantes, mas uma das empresas contratadas pediu prorrogação do prazo de entrega pela razão mais elementar possível — falta de pagamento. Antes disso, o governo já havia queimado R$ 493 milhões de um PAC antigo. Agora prepara-se para gastar mais R$ 210 milhões num PAC novo na mesma comunidade.

Um painel do Tribunal de Contas da União tabulado em abril de 2025 oferece perspectiva sobre o padrão: de 196 obras do PAC, 138 estavam paradas. Algumas foram recicladas e incluídas no novo PAC de Lula. O próprio projeto do teleférico, quando foi concebido, ignorou a opinião dos moradores — que preferiam descer a subir. As comunidades do Rio não precisam ser transformadas em playgrounds onde políticos entregam promessas que satisfazem principalmente aos empreiteiros. Elas precisam de resultados concretos, de documentos que funcionem, de estruturas que permaneçam de pé. O que vem a seguir é mais dinheiro, mais promessas, e a pergunta de sempre: desta vez será diferente?

O Complexo do Alemão tem tudo para se transformar num ponto turístico
— Presidente Dilma Rousseff, julho de 2011
Estou me sentindo numa estação de esqui
— Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, ao visitar o teleférico
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