Em meio a uma das doenças mais antigas e persistentes do mundo tropical, um estudo publicado na The Lancet oferece uma resposta concreta: duas doses da vacina Qdenga reduziram em quase 88% o risco de internação por dengue em adolescentes paulistas, com a proteção se mantendo mesmo diante da mudança dos sorotipos circulantes. O trabalho, conduzido em condições reais e não em laboratório controlado, acompanhou mais de 166 mil testes ao longo de 2024 e 2025 — e confirma que completar o esquema vacinal faz uma diferença que vai muito além dos números.
Qdenga reduz em 87,9% internações por dengue em adolescentes, mostra estudo
Completar as duas doses muda o resultado de forma dramática
Por que um estudo em condições reais muda tanto a forma como entendemos a efetividade dessa vacina?
Porque a dengue não circula em laboratório. Quando você testa uma vacina antes da aprovação, tudo é controlado — a população, o vírus, as variáveis. Aqui, os pesquisadores acompanharam adolescentes reais em São Paulo durante uma epidemia real, com sorotipos reais mudando de um ano para o outro. É o teste mais duro que uma vacina pode passar.
Mas preciso perguntar: esses 166 mil testes — eles representam quantas pessoas diferentes? Porque se alguns adolescentes fizeram múltiplos testes, o número de indivíduos pode ser bem menor. O estudo deixa isso claro?
É uma pergunta justa. O texto não especifica se são 166 mil testes de 166 mil pessoas diferentes ou se há sobreposição. Mas o que importa é que 65 mil desses testes voltaram positivos, e entre esses positivos, os vacinados com duas doses tiveram 87,9% menos risco de internação.
E essa mudança de sorotipo — DENV-1 e 2 para DENV-3 — isso é comum? A vacina sempre responde bem a essas mudanças?
Não é garantido. Diferentes sorotipos podem exigir respostas imunológicas diferentes. O fato de a proteção ter se mantido mesmo com essa troca é um resultado positivo, mas o estudo só cobre um ano. Não sabemos ainda como a vacina se comportará se o DENV-4 começar a circular, por exemplo.
E quanto à primeira dose — 74,6% de proteção contra internação é bastante, mas por que alguém aceitaria parar ali se a segunda dose leva para 87,9%? Há alguma razão documentada para abandono do esquema?
O estudo não aborda isso. Mas na prática, sabemos que adesão a segundas doses é sempre um desafio em campanhas de vacinação. Talvez haja barreiras de acesso, esquecimento, ou pessoas que simplesmente não retornam.
A suspensão da Butantan-DV — isso afeta a confiança nas vacinas contra dengue em geral?
Potencialmente. Cinquenta casos de reação adversa grave em 500 mil doses é uma taxa que o Ministério considerou digna de investigação preventiva. Mas é importante notar que a Qdenga tem um histórico diferente — esse novo estudo mostra efetividade em mundo real sem sinais de alarme similares.
Embora o estudo não tenha abordado segurança em detalhe, certo? Ele se concentrou em efetividade contra internação e sintomas. Eventos adversos graves não eram o foco da análise.
El Pulso
- A dengue segue como ameaça real e mutável: a troca dos sorotipos predominantes em São Paulo — de DENV-1/2 para DENV-3 — ampliou a parcela da população suscetível e tornou ainda mais urgente a questão da efetividade vacinal em campo.
- O estudo revelou uma lacuna crítica entre uma e duas doses: enquanto a primeira já oferece 74,6% de proteção contra hospitalização, a segunda eleva esse índice para 87,9% — uma diferença que pode significar a internação ou não de um adolescente.
- A suspensão preventiva da Butantan-DV em junho, após 42 casos de reação adversa grave em meio a 500 mil vacinados, deixou a Qdenga como única vacina contra dengue em uso no Brasil, aumentando o peso de cada decisão sobre o programa nacional.
- A proteção documentada durou um ano inteiro e resistiu à mudança de sorotipo, sinalizando que a vacina pode funcionar mesmo quando o vírus se reinventa — dado que só emerge em estudos de mundo real, não em ensaios clínicos controlados.
Em meio a uma das doenças mais antigas e persistentes do mundo tropical, um estudo publicado na The Lancet oferece uma resposta concreta: duas doses da vacina Qdenga reduziram em quase 88% o risco de internação por dengue em adolescentes paulistas, com a proteção se mantendo mesmo diante da mudança dos sorotipos circulantes. O trabalho, conduzido em condições reais e não em laboratório controlado, acompanhou mais de 166 mil testes ao longo de 2024 e 2025 — e confirma que completar o esquema vacinal faz uma diferença que vai muito além dos números.
Um estudo publicado na The Lancet acompanhou o desempenho da vacina Qdenga durante a circulação real do vírus em São Paulo ao longo de 2024 e 2025 — período que incluiu não apenas o pico da doença, mas também uma mudança nos sorotipos predominantes. O trabalho analisou 166.390 testes de dengue em adolescentes de 10 a 15 anos, dos quais mais de 65 mil retornaram positivos.
Os resultados mostram que uma única dose já oferece proteção relevante: 59,2% contra sintomas e 74,6% contra internação hospitalar. Mas é ao completar o esquema com a segunda dose — aplicada três meses após a primeira — que os números se transformam de forma mais expressiva: a efetividade contra hospitalização sobe para 87,9%, e a proteção contra sintomas chega a 73,1%. Esse salto é o argumento mais direto para não interromper a vacinação no meio do caminho.
Um dado especialmente relevante é que a proteção se manteve mesmo quando o vírus mudou de perfil. Em 2024, os sorotipos DENV-1 e DENV-2 dominavam em São Paulo; depois, o DENV-3 ganhou espaço — e a vacina continuou efetiva. Essa capacidade de responder a diferentes sorotipos só se revela em estudos de mundo real, onde a dengue se comporta como de fato é: variável e imprevisível. A proteção foi acompanhada por um ano inteiro, o limite máximo que o estudo consegue afirmar com segurança.
A Qdenga foi incorporada ao sistema público brasileiro em 2024, inicialmente em municípios selecionados, e desde o início de 2026 está disponível em todo o país para meninos e meninas de 10 a 14 anos. Hoje, ela é a única vacina contra dengue em uso no Brasil: em junho, o Ministério da Saúde suspendeu preventivamente a Butantan-DV após o registro de 42 casos de reação adversa grave entre as aproximadamente 500 mil pessoas que já haviam recebido a dose única desenvolvida pelo Instituto Butantan.
Um estudo publicado na revista The Lancet traz números que reforçam o peso de completar o esquema vacinal contra a dengue. Pesquisadores de instituições brasileiras e estrangeiras acompanharam o desempenho da Qdenga durante a circulação real do vírus em São Paulo ao longo de 2024 e 2025, período que capturou não apenas a doença em seu pico, mas também a mudança nos sorotipos predominantes — cenário bem diferente dos ensaios clínicos controlados que precedem a aprovação de qualquer medicamento.
O trabalho analisou 166.390 testes de dengue realizados em adolescentes de 10 a 15 anos. Desses, 65.365 retornaram positivos e 101.025 negativos. Os pesquisadores então mediram a proteção oferecida pela vacina contra dois desfechos distintos: desenvolver a doença com sintomas e precisar de internação hospitalar. Na proteção contra sintomas, uma única dose rendeu efetividade estimada de 59,2%; com duas doses, o índice subiu para 73,1%. Mas foi na prevenção de internações que a diferença entre uma e duas doses se mostrou mais dramática. A primeira dose já estava associada a 74,6% de proteção contra hospitalização. Quando o esquema era completado com a segunda aplicação, esse número saltava para 87,9% — uma redução substancial no risco de um adolescente precisar de internação hospitalar.
Esse salto entre uma e duas doses é o argumento mais forte para não interromper o processo de vacinação. A Qdenga é administrada em duas doses separadas por três meses, e embora os dados indiquem alguma proteção já após a primeira injeção, completar as duas aplicações transforma significativamente o resultado. Os pesquisadores acompanharam também a duração dessa proteção ao longo de um ano inteiro — o período máximo coberto pela análise e, portanto, o limite do que o estudo consegue afirmar com segurança.
Um aspecto particularmente relevante do trabalho é que a vacina manteve sua efetividade mesmo quando o vírus predominante mudou de perfil no meio do caminho. Em 2024, os sorotipos DENV-1 e DENV-2 eram os mais comuns em São Paulo. Depois, a circulação do DENV-3 cresceu significativamente — e mesmo assim o estudo encontrou a proteção preservada. Essa capacidade de responder bem a diferentes sorotipos é exatamente o tipo de informação que só emerge quando se estuda a vacina em condições reais, porque a dengue muda constantemente: além do volume de casos, a troca dos sorotipos em circulação altera o quadro epidemiológico e aumenta a parcela da população suscetível à infecção.
A Qdenga foi autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária em 2023 e entrou no sistema público brasileiro no ano seguinte. De início, a vacinação foi oferecida apenas em localidades selecionadas conforme critérios epidemiológicos. A partir do início de 2026, a oferta se expandiu para cobrir todos os municípios brasileiros, mantendo o público definido pelo Programa Nacional de Imunizações: meninos e meninas de 10 a 14 anos. Na rede privada, a faixa autorizada é mais ampla, indo dos 4 aos 60 anos, mas o esquema permanece o mesmo em qualquer lugar — duas doses com intervalo de três meses.
Atualmente, a Qdenga é a única vacina contra dengue em uso no Brasil. O país havia aplicado a Butantan-DV, desenvolvida pelo Instituto Butantan com esquema de dose única, mas em junho o Ministério da Saúde suspendeu preventivamente essa vacinação após surgirem 42 casos de reação adversa grave que precisavam ser investigados. Naquele momento, aproximadamente 500 mil pessoas já haviam recebido a vacina do Butantan.
Citas Notables
A proteção se manteve ao longo de um ano inteiro — que é justamente o período abrangido pela análise, e o limite do que o estudo consegue afirmar— Pesquisadores do estudo publicado na The Lancet