Há momentos em que uma escolha silenciosa redefine não apenas uma vida, mas o alcance de toda uma geração. Paulo Eduardo Teodoro, professor da UFMS em Chapadão do Sul, abriu mão de um cargo público estável para seguir a pesquisa científica — e mais de uma década depois, foi reconhecido com o Prêmio Fundação Bunge 2026 pelo desenvolvimento de tecnologias que unem inteligência artificial, drones e sensores para proteger lavouras brasileiras do estresse climático. O que começou como uma aposta pessoal tornou-se contribuição coletiva: ciência que nasce na universidade e caminha, cada vez mais, em
Professor da UFMS vence Prêmio Fundação Bunge 2026 com pesquisas em IA e agricultura
Abrir mão de um concurso porque encontrou algo que o apaixonava mais
Por que ele abriu mão de um concurso público? Isso parece contrário ao instinto de segurança.
Porque encontrou algo que o apaixonava mais. Um professor no terceiro semestre mostrou a ele que a docência e a pesquisa podiam ser uma forma de vida inteira, não apenas um emprego. Depois disso, o concurso perdeu o brilho.
Mas como ele sabia que a aposta daria certo?
Ele não sabia. Por isso foi uma decisão difícil. Mas uma vez que começou a trabalhar com pesquisa, "tomou gosto", como ele mesmo diz. Havia encontrado seu lugar.
O prêmio é importante, mas o que realmente importa é o trabalho que ele faz?
Sim. O prêmio valida o trabalho, mas o trabalho já estava acontecendo há anos. O que o prêmio faz é reconhecer publicamente que aquela aposta de mais de dez anos atrás estava certa.
E a esposa também ganhou o prêmio? Isso não é coincidência.
Não é coincidência. Eles trabalham juntos em um ambiente que valoriza a pesquisa. A UFMS criou as condições para que ambos prosperassem. Quando uma instituição investe em seus cientistas, os resultados aparecem.
Qual é o impacto real dessa pesquisa no campo?
Ainda está chegando. Os drones e sensores existem, mas a maioria dos produtores ainda não usa. O próximo passo de Teodoro é simplificar a inteligência artificial para que recomendações práticas cheguem ao agricultor. Quando isso acontecer, a seca e o calor deixarão de ser surpresas.
Le Pouls
- Mudanças climáticas ameaçam culturas essenciais como soja, milho e algodão, exigindo respostas mais rápidas do que o monitoramento humano tradicional consegue oferecer.
- A tecnologia desenvolvida por Teodoro detecta estresse hídrico e térmico em plantas com velocidade e precisão que o olho humano não alcança, usando drones, satélites e modelos de IA.
- O prêmio consagra uma trajetória construída sobre uma renúncia rara: Teodoro abriu mão de um concurso público para engenheiro civil e apostou no mestrado em Agronomia — decisão que definiu tudo o que veio depois.
- Sua esposa, também professora da UFMS, venceu o mesmo prêmio em 2024, tornando o reconhecimento um marco familiar e institucional ao mesmo tempo.
- Os próximos passos apontam para simplificar os modelos de IA e transformar dados científicos em recomendações práticas que cheguem diretamente ao produtor rural enfrentando um clima cada vez mais imprevisível.
Há momentos em que uma escolha silenciosa redefine não apenas uma vida, mas o alcance de toda uma geração. Paulo Eduardo Teodoro, professor da UFMS em Chapadão do Sul, abriu mão de um cargo público estável para seguir a pesquisa científica — e mais de uma década depois, foi reconhecido com o Prêmio Fundação Bunge 2026 pelo desenvolvimento de tecnologias que unem inteligência artificial, drones e sensores para proteger lavouras brasileiras do estresse climático. O que começou como uma aposta pessoal tornou-se contribuição coletiva: ciência que nasce na universidade e caminha, cada vez mais, em direção ao campo.
Paulo Eduardo Teodoro estava diante de uma escolha que poucos enfrentam com tanta clareza: havia passado em um concurso público para engenheiro civil e, ao mesmo tempo, sido aprovado no mestrado em Agronomia. Escolheu a incerteza. "Não é todo dia que uma pessoa abre mão de um concurso", recorda. Mais de dez anos depois, essa aposta foi reconhecida com o Prêmio Fundação Bunge 2026 na categoria Juventude, pelo trabalho que desenvolve como professor da UFMS em Chapadão do Sul.
Filho de um mecânico e de uma vendedora, Teodoro cresceu apaixonado por matemática e chegou a cursar Engenharia Civil e Agronomia simultaneamente. Foi no terceiro semestre que um professor chamado Francisco Eduardo Torres mudou sua trajetória — alguém que ensinava com paixão visível. "Foi a primeira vez que tive contato com um professor que era apaixonado por aquilo que fazia", conta. A partir daí, a Agronomia deixou de ser uma segunda opção e passou a ser vocação.
A pesquisa premiada combina genética vegetal, sensoriamento remoto e inteligência artificial para identificar, com velocidade e precisão, quando plantas sofrem com falta de água ou calor excessivo. Sensores embarcados em drones e satélites captam essas respostas muito antes que qualquer observador humano perceberia. O que antes era restrito a laboratórios avança, a cada safra, em direção ao cotidiano do agricultor.
O prêmio tem um eco familiar significativo: sua esposa, Larissa Pereira Ribeiro Teodoro, também professora da UFMS, havia recebido a mesma distinção em 2024. Para Teodoro, o reconhecimento representa a consolidação de uma escolha feita há mais de uma década e o crescimento do próprio ambiente científico de Mato Grosso do Sul — o Programa de Pós-Graduação em Agronomia da UFMS saltou da nota 3 para a nota 5 da CAPES e implantou o doutorado.
O horizonte, porém, está à frente. Teodoro quer usar os dados acumulados em anos de experimentos para criar simulações que ajudem produtores a tomar decisões diante de diferentes cenários climáticos. O objetivo é simples de enunciar e complexo de realizar: fazer com que a ciência produzida dentro da universidade chegue, de fato, às mãos de quem planta.
Paulo Eduardo Teodoro enfrentou uma encruzilhada que poucos conseguem atravessar sem olhar para trás. Havia passado em um concurso público para engenheiro civil — a porta de entrada para uma carreira estável, bem remunerada, praticamente garantida. No mesmo período, foi aprovado para o mestrado em Agronomia. A escolha entre segurança e incerteza o levou a abrir mão do cargo público. "Não foi uma decisão fácil", recorda. "Passa muita coisa na nossa cabeça. Não é todo dia que uma pessoa abre mão de um concurso, porque traz uma estabilidade muito boa."
Mais de dez anos depois, aquela aposta na pesquisa científica rendeu frutos que poucos conseguem colher. Teodoro, professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul desde 2017, foi anunciado como vencedor do Prêmio Fundação Bunge 2026 na categoria Juventude. O reconhecimento veio pelo trabalho que desenvolve em Chapadão do Sul, onde combina inteligência artificial, drones, sensores e agricultura digital para ajudar culturas como soja, milho e algodão a enfrentar a seca e as altas temperaturas. Natural de Aquidauana, Teodoro transformou uma decisão arriscada em trajetória consolidada.
A história de Teodoro começou muito antes do prêmio. Filho de um mecânico e de uma vendedora, ele cresceu apaixonado por matemática e decidiu cursar Engenharia Civil. Simultaneamente, foi aprovado em Agronomia na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul e enfrentou o desafio de fazer duas graduações ao mesmo tempo durante cinco anos. Foi no terceiro semestre que tudo mudou. Um professor chamado Francisco Eduardo Torres o apresentou a uma forma diferente de estar na docência — alguém apaixonado pelo que fazia. "Foi a primeira vez que tive contato com um professor que era apaixonado por aquilo que fazia. Isso mudou muito a minha forma de enxergar a docência", conta. No semestre seguinte, começou a trabalhar em experimentos e pesquisas com Francisco. "Ali, realmente, tomei gosto, me apaixonei pela Agronomia."
O trabalho que o levou ao prêmio une genética vegetal, sensoriamento remoto e inteligência artificial para identificar rapidamente quando uma planta sofre com falta de água ou calor excessivo. Teodoro e sua equipe usam sensores embarcados em drones e satélites para detectar essas respostas muito mais rápido do que o olho humano conseguiria. "Estamos trabalhando utilizando sensores embarcados em drones e, muitas vezes, em satélites. Com isso, conseguimos detectar essa resposta de uma forma muito rápida, mais rápida que o olho humano." A tecnologia, que antes era exclusividade de laboratórios, está se tornando acessível aos produtores rurais. A cada ano, essas ferramentas chegam mais perto do campo, permitindo que o agricultor tome decisões mais precisas para maximizar produtividade e minimizar custos.
O prêmio carrega um significado ainda mais profundo para a família. Sua esposa, Larissa Pereira Ribeiro Teodoro, também professora da UFMS, recebeu o mesmo prêmio em 2024. "Para mim, representa toda a consolidação de um histórico que a gente vem desenvolvendo desde que escolhi seguir por essa carreira, quando fiz mestrado, doutorado, me tornei professor da UFMS e começamos a trabalhar duro", diz. Teodoro atribui parte dessa conquista ao ambiente construído pela universidade e ao fortalecimento da pesquisa em Mato Grosso do Sul. O Programa de Pós-Graduação em Agronomia evoluiu da nota 3 para a nota 5 da CAPES e implantou o curso de doutorado. "Eu sou muito feliz sendo professor da UFMS. A universidade sempre foi uma instituição que valoriza muito os seus cientistas."
O reconhecimento também reflete o crescimento do Estado no cenário científico nacional. Teodoro recebeu apoio diversas vezes da Fundect, a fundação estadual de apoio ao desenvolvimento do ensino, ciência e tecnologia. Esse suporte melhorou a infraestrutura da instituição e permitiu responder aos desafios da agricultura moderna. "O Estado tem crescido cada vez mais no cenário nacional e no cenário agrícola."
Para Teodoro, o prêmio não é o fim, mas um ponto de inflexão. Ele reúne dados de experimentos realizados ao longo dos últimos anos e quer ampliar o uso de modelos de inteligência artificial para transformar essas informações em recomendações práticas que cheguem ao produtor rural. "Os próximos passos são utilizar modelos de inteligência computacional cada vez mais e simplificar essa informação para os produtores. Queremos fazer simulações para entender como esses materiais genéticos e estratégias de manejo podem ajudar o produtor em diferentes cenários de mudanças climáticas." É o caminho para que a ciência produzida nas universidades chegue efetivamente ao campo e ajude o agricultor a enfrentar um cenário cada vez mais desafiador de aumento das temperaturas e irregularidade das chuvas.
Citations marquantes
Não foi uma decisão fácil. Passa muita coisa na nossa cabeça. Não é todo dia que uma pessoa abre mão de um concurso, porque traz uma estabilidade muito boa.— Paulo Eduardo Teodoro
Estamos trabalhando utilizando sensores embarcados em drones e, muitas vezes, em satélites. Com isso, conseguimos detectar essa resposta de uma forma muito rápida, mais rápida que o olho humano.— Paulo Eduardo Teodoro