Inflação de núcleo ainda figura entre as três maiores do grupo
Em Madri, o presidente do Banco Central do Brasil, Roberto Campos Neto, apresentou a investidores um retrato ambíguo da inflação brasileira: o país saltou da segunda maior para a segunda menor inflação entre economias emergentes em apenas nove meses, mas a inflação de núcleo — aquela que exclui os itens mais voláteis — permanece entre as três mais altas do grupo. O progresso é real, mas parte dele repousa sobre fundamentos temporários, e a pergunta que o tempo responderá é se a desinflação se aprofundará ou se as pressões estruturais de preços voltarão a se impor.
- O Brasil saiu do segundo lugar entre os emergentes com maior inflação para o segundo lugar entre os de menor inflação em apenas nove meses — uma virada que poucos analistas antecipavam no início de 2022.
- A inflação de núcleo, porém, permanece em torno de 10%, revelando que boa parte da melhora veio de fatores externos e passageiros, como a queda nos preços de energia e alimentos, e não de uma mudança estrutural.
- As projeções do BC apontam inflação acima da meta tanto para 2022 quanto para 2023, e o Brasil não está sozinho: Colômbia, Chile e México enfrentam o mesmo desafio regional.
- Enquanto países europeus gastaram até 6% do PIB para conter o impacto da crise energética, o Brasil manteve seus gastos em torno de 2% do PIB — uma contenção fiscal que ajudou a não amplificar as pressões inflacionárias.
- O Brasil surge como exceção positiva nas projeções de atividade econômica global, com crescimento sendo revisado para cima enquanto o restante do mundo enfrenta perspectivas mais sombrias.
Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, apresentou nesta quarta-feira, em reunião com investidores organizada pelo Santander em Madri, um quadro paradoxal sobre a inflação brasileira: uma história de progresso notável que, vista de perto, revela uma realidade mais complexa.
No início de 2022, o Brasil ocupava o segundo lugar no ranking de inflação entre economias emergentes, atrás apenas da Rússia, abalada pelo choque econômico da invasão da Ucrânia. Em setembro, a situação se inverteu: o IPCA acumulado em 12 meses chegou a 7,2%, o segundo mais baixo do grupo, superado apenas pela China. Uma vitória significativa para a política monetária brasileira.
Mas Campos Neto foi cuidadoso em não deixar a narrativa de sucesso dominar completamente. Excluindo alimentos e energia, a inflação de núcleo do Brasil, em torno de 10%, ainda figura entre as três maiores do grupo de emergentes, atrás apenas de Rússia e Chile. Essa divergência revela que parte relevante da desinflação veio de fatores temporários, não de uma mudança estrutural na dinâmica de preços.
O cenário regional reforça essa leitura. As projeções apontam para 5,61% em 2022 e 4,94% em 2023 — ambas acima das metas estabelecidas —, situação compartilhada por Colômbia, Chile e México, sugerindo que a pressão inflacionária na América Latina é um fenômeno mais amplo do que questões puramente domésticas.
Na comparação fiscal com países europeus, o Brasil pode reivindicar alguma satisfação: enquanto o Reino Unido desembolsou mais de 6% do PIB para amortecer o impacto dos preços de energia, o Brasil manteve seus gastos em torno de 2% do PIB — uma escolha deliberada de não amplificar as pressões inflacionárias. Ao mesmo tempo, o país emerge como exceção positiva nas projeções de atividade econômica global, com crescimento sendo revisado para cima enquanto o restante do mundo desacelera.
O Brasil se desenha, assim, como um país em transição: inflação caindo mais rápido que a maioria dos emergentes, mas núcleo ainda elevado; crescimento acelerado enquanto o mundo freia. A questão que permanece é se a desinflação continuará ou se o núcleo persistentemente alto sinalizará uma volta das pressões de preços nos próximos trimestres.
Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, apresentou nesta quarta-feira um quadro paradoxal sobre a inflação brasileira: uma história de progresso dramático que, vista de perto, revela uma realidade mais complexa. Em reunião fechada com investidores organizada pelo Santander em Madri, ele apontou como o Brasil conseguiu sair de uma posição constrangedora no início do ano para uma posição invejável agora — mas com ressalvas importantes que não devem ser ignoradas.
No começo de 2022, o Brasil ocupava o segundo lugar no ranking de inflação entre economias emergentes, perdendo apenas para a Rússia, que enfrentava o choque econômico da invasão da Ucrânia. Nove meses depois, em setembro, a situação se inverteu. O índice oficial de preços, o IPCA, medido em 12 meses, chegou a 7,2% — o segundo mais baixo do grupo de emergentes, superado apenas pela China. Essa transformação representa uma vitória significativa para a política monetária brasileira, que vinha enfrentando pressões inflacionárias severas.
Mas Campos Neto foi cuidadoso em não deixar a narrativa de sucesso dominar completamente. Quando se remove da conta os itens mais voláteis — alimentos e energia — a imagem muda. A inflação de núcleo do Brasil, em torno de 10%, permanece entre as três maiores do grupo de emergentes, ficando atrás apenas da Rússia e do Chile. Essa divergência importa porque revela que parte significativa da desinflação brasileira veio de fatores externos e temporários, não de uma mudança estrutural na dinâmica de preços.
O contexto regional também merecia atenção. O Brasil não está sozinho em suas dificuldades com expectativas inflacionárias. As projeções para 2022 apontam para 5,61% de inflação, enquanto para 2023 a expectativa é de 4,94% — ambas acima das metas estabelecidas. Colômbia, Chile e México enfrentam o mesmo desafio, sugerindo que a pressão inflacionária na América Latina é um fenômeno mais amplo do que apenas questões domésticas.
Campos Neto também tocou em um ponto de política fiscal que o Brasil pode reivindicar com alguma satisfação. Enquanto países europeus gastaram quantias enormes para amortecer o impacto dos preços de energia — o Reino Unido desembolsou mais de 6% do PIB, enquanto Itália, Espanha, França e Holanda ficaram próximas a 3% — o Brasil manteve seus gastos em torno de 2% do PIB. Essa contenção fiscal, mesmo diante de pressões políticas para subsidiar combustíveis, representa uma escolha deliberada de não amplificar ainda mais as pressões inflacionárias.
O presidente do BC também ofereceu uma perspectiva mais ampla sobre o cenário global. Enquanto a China mostrou surpresas positivas no terceiro trimestre, há sinais claros de desaceleração econômica à frente, particularmente no setor imobiliário, que é crucial tanto para o crescimento quanto para a riqueza das famílias chinesas. Em contraste, o Brasil emerge como uma exceção nas projeções de atividade econômica global — praticamente o único país emergente com perspectivas de crescimento sendo revisadas para cima enquanto o resto do mundo enfrenta prognósticos mais sombrios.
Essa posição peculiar do Brasil — inflação caindo mais rápido que a maioria dos emergentes, mas núcleo ainda elevado; gastos fiscais contidos, mas expectativas de preços ainda acima da meta; crescimento econômico acelerado enquanto o mundo desacelera — desenha um país em transição. A questão que permanece é se essa desaceleração inflacionária continuará ou se o núcleo elevado sinalizará uma volta das pressões de preços nos próximos trimestres.
Notable Quotes
Brasil é uma exceção nas perspectivas de atividade econômica, com aumento das projeções de crescimento enquanto o mundo tem prognóstico mais negativo— Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o presidente do BC fez questão de destacar tanto a queda da inflação se havia ressalvas tão importantes?
Porque a audiência era investidores internacionais. Mostrar progresso é importante para a confiança. Mas ele não podia ignorar que o núcleo ainda está alto — isso seria desonesto e prejudicaria a credibilidade do BC.
Então a inflação brasileira realmente caiu, ou apenas parece ter caído?
Caiu de verdade, mas de forma desigual. Os preços de alimentos e energia caíram bastante. Mas os preços de tudo mais — serviços, bens duráveis — continuam subindo a um ritmo preocupante.
Por que a Europa gastou tanto mais com energia do que o Brasil?
A Europa depende muito do gás russo. Quando a Rússia cortou o abastecimento, os preços explodiram. O Brasil não tem essa dependência, então não precisou de subsídios tão agressivos.
O Brasil está realmente crescendo enquanto o mundo desacelera?
Segundo as projeções que o BC estava apresentando, sim. É incomum. Mas isso pode ser um reflexo de que o Brasil ainda está se recuperando da pandemia, enquanto economias mais maduras já estão em desaceleração cíclica.
E se a inflação de núcleo começar a subir novamente?
Aí o BC teria que apertar ainda mais a política monetária. As expectativas de inflação para 2023 já estão acima da meta, então não há muito espaço para relaxar.