Brasil leva segunda maior delegação à COP27, com 570 credenciados

A delegação reflete prioridades políticas, não restrições legais
O Brasil credenciou empresários e familiares de autoridades enquanto excluía pesquisadores e organizações ambientalistas da delegação oficial.

Em Sharm el-Sheikh, o Brasil chegou à COP27 com a segunda maior delegação do mundo — cerca de 570 credenciados —, mas a grandeza dos números esconde uma escolha política: pesquisadores, povos indígenas e organizações ambientalistas foram sistematicamente afastados, enquanto CEOs e representantes do agronegócio ganharam lugar à mesa. O que uma delegação inclui e exclui é, em si, uma declaração sobre quem uma nação acredita que deve falar pelo seu futuro climático.

  • Com 570 credenciados ocupando 35 páginas da lista oficial da ONU, o Brasil projeta presença massiva — mas a composição revela prioridades que vão além do clima.
  • Desde 2019, ambientalistas, lideranças indígenas e pesquisadores de destaque foram progressivamente excluídos da delegação oficial, uma ruptura que persiste mesmo na transição política.
  • CEOs da JBS, representantes de confederações industriais e primeiras-damas de estados amazônicos ocupam o espaço que antes pertencia à ciência e à sociedade civil.
  • A sociedade civil respondeu montando seus próprios estandes — o Brazil Climate Action Hub e o dos governadores da Amazônia —, criando uma geografia paralela de resistência dentro da conferência.
  • A tensão entre os dois mundos já se materializou: um representante do estande oficial foi reclamar do barulho no estande das ONGs, transformando um detalhe logístico em símbolo de um conflito mais profundo.

Em Sharm el-Sheikh, no Egito, o Brasil chegou à COP27 com cerca de 570 credenciados oficiais — a segunda maior delegação da conferência, superada apenas pelos Emirados Árabes Unidos, que sediarão o próximo encontro em 2023. O volume impressiona: os nomes brasileiros ocupam aproximadamente 35 páginas do documento público da UNFCCC.

Mas a composição da delegação conta uma história diferente da escala. Entre os credenciados estão primeiras-damas de três estados amazônicos, assessoras de autoridades, CEOs de grandes empresas como a JBS e representantes de confederações industriais e agrícolas. O estande oficial, erguido com apoio da CNI, CNA e Sebrae, ocupa cerca de 300 metros quadrados. Pesquisadores e organizações da sociedade civil, por outro lado, estão quase ausentes — uma tendência que começou no governo Bolsonaro e não foi revertida. A reportagem identificou apenas uma ONG ambiental na lista oficial.

Desde 2019, o Itamaraty deixou de incluir ambientalistas, indígenas e movimentos sociais nas delegações formais. Questionado sobre os critérios de seleção, o ministério não respondeu. A justificativa oficial — de que a delegação é restrita a membros do governo — contradiz a própria lista, que inclui empresários e familiares de autoridades.

Fora da delegação oficial, porém, o Brasil tem presença mais plural. Este ano, o país montou um número recorde de três estandes: o governamental, o Brazil Climate Action Hub — reunindo ONGs em 150 metros quadrados — e um espaço dos governadores da Amazônia. Separados por poucos metros nos corredores da conferência, esses estandes já protagonizaram um incidente revelador: um representante do governo foi até o hub da sociedade civil reclamar do volume do som. O episódio, pequeno em aparência, ilumina uma divisão maior — sobre quem tem o direito de falar pelo Brasil quando o assunto é o clima do planeta.

Em Sharm el-Sheikh, no Egito, o Brasil montou sua segunda maior delegação para a COP27, a conferência anual das Nações Unidas sobre mudanças climáticas. Cerca de 570 pessoas receberam credenciamento oficial, um número que ocupa aproximadamente 35 páginas do documento público da UNFCCC que lista todos os participantes. Apenas os Emirados Árabes Unidos superaram o Brasil, com mais de mil credenciados — uma vantagem explicada pelo fato de Dubai sediar a próxima conferência, em 2023. O Egito, país anfitrião, credenciou cerca de 154 pessoas.

A composição da delegação brasileira revela escolhas políticas claras. Além de funcionários governamentais, a lista inclui primeiras-damas de três estados amazônicos, assessoras de primeiras-damas, CEOs de grandes empresas como a JBS, representantes de confederações industriais e agrícolas, e alguns policiais militares. O estande oficial brasileiro, construído com participação da CNI, CNA e Sebrae, ocupa cerca de 300 metros quadrados. Pesquisadores e organizações da sociedade civil, porém, estão notavelmente ausentes da delegação oficial — uma mudança que começou no governo Bolsonaro e se mantém. A reportagem encontrou apenas uma ONG ambiental na lista: o Instituto Terra Verde Brasil, representado por sua vice-presidente. Alguns pesquisadores de universidades públicas e do Inpe aparecem, mas sua presença é marginal.

Essa ausência não é acidental. Desde 2019, o Itamaraty deixou de incluir organizações ambientalistas, pesquisadores de destaque, organizações indígenas e movimentos sociais nas listas oficiais de delegação. Quando questionado sobre os critérios de seleção, o Itamaraty não respondeu. Um embaixador brasileiro havia argumentado, no ano anterior, que a delegação oficial não pode levar pessoas fora do governo — mas a prática contradiz essa afirmação, já que representantes comerciais e familiares de autoridades estão credenciados. A ONU, por sua parte, não restringe os nomes que os países indicam.

A presença comercial é significativa. Representantes da JBS, a gigante do agronegócio, estão credenciados e devem falar no estande brasileiro. Essa composição reflete uma estratégia deliberada de priorizar interesses econômicos sobre a voz de pesquisadores e movimentos sociais que historicamente participaram das negociações climáticas brasileiras.

Mas a delegação oficial não conta a história completa. O Brasil tem um histórico de grandes delegações nas conferências climáticas, e o credenciamento governamental oferece acesso privilegiado a certos espaços. Fora da lista oficial, há mais brasileiros presentes — membros de ONGs, associações indígenas e movimentos negros que conseguem participar através de outros mecanismos. Este ano, o Brasil montou um número recorde de três estandes: o oficial do governo, o Brazil Climate Action Hub (reunindo ONGs, com 150 metros quadrados), e um dos governadores da Amazônia (120 metros quadrados).

Esses estandes, apesar de próximos nos corredores da conferência, já geraram tensão. Um membro do estande oficial foi até o Brazil Climate Action Hub para reclamar do volume do som — um incidente que simboliza as divisões políticas sobre como o Brasil se representa nas negociações climáticas globais. A proximidade física dos estandes, separados por apenas alguns metros, torna essas diferenças ainda mais visíveis. Enquanto o governo credencia empresários e primeiras-damas, a sociedade civil organiza seu próprio espaço, criando uma geografia de conflito dentro da conferência que reflete as disputas mais amplas sobre quem fala pelo Brasil em questões de clima.

A delegação oficial não pode levar consigo pessoas que não sejam do governo
— Embaixador Paulino Franco, em declaração anterior sobre critérios de delegação
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o Brasil escolheu levar primeiras-damas e CEOs em vez de pesquisadores climáticos para a conferência?

Model

A delegação reflete prioridades políticas. Desde 2019, o governo deixou de incluir ONGs ambientalistas e organizações indígenas — grupos que historicamente participavam. No lugar deles, entram representantes comerciais e familiares de autoridades. É uma escolha sobre quem tem voz.

Inventor

Mas a ONU não restringe quem os países indicam, certo?

Model

Exato. Tecnicamente, qualquer país pode credenciar quem quiser. O embaixador brasileiro disse que a delegação oficial não pode levar pessoas fora do governo, mas a lista mostra o oposto — há CEOs, esposas de assessores, policiais militares. A restrição não é legal, é política.

Inventor

E quanto aos pesquisadores que encontraram? Parecem estar lá apesar de tudo.

Model

Alguns estão, sim. Há pesquisadores de universidades públicas e até do Inpe — o instituto que Bolsonaro atacou por seus dados sobre desmatamento. Mas sua presença é marginal, quase invisível na lista de 570 nomes.

Inventor

Qual é a vantagem real de estar credenciado como delegação oficial?

Model

Acesso. Quando você está na delegação oficial, tem facilidade para entrar em certos espaços, participar de negociações, acessar áreas restritas. É por isso que o credenciamento importa — não é só um crachá, é poder.

Inventor

Os estandes separados — o do governo e o da sociedade civil — isso é novo?

Model

Não é novo que existam estandes diferentes, mas este ano o Brasil tem um número recorde: três. E a tensão entre eles é real. Um membro do estande oficial foi reclamar do som no estande da sociedade civil. Eles estão a metros de distância, mas em mundos políticos diferentes.

Inventor

Então há mais brasileiros lá do que os 570 credenciados?

Model

Muito mais. ONGs, movimentos indígenas, associações negras — eles conseguem participar por outros caminhos, não pela delegação oficial. A conferência é uma torre de Babel. O português brasileiro está nos corredores e estandes, mas nem sempre nos lugares de poder.

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