Prefeitura de SP ignora norma federal sobre ruído de aeroportos

Aproximadamente 48 mil contribuintes em áreas residenciais estão expostos a ruído aeroportuário incompatível com saúde, incluindo moradores próximos a três hospitais, dois postos de saúde e 12 escolas públicas.
Uma obrigação legal e constitucional até hoje não cumprida
Especialista da Anac em audiência pública sobre a resistência da Prefeitura em incorporar norma federal de zoneamento de ruído.
Mark

Por que a Prefeitura resiste tanto a incorporar esse plano de zoneamento? Parece uma exigência clara.

Mimi

Porque incorporar significa assumir responsabilidade. Significa dizer que certos lugares não são adequados para residência sem proteção especial, e isso pode gerar conflitos, audiências públicas, possíveis ações judiciais de proprietários que se sintam prejudicados.

Mark

Mas as pessoas já estão vivendo lá, expostas ao ruído.

Mimi

Exatamente. O que a Prefeitura não quer é reconhecer formalmente que permitiu isso acontecer. Uma resolução informativa é mais segura — avisa, mas não restringe.

Mark

E os especialistas? Eles acham que é possível resolver isso?

Mimi

Sim. Dizem que reforço acústico em reformas e novas construções tornaria a maioria das áreas tolerável. Mas isso exigiria que a Prefeitura estabelecesse exigências mais rigorosas, o que ela evita.

Mark

Qual é o risco real se nada mudar?

Mimi

Que o adensamento continue, o ruído piore, e eventualmente os próprios aeroportos sejam forçados a restringir voos ainda mais. Ou que o Ministério Público entre com ação judicial e a Prefeitura seja obrigada de qualquer forma — mas aí será mais caro e mais conflituoso.

Mark

Então é um problema que só piora enquanto se adia a decisão.

Mimi

Exatamente. Desde 2018 se fala disso. Agora prometem discutir em 2029. Enquanto isso, mais prédios são construídos, mais pessoas se mudam para lá.

  • Mais de 11 mil lotes ao redor de Congonhas, Campo de Marte e Guarulhos estão expostos a ruído acima de 65 decibéis — nível que a legislação federal considera incompatível com uso residencial.
  • Anac, Infraero e Ministério Público Federal cobram a Prefeitura desde 2018, mas oito anos de reuniões não produziram nenhuma restrição concreta à urbanização nessas áreas.
  • A gestão Nunes respondeu em junho com uma resolução apenas informativa, recusando incorporar o Plano Específico de Zoneamento de Ruído à lei de uso do solo — medida que exigiria isolamento acústico em novas construções.
  • Hospitais, postos de saúde e doze escolas públicas estão dentro das zonas críticas, e as reclamações de ruído em Congonhas mais que dobraram entre 2023 e 2025.
  • O MPF sinalizou possível ação judicial em 2024; a Prefeitura promete discutir o tema apenas na revisão do Plano Diretor em 2029 — enquanto Paris regulou o mesmo problema em 1965.

Há quase quarenta anos, o Código Brasileiro de Aeronáutica exige que municípios incorporem planos de zoneamento de ruído aeroportuário à sua legislação urbanística — e São Paulo ainda não o fez. Enquanto cerca de 48 mil moradores vivem expostos a níveis de barulho incompatíveis com a saúde, a Prefeitura oferece informação onde a lei pede regulação. O impasse entre autonomia municipal e obrigação federal revela uma cidade que cresce sobre o silêncio que deveria proteger.

São Paulo tem mais de onze mil lotes nos arredores de seus três principais aeroportos onde o ruído das aeronaves ultrapassa o limite federal compatível com uso residencial. A Prefeitura e os órgãos federais sabem disso há pelo menos oito anos — e, desde 2018, se reúnem sem que nada de substancial tenha mudado.

Em junho, a gestão Ricardo Nunes respondeu às cobranças com uma resolução apenas informativa: proprietários e empreendedores serão avisados se seus imóveis estão em zona de ruído acima de 65 decibéis, mas nenhuma restrição ou exigência construtiva foi criada. O que Anac, Infraero e Ministério Público Federal pedem há anos é diferente: que a cidade incorpore o Plano Específico de Zoneamento de Ruído à sua legislação urbanística, obrigando isolamento acústico reforçado em novas edificações. Essa exigência existe desde 1986 no Código Brasileiro de Aeronáutica e nunca foi cumprida por São Paulo.

O problema se concentra em Congonhas. Dez mil e quinhentos lotes na zona sul — em Moema, Itaim Bibi, Jabaquara, Campo Belo e Saúde — expõem 35 mil moradores a níveis de ruído incompatíveis com residências. Na mesma área estão três hospitais, dois postos de saúde e doze escolas públicas. As reclamações de ruído em Congonhas mais que dobraram em três anos: 69 em 2023, 116 em 2024, 160 em 2025.

A Prefeitura alega que incorporar o plano exigiria audiências públicas, poderia gerar litígios e custaria caro ao município. Especialistas, porém, advertem que o controle da urbanização é necessário tanto para proteger a saúde da população quanto para evitar que o adensamento force restrições aos próprios aeroportos. Pesquisas indicam que medidas de reforço acústico poderiam tornar a situação tolerável em mais de 80% da área mais crítica.

Em audiência na Assembleia Legislativa em julho, a Anac foi direta: trata-se de obrigação legal e constitucional não cumprida. A Prefeitura respondeu com promessas de transparência digital e a possibilidade de incluir o tema na revisão do Plano Diretor em 2029. O MPF já sinalizou que pode ajuizar ação para forçar a incorporação do plano. Paris regulou o mesmo problema em 1965. Guarulhos e Curitiba já seguiram o caminho. São Paulo continua esperando.

São Paulo tem mais de onze mil lotes espalhados pelos arredores de seus três principais aeroportos onde o barulho das aeronaves ultrapassa o limite que a legislação federal considera incompatível com a vida residencial. A Prefeitura sabe disso. Órgãos federais sabem disso. E há pelo menos oito anos, desde 2018, eles vêm se encontrando para discutir o que fazer a respeito — sem que nada de substancial tenha acontecido.

Em junho deste ano, a gestão Ricardo Nunes respondeu com uma resolução que faz pouco mais que informar: proprietários e empreendedores receberão aviso se seus imóveis estão em zona de ruído acima de 65 decibéis. Nenhuma restrição. Nenhuma sanção. Apenas a informação. Mas o que a Agência Nacional de Aviação Civil, a Infraero e o Ministério Público Federal pedem há anos é algo bem mais concreto: que a Prefeitura incorpore o Plano Específico de Zoneamento de Ruído dos aeroportos à legislação urbanística da cidade. Isso exigiria que novos prédios tivessem isolamento acústico reforçado, que construções em áreas críticas enfrentassem maiores exigências. É uma obrigação que existe desde 1986 no Código Brasileiro de Aeronáutica, nunca cumprida.

A maior parte do problema está concentrada em Congonhas. Dez mil e quinhentos lotes na zona sul — nos bairros de Moema, Itaim Bibi, Jabaquara, Campo Belo e Saúde — estão expostos a ruído que deveria ser incompatível com uso residencial. São 35 mil contribuintes vivendo em quadras que, em sua maioria, são residenciais ou mistas. Nessa mesma área estão três hospitais, dois postos de saúde e doze escolas públicas. No Campo de Marte, na zona norte, quatrocentos lotes afetam quase quinhentos contribuintes. Em Jaçanã, o aeroporto de Guarulhos impacta setecentos lotes. Nos últimos três anos, as reclamações de ruído em Congonhas mais que dobraram: sessenta e nove em 2023, cento e dezesseis em 2024, cento e sessenta em 2025.

A Prefeitura argumenta que incorporar o plano exigiria audiências públicas, poderia gerar processos judiciais e custaria caro ao município. Por isso não entrou na revisão da Lei de Zoneamento. Também sinalizou outras medidas — como desapropriar quarenta lotes próximos à cabeceira da pista de Congonhas, algo que os entes federais nem pediram. A Procuradoria-Geral do Município reconheceu em 2020 que a compatibilização da legislação com os planos aeronáuticos seria "desejável", mas argumentou que órgãos federais não poderiam impor isso à prefeitura.

Mas especialistas apontam que o controle da urbanização é necessário tanto para proteger a saúde da população quanto para evitar que o adensamento construtivo force novas restrições aos próprios aeroportos. Renata Cavion, coordenadora do curso de Engenharia de Transportes e Logística da Universidade Federal de Santa Catarina, mapeou que setenta por cento dos quarteirões da zona de ruído de Congonhas tinham usos incompatíveis com o nível de barulho em 2024. Mas ela também avaliou que medidas de reforço acústico poderiam tornar a situação tolerável em mais de oitenta por cento da área mais problemática. Paulo Ramos Pinto, pesquisador com quarenta anos de carreira federal em aviação e urbanismo, aponta que as referências usadas hoje não abarcam toda a população impactada — em parte da Europa, médias de 55 decibéis já são adotadas como referência.

Em audiência pública na Assembleia Legislativa em julho, um representante da Anac fez um apelo direto: "É uma obrigação legal e constitucional até hoje não cumprida. Sem a compatibilização, não tem qualquer controle sobre adensamento no entorno do aeródromo". A Prefeitura respondeu que está ampliando a transparência, colocando os planos de ruído no mapa digital da cidade. Também indicou que pode incluir o tema na revisão do Plano Diretor e da Lei de Zoneamento em 2029. Mas o Ministério Público Federal já sinalizou em 2024 que poderia ajuizar ação para obrigar a incorporação do plano se a conciliação não avançar. Paris incorporou as curvas de ruído à sua legislação em 1965. Guarulhos e Curitiba já fizeram o mesmo. São Paulo continua esperando.

É uma obrigação legal e constitucional até hoje não cumprida. Sem a compatibilização, não tem qualquer controle sobre adensamento no entorno do aeródromo
— Alfredo Isaac Nogueira, especialista em regulação da Anac
O protocolo de controle deveria ter sido adotado muito tempo atrás
— Renata Cavion, coordenadora de Engenharia de Transportes e Logística da UFSC
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