Portugal construiu, ao longo de uma década, um ecossistema de startups que chegou a ser motivo de orgulho nacional — mas os sinais de estagnação acumulam-se. O estudo 'Building a Scalup Nation', apresentado pela Startup Portugal em finais de 2022, revela que o país ocupa a 28ª posição global em empreendedorismo, com números absolutos que impressionam à superfície mas que escondem fissuras profundas: fiscalidade penalizadora, burocracia persistente e uma janela de oportunidade que não ficará aberta indefinidamente. A questão que se coloca não é se Portugal tem capacidade empreendedora — tem —,
Portugal perde ritmo no ecossistema de startups, alerta estudo da Startup Portugal
Não podemos ficar à sombra de uma boa primeira vaga
O que é que este estudo está realmente a dizer? Portugal tem 3.880 startups e 69 mil empregos — isso não é um fracasso.
Não é um fracasso, mas é um aviso. O país cresceu muito entre 2016 e 2020, mas agora está a perder ritmo. Mais de 30% dos empreendedores dizem que Portugal não é um bom destino para negócios.
Espera — quem respondeu a esse inquérito? Quantas pessoas? Porque "mais de 30%" pode ser 31% de 50 pessoas ou 35% de 5 mil.
O estudo não especifica o tamanho da amostra. Mas o padrão é consistente: 71% apontam fiscalidade, 50% apontam burocracia.
Então o problema é dinheiro e papelada.
Principalmente, sim. Mas também é sobre velocidade — os processos são lentos demais para atrair investimento internacional.
E quanto aos 421 milhões de euros levantados em 2022? Isso é muito ou pouco?
O estudo não compara com anos anteriores, por isso é difícil dizer se é uma queda ou uma estabilização.
Há uma coisa que me intriga: sete unicórnios, mas seis têm sede fora de Portugal. Porque é que isso importa?
Porque significa que o talento português criou valor, mas o valor foi capturado noutros países. É um sinal de que Portugal não consegue reter as suas melhores empresas.
Ou que as empresas crescem e precisam de estar perto dos mercados maiores. Isso não é necessariamente culpa de Portugal.
Verdade. Mas é um sintoma de que o ecossistema ainda não é suficientemente robusto para manter as startups em casa.
O Pulso
- Portugal caiu para a 28ª posição global em ecossistemas empreendedores, e líderes do setor alertam que o país está a recuar em áreas onde já esteve melhor posicionado.
- Mais de 30% dos empreendedores não consideram Portugal um destino adequado para os seus negócios, citando fiscalidade inadequada e burocracia excessiva como razões concretas.
- O investimento captado em 2022 ficou nos 421 milhões de euros — um valor que contrasta com o potencial de um setor avaliado em 34,7 mil milhões de euros e que emprega mais de 69 mil pessoas.
- Medidas já criadas, como o visto de startup, não são aplicadas de forma consistente pelas instituições responsáveis, transformando intenções políticas em pontos de bloqueio real.
- Líderes do ecossistema defendem uma nova vaga de reformas urgentes — fiscal, regulatória e administrativa — antes que a concorrência internacional absorva o talento e o capital que Portugal ainda retém.
Portugal construiu, ao longo de uma década, um ecossistema de startups que chegou a ser motivo de orgulho nacional — mas os sinais de estagnação acumulam-se. O estudo 'Building a Scalup Nation', apresentado pela Startup Portugal em finais de 2022, revela que o país ocupa a 28ª posição global em empreendedorismo, com números absolutos que impressionam à superfície mas que escondem fissuras profundas: fiscalidade penalizadora, burocracia persistente e uma janela de oportunidade que não ficará aberta indefinidamente. A questão que se coloca não é se Portugal tem capacidade empreendedora — tem —, mas se tem vontade coletiva de a preservar antes que os seus melhores talentos e investidores encontrem abrigo noutros lugares.
Portugal chegou a ser visto como um caso de sucesso no mapa europeu das startups. Mas o estudo 'Building a Scalup Nation', apresentado pela Startup Portugal ao Conselho Estratégico no final de 2022, traçou um retrato mais sóbrio: o país ocupa a 28ª posição global, com sinais evidentes de desaceleração após um período de forte crescimento entre 2016 e 2020.
Os números de superfície ainda impressionam — 3.880 startups e scalups, sete unicórnios, mais de 69 mil empregos e uma avaliação setorial de 34,7 mil milhões de euros. Mas por baixo destes algarismos, as fissuras são visíveis. Mais de 30% dos empreendedores não consideram Portugal um bom destino para os seus negócios. Setenta e um por cento apontam a fiscalidade como obstáculo urgente; metade cita a burocracia e a regulação como barreiras ao crescimento.
Gabriel Coimbra, da IDC Portugal, reconheceu os avanços da última década mas sublinhou que há trabalho por fazer para tornar Portugal um hub verdadeiramente competitivo. António Dias Martins, da Startup Portugal, foi mais direto: o país está a recuar em áreas onde já esteve melhor, e não se pode viver à sombra da primeira vaga de momentum. Manuel Caldeira Cabral alertou que não existe solução única — o ecossistema depende de capital, desmaterialização de processos e capacidade de atrair talento internacional, e uma medida isolada raramente chega.
O problema vai além da intenção política. O visto de startup existe, mas não é aplicado de forma consistente pelo SEF, tornando-se num obstáculo em vez de uma porta aberta. A própria fiabilidade dos dados foi questionada durante a apresentação — algumas das empresas contabilizadas nem sequer são portuguesas. A Startup Portugal prepara uma ferramenta de mapeamento do ecossistema para 2023, prometendo mais precisão aos indicadores.
O que está verdadeiramente em jogo é a janela de oportunidade. Portugal tem um ecossistema real, com valor e empregos criados. Mas outros países estão também a posicionar-se, e quem não avança, recua. Sem reformas concretas e implementadas — não apenas anunciadas —, o risco é ver os melhores empreendedores e investidores procurarem condições mais favoráveis noutros lugares.
Portugal construiu um ecossistema de startups que impressionou durante meia década. Depois, começou a perder o passo. Um estudo apresentado pela Startup Portugal ao Conselho Estratégico no final de 2022 traçou o retrato de um país que ainda ocupa a 28ª posição entre os 100 melhores ecossistemas empreendedores do mundo, mas que sente os sinais de uma desaceleração preocupante.
Os números absolutos parecem sólidos à primeira vista. Portugal tem 3.880 startups e scalups, sete unicórnios (embora seis deles tenham sede fora do país), e essas empresas geram mais de 69 mil empregos. A avaliação combinada do setor atinge 34,7 mil milhões de euros. Em 2022, o capital levantado por empresas portuguesas foi de 421 milhões de euros. Mas por baixo destes algarismos, o estudo Building a Scalup Nation — desenvolvido em parceria com a IDC Portugal — revelou fissuras que preocupam quem trabalha no setor.
Mais de 30% dos empreendedores não consideram Portugal um bom destino para fixar os seus negócios. As razões são concretas: fiscalidade inadequada, burocracia excessiva, processos lentos. Quando questionados especificamente, 71% dos empreendedores apontaram a fiscalidade como um obstáculo que precisa de mudanças urgentes. Metade deles citou a regulação específica para startups e a burocracia como barreiras significativas. Mesmo com programas de apoio disponíveis, o processo de atração de investidores e novos empreendedores permanece lento e pesado.
Gabriel Coimbra, diretor geral da IDC Portugal, reconheceu que o país beneficiou de um crescimento acelerado na última década, com dinâmica considerável em novas startups, unicórnios e desenvolvimento de talento. Mas sublinhou que há trabalho ainda por fazer para posicionar Portugal como um hub verdadeiramente competitivo. A questão fiscal atravessa todo o ecossistema — desde startups tradicionais até setores mais disruptivos como fintech, que precisam de condições competitivas para prosperar.
António Dias Martins, diretor executivo da Startup Portugal, foi mais direto: alguns indicadores são preocupantes, e o país está a recuar em áreas onde já esteve melhor posicionado. O período entre 2016 e 2020 trouxe visibilidade e momentum, mas não se pode ficar à sombra dessa primeira onda. É preciso lançar uma nova vaga de medidas. O mercado é concorrencial, e outros países estão também a posicionar-se nesta área. Quem não avança, recua.
Manuel Caldeira Cabral, também presente no Conselho Estratégico, alertou que não existe uma solução única. As startups dependem de um ecossistema completo: capital, desmaterialização de processos administrativos, capacidade de atrair imigrantes e talento internacional. Para algumas empresas, uma medida isolada pode ser decisiva; para outras, é a combinação de várias que faz a diferença. Mas há um problema adicional: nem sempre as medidas são implementadas. O visto de startup foi criado, mas instituições como o SEF não o aplicam de forma consistente, transformando-o num ponto de bloqueio.
O próprio estudo enfrentou críticas durante a apresentação. Há questões sobre a fiabilidade dos dados de investimento e sobre como as startups são classificadas — algumas das empresas contabilizadas não são sequer portuguesas. A Startup Portugal reconhece que há trabalho a fazer nesta área e está a desenvolver uma ferramenta de mapeamento do ecossistema que deve estar pronta em 2023, trazendo mais clareza e precisão aos indicadores.
O que está em jogo é claro: Portugal tem um ecossistema real, com empresas, empregos e valor criado. Mas a janela de oportunidade não fica aberta para sempre. Os líderes do setor defendem implementação urgente de medidas em múltiplas frentes — fiscal, regulatória, administrativa — para manter a competitividade. Sem isso, o país corre o risco de ver os seus melhores empreendedores e investidores procurarem oportunidades noutros lugares.
Citações Notáveis
Não podemos estar à sombra de uma boa primeira vaga que tivemos entre 2016 e 2020. É preciso lançar uma nova vaga de medidas.— António Dias Martins, diretor executivo da Startup Portugal
Não há uma silver bullet. Para o ecossistema são todas as medidas que importam — capital, desmaterialização de processos, atração de talento internacional.— Manuel Caldeira Cabral, Conselho Estratégico