Portugal perde ritmo no ecossistema de startups, alerta estudo da Startup Portugal

Não podemos estar à sombra de uma boa primeira vaga
António Dias Martins alerta que Portugal não pode repousar no crescimento de 2016-2020 e precisa de novas medidas.
Mark

O estudo diz que Portugal está na vigésima oitava posição. Isso é bom ou mau?

Mimi

Depende da perspetiva. Estar entre os cem melhores é respeitável. Mas o país estava melhor posicionado há pouco tempo, e isso é o sinal de alerta real.

Luke

Espera. O estudo não diz explicitamente qual era a posição anterior. Sabemos que recuou, mas não sabemos de quanto.

Mark

Certo. E quanto aos números de startups e empregos? Parecem impressionantes.

Mimi

São. Três mil e oitocentas startups, quase setenta mil empregos, trinta e quatro mil e setecentos milhões de euros em avaliação. Mas o estudo também diz que há sinais de estagnação em algumas áreas.

Luke

Aqui está o problema: o estudo não especifica quais são essas áreas. Sabemos que há estagnação, mas não sabemos onde exatamente.

Mark

E os empreendedores? O que dizem?

Mimi

Mais de trinta por cento não consideram Portugal um bom destino. Setenta e um por cento apontam a fiscalidade como problema crítico. Cinquenta por cento falam de burocracia e regulação.

Luke

Mas essas percentagens vêm de inquéritos. Quantos empreendedores foram inquiridos? O estudo não diz.

Mark

Então o que é que realmente precisa mudar?

Mimi

Tudo. Capital, desmaterialização de processos, capacidade de atrair imigrantes, fiscalidade, burocracia. Não há uma solução única.

Luke

E há um exemplo concreto de falha: o visto para startups foi criado, mas o SEF não o aplica corretamente. Isso é verificável.

Mark

Portanto, o problema não é só a política, é a implementação.

Mimi

Exatamente. E por isso é que o país precisa de uma nova vaga de medidas, não apenas de mais do mesmo.

  • Portugal caiu para a 28ª posição entre os 100 melhores ecossistemas empreendedores do mundo, num sinal claro de que o impulso da última década está a perder força.
  • Mais de 30% dos empreendedores não consideram Portugal um bom lugar para fixar os seus negócios, e 71% apontam a fiscalidade como um obstáculo urgente.
  • A burocracia e a regulação pesada travam o investimento: o visto para startups existe no papel, mas o SEF não o aplica corretamente, transformando uma promessa numa barreira.
  • A Startup Portugal e o Governo reconhecem a estagnação e propõem uma nova vaga de medidas, com foco em fintech, desmaterialização de processos e atração de talento imigrante.
  • Uma ferramenta de mapeamento do ecossistema está a ser desenvolvida para 2023, na tentativa de obter dados mais fiáveis sobre o que realmente existe no terreno.

Portugal construiu, ao longo de uma década, um ecossistema empreendedor com dimensão real — milhares de startups, unicórnios, dezenas de milhares de empregos. Mas os números escondem uma inquietação mais funda: o país está a perder posição no ranking global, e mais de um terço dos empreendedores não o vê como destino de eleição. Entre a fiscalidade pesada, a burocracia lenta e a implementação falha de políticas bem-intencionadas, Portugal enfrenta agora a prova mais difícil — a de transformar um ciclo de crescimento numa mudança estrutural duradoura.

Portugal tem números para mostrar: 3.880 startups e scalups, sete unicórnios, quase 70 mil empregos criados e uma avaliação conjunta de 34,7 mil milhões de euros. Em 2022, as empresas portuguesas captaram 421 milhões de euros em investimento. É o retrato de um ecossistema que acordou. Mas o estudo Building a Scalup Nation, apresentado pela Startup Portugal ao Conselho Estratégico a 14 de dezembro, traz uma mensagem incómoda: o país está a perder ritmo.

Portugal ocupa agora a 28ª posição entre os 100 melhores ecossistemas do mundo — um lugar que já foi melhor. Gabriel Coimbra, da IDC Portugal, reconheceu os avanços da última década, mas os dados revelam obstáculos sérios: 71% dos empreendedores exigem mudanças urgentes na fiscalidade, 50% citam burocracia e regulação excessivas, e mais de 30% não consideram Portugal um bom destino para os seus negócios.

António Dias Martins, da Startup Portugal, foi direto: o país está a recuar em áreas onde já esteve melhor posicionado. A primeira vaga de crescimento, entre 2016 e 2020, trouxe visibilidade, mas não pode ser o ponto de chegada. É preciso uma nova vaga de medidas — porque ficar parado, num mercado global competitivo, é o mesmo que recuar.

Manuel Caldeira Cabral sublinhou que não existe uma solução única: as startups dependem de ação simultânea em múltiplas frentes — capital, processos digitais, atração de talento. E há um problema que vai além das políticas: a implementação. O visto para startups existe, mas o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras não o aplica corretamente, transformando uma boa intenção num bloqueio real.

Portugal tem fundações sólidas, mas o edifício não está terminado. Sem reformas fiscais disruptivas e processos mais ágeis, o crescimento da última década arrisca ser apenas um ciclo — e não a transformação que o país precisa.

Portugal construiu algo notável nos últimos dez anos. Três mil e oitocentas startups e scalups, sete unicórnios, quase setenta mil postos de trabalho gerados, uma avaliação conjunta de trinta e quatro mil e setecentos milhões de euros. Em 2022, as empresas portuguesas levantaram quatrocentos e vinte e um milhões de euros em capital de investimento. Estes números falam de um ecossistema que acordou, que começou a acreditar em si mesmo. Mas o estudo apresentado pela Startup Portugal ao Conselho Estratégico na manhã de catorze de dezembro traz uma mensagem mais incómoda: o país está a perder ritmo.

Portugal ocupa agora a vigésima oitava posição entre os cem melhores ecossistemas empreendedores do mundo. Parece um lugar respeitável até se lembrar que o país estava melhor posicionado há pouco tempo. O relatório Building a Scalup Nation, desenvolvido em parceria com a IDC Portugal, reúne dados de múltiplas fontes e inquéritos diretos aos empreendedores que escolheram Portugal. O que emerge é um retrato de um país que cresceu rapidamente mas que agora enfrenta sinais de estagnação em áreas críticas.

Gabriel Coimbra, diretor geral da IDC Portugal, reconheceu o que foi alcançado: uma década de crescimento acelerado, dinâmica de novas startups, emergência de unicórnios, acumulação de talento e conhecimento. Mas os dados revelam obstáculos que não podem ser ignorados. Setenta e um por cento dos empreendedores identificam a fiscalidade como um elemento que exige mudanças urgentes. Cinquenta por cento falam de regulação específica para startups e de burocracia ainda demasiado pesada. Há programas de apoio, sim, mas os processos não são ágeis o suficiente para atrair investidores e empreendedores com a velocidade que o mercado global exige. Mais preocupante ainda: mais de trinta por cento dos empreendedores não consideram Portugal um bom destino para fixar os seus negócios.

Anténio Dias Martins, diretor executivo da Startup Portugal, foi direto no seu diagnóstico: alguns indicadores são preocupantes, e Portugal está a recuar em áreas onde já esteve melhor posicionado. A primeira vaga de crescimento, entre dois mil e dezasseis e dois mil e vinte, trouxe visibilidade e entusiasmo, mas não pode ser o ponto de chegada. É preciso lançar uma nova vaga de medidas. O mercado é competitivo, e outros países também se estão a posicionar nesta área. Ficar parado é recuar.

Manuel Caldeira Cabral, também interveniente no Conselho Estratégico, foi claro: não há uma solução única. As startups dependem de um ecossistema complexo que requer ação em múltiplas frentes simultaneamente — capital, desmaterialização de processos, capacidade de atrair imigrantes. Para algumas empresas, uma questão é chave; para outras, é a combinação de três ou mais. Mas há um problema que transcende as medidas em si: a implementação. O país criou um visto para startups, mas instituições como o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras não o aplicam adequadamente, transformando uma política bem-intencionada num ponto de bloqueio.

Há também questões sobre a qualidade dos próprios dados. Algumas das startups contabilizadas não são portuguesas, informação obtida através da plataforma Dealroom. Dias Martins reconhece que há trabalho a fazer para ter indicadores mais fiáveis. A Startup Portugal está a desenvolver uma ferramenta de mapeamento do ecossistema que deverá estar pronta em dois mil e vinte e três, trazendo mais clareza sobre o que realmente existe no terreno.

O que fica claro é isto: Portugal tem fundações sólidas, mas o edifício não está terminado. O país precisa de reposicionar-se como um hub competitivo para empreendedores e investimento, com atenção especial a áreas como fintech, onde as condições fiscais precisam de ser disruptivas o suficiente para competir globalmente. Sem isso, o crescimento dos últimos dez anos pode revelar-se apenas um ciclo, não uma transformação.

Não podemos estar à sombra de uma boa primeira vaga que tivemos entre 2016 e 2020. Temos de continuar a olhar para a frente e lançar uma nova vaga de medidas.
— António Dias Martins, diretor executivo da Startup Portugal
Não há uma silver bullet. Para o ecossistema são todas as medidas necessárias, em várias áreas, porque é isso que vai tornar Portugal mais competitivo.
— Manuel Caldeira Cabral, membro do Conselho Estratégico
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