Por que críticos de Bolsonaro abraçaram teoria conspiratória sobre Sputnik V

Mais de 400 mil mortos por Covid-19 no Brasil criaram contexto de desespero que alimentou adoção de teorias conspiratórias sobre vacinas.
Desconfianças justificáveis encontraram convicções ideológicas enraizadas
Como o desespero de uma pandemia alimentou a adoção de teorias conspiratórias entre críticos de Bolsonaro.
Mark

Por que pessoas que criticam Bolsonaro caíram na mesma armadilha conspiratória que criticam nele?

Mimi

Porque desespero é democrático. Quando você enterrou 400 mil pessoas, quando a morte está próxima e real, a mente busca explicações que façam sentido. Uma conspiração oferece isso — oferece culpados, oferece lógica, oferece a sensação de que alguém sabe o que está acontecendo.

Mark

Mas a rejeição da Anvisa à Sputnik não poderia ser real? Não poderia haver pressão política?

Mimi

Poderia. Mas a questão não é se pressão política existe — existe sempre. A questão é se a narrativa específica de fraude conspiratória se sustenta. E aqui não se sustenta. Por que um governo bolsonarista rejeitaria uma vacina russa? Por que Putin, que era aliado ideológico deles, seria inimigo nessa história?

Mark

Então você está dizendo que desconfiar é errado?

Mimi

Não. Desconfiar é saudável. Mas há diferença entre desconfiança justificada e narrativa conspiratória. Uma pede mais evidências, mais estudos, mais transparência. A outra já tem os culpados identificados, a trama toda montada, e qualquer evidência contrária vira parte da conspiração.

Mark

E qual é o perigo real disso?

Mimi

O perigo é que você reproduz a mesma lógica que critica. Você se torna aquilo que combate. E em situações de crise — como uma pandemia — isso mata. Porque enquanto você está discutindo quem conspirou, pessoas deixam de tomar decisões baseadas em evidência.

Mark

Então qual é a saída?

Mimi

Mais democracia, mais ciência, mais Estado de Direito. Não menos. Quando você não confia nas instituições, a resposta não é abraçar narrativas alternativas. É exigir que as instituições funcionem melhor, que sejam mais transparentes, que prestem contas.

  • A rejeição da Sputnik V pela Anvisa, num país exausto de mortes, acendeu uma desconfiança que rapidamente ultrapassou os limites da dúvida razoável.
  • Críticos de Bolsonaro adotaram a narrativa de fraude orquestrada com a mesma velocidade e certeza que sempre criticaram nos defensores da hidroxicloroquina.
  • A lógica interna da teoria não se sustenta: um governo que caricaturava a Rússia como inimigo comunista dificilmente conspiraria para barrar uma vacina russa por lealdade ideológica.
  • O perigo não está apenas no erro factual, mas na simetria: a máquina retórica é idêntica, apenas com vilões trocados, revelando que o conspiracionismo é uma tentação transideológica.
  • Especialistas alertam que situações técnicas complexas exigem mais ciência, mais evidências e mais democracia — não narrativas que desorientam e amplificam o pânico.

Em meio ao luto de mais de 400 mil mortos, o Brasil de 2021 revelou que o conspiracionismo não é privilégio de nenhum campo político: diante da rejeição da Sputnik V pela Anvisa, críticos ferrenhos do bolsonarismo reproduziram, quase sem perceber, a mesma estrutura narrativa que sempre condenaram nos adversários. O episódio convida à reflexão sobre como o desespero coletivo pode transformar dúvidas legítimas em certezas fabricadas, e sobre o preço que uma sociedade paga quando substitui o pensamento crítico pela reconfortante geometria da conspiração.

Joseph E. Uscinski define teorias conspiratórias como narrativas que atribuem eventos a um pequeno grupo poderoso agindo em segredo, contra o interesse coletivo, para benefício próprio. No Brasil de 2021, essa lógica já era familiar — mas naquela semana de abril, ela veio de um lugar inesperado.

Técnicos da Anvisa rejeitaram o pedido de uso emergencial da Sputnik V. Pesquisadores haviam publicado resultados promissores na revista Lancet, criando um contraste incômodo com o parecer regulatório. Alguns especialistas sugeriram que a diferença poderia estar nas condições de fabricação do lote enviado à agência. Tudo era dúvida, sombra, incerteza — terreno fértil para quem já havia enterrado mais de 400 mil pessoas.

Muita gente avessa ao bolsonarismo não hesitou: a Anvisa havia cometido uma fraude ideológica. Um grupo de poderosos teria coagido agentes da agência para fraudar um laudo técnico por interesses políticos. A narrativa encaixava perfeitamente na definição de Uscinski. O problema é que ela não resiste ao escrutínio básico: por que um governo que caricaturava a Rússia como inimigo comunista conspiraria para barrar justamente uma vacina russa? Os números não fecham.

Mais perturbador ainda é reconhecer que essa estrutura argumentativa é idêntica à usada pelos bolsonaristas para defender a hidroxicloroquina — grupos poderosos nas sombras, sequestro do direito à cura, supressão de tratamentos mais baratos. A mesma máquina retórica, apenas com atores e vilões trocados.

Algumas teorias conspiratórias descrevem conspirações reais — os bastidores da Lava Jato e o caso Lula são exemplos documentados. Mas o caso da Anvisa e da Sputnik parece ser diferente: há dúvidas legítimas sobre processos técnicos, não evidência de fraude orquestrada. E teorias conspiratórias, mesmo quando parcialmente corretas, funcionam sobretudo como desorientadores — geram pânico, confusão e desinformação.

O Brasil já colhe os frutos amargos do conspiracionismo de Estado. Talvez fosse hora de reservar as grandes teorias para o entretenimento — para as ilhas onde Elvis ainda vive — e exigir, diante de crises reais e complexas, aquilo que elas verdadeiramente demandam: pensamento.

Joseph E. Uscinski, um dos maiores estudiosos de teorias conspiratórias do mundo, oferece uma definição precisa: são narrativas que atribuem eventos e circunstâncias a um pequeno grupo de pessoas poderosas agindo em segredo para benefício próprio e contra o interesse coletivo — um grupo que busca inibir direitos, degradar instituições e cometer fraudes em larga escala. No Brasil de 2021, essa lógica não era novidade. O país já estava dividido entre aqueles que abraçaram um governo permeado por conspiracionismo e aqueles que aprenderam a conviver com ele.

Mas naquela semana de abril, não foi o conspiracionismo bolsonarista que ocupou o debate público. Foi a Sputnik V. Técnicos da Anvisa haviam rejeitado o pedido de uso emergencial da vacina russa, e essa decisão abriu uma fissura. Pesquisadores publicaram resultados promissores na revista Lancet, criando um contraste incômodo com o parecer da agência reguladora. Alguns especialistas sugeriram que a diferença poderia estar nas condições de fabricação — o imunizante enviado à Anvisa não correspondia exatamente às condições laboratoriais mais restritas analisadas pelos autores do estudo. Tudo era sombra, dúvida, incerteza.

Mas o Brasil havia enterrado mais de 400 mil mortos por Covid-19. Nesse contexto de desespero, desconfianças plenamente justificáveis encontraram convicções ideológicas há muito enraizadas. Muita gente alérgica ao bolsonarismo não hesitou: a Anvisa havia cometido uma fraude conspiratória. Um pequeno grupo de poderosos no governo teria coagido ou se aliado, sob segredo, a agentes da agência, fraudando um laudo técnico por divergência ideológica e interesses políticos. Direito à vida sequestrado. Instituição degradada. Fraude em larga escala.

O problema é que essa narrativa não se sustenta sob escrutínio básico. Por que uma agência aparelhada politicamente pelo bolsonarismo aprovaria uma vacina produzida por um país que a ideologia bolsonarista caricaturava como inimigo comunista? A Rússia nunca foi alvo do conspiracionismo bolsonarista. Ao contrário: o ex-presidente americano que servia de farol a Jair Bolsonaro era próximo de Putin. Os números não fecham. A lógica não funciona.

Mas há algo mais perturbador aqui. A estrutura argumentativa adotada pelos críticos de Bolsonaro é idêntica àquela que os próprios bolsonaristas usam para defender a hidroxicloroquina. Para eles, há uma grande conspiração em escala mundial: grupos de poderosos agindo nas sombras, sequestrado nosso direito à cura para lucrar mais com vacinas, suprimindo um tratamento menos oneroso, especialmente para os pobres. É a mesma máquina retórica. Apenas com atores e vilões trocados.

Algumas teorias conspiratórias descrevem, de fato, conspirações reais. Os bastidores da Lava Jato, o impeachment de Dilma Rousseff, a prisão de Lula — o que se especulava virou fato documentado. Mas esse não parece ser o caso com a Anvisa e a Sputnik. O que temos são dúvidas legítimas sobre processos técnicos, não evidência de fraude orquestrada.

Diante de situações delicadas, urgentes e complexas que exigem formação específica e capacitação técnica, teorias conspiratórias funcionam apenas como desorientadores. Geram pânico, confusão, ansiedade. Desinformam. E não importa se algumas delas terminam sendo parcial ou totalmente corretas — o dano já foi feito. O que essas situações realmente demandam é mais autoridades epistêmicas, mais estudos, mais evidências, mais razão, demonstração e ciência. Assim como diante de forças antidemocráticas, precisamos de mais democracia, mais Estado de Direito.

O Brasil já está bem servido de conspiracionismo com Bolsonaro. O resultado não tem sido bacana. Talvez fosse hora de deixar as teorias conspiratórias onde elas mais divertem e menos prejudicam — naquele lugar onde Elvis Presley está vivo em uma ilha paradisíaca ou onde objetos disforme no céu são evidência de vida alienígena. Situações complexas exigem mais que narrativas reconfortantes. Exigem pensamento.

Teorias conspiratórias são apenas elementos que desorientam, geram pânico, confusão e ansiedade e, principalmente, desinformam
— Análise do artigo
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