Em tempos de ruptura coletiva, a literatura encontrou nas fugas para o isolamento uma linguagem para o que muitos viveram em silêncio. Três romances contemporâneos — de Federico Falco, Rosa Montero e Marcela Dantés — narram personagens que abandonam suas vidas urbanas para se reinventarem em lugares ermos, ecoando as transformações radicais que a pandemia impôs a milhões de pessoas. O que esses livros sugerem, cada um à sua maneira, é que a crise não é apenas o que nos acontece, mas a história que escolhemos contar sobre ela — e que mudar essa narrativa pode ser, literalmente, mudar de vida.
Literatura da pandemia explora fuga para o isolamento como busca de identidade
Se você muda o relato da sua vida, muda literalmente a sua vida
Por que você acha que esses três livros tão diferentes chegaram ao mesmo tema ao mesmo tempo?
Não é coincidência. A pandemia forçou uma pausa que as pessoas não escolheram. De repente, muita gente estava sozinha consigo mesma, confrontada com perguntas que tinha evitado. A ficção está capturando o momento em que as pessoas percebem que podem sair, que podem recomeçar.
Mas por que especificamente o isolamento? Por que não a cidade, a multidão, a reconexão?
Porque a cidade é onde a gente se perde. É onde a gente segue rotinas, faz o que é esperado. O isolamento é assustador, mas é também onde você não tem escolha senão estar com você mesmo. É onde você se encontra ou descobre que não sabe quem é.
Os personagens sofrem quando saem. Há trauma nisso.
Há. Mas é um trauma necessário. Matilde deixa a mãe doente. Pablo abandona tudo de repente. Federico passa por um luto. Não é uma fuga romântica. É uma ruptura. E a literatura está dizendo que às vezes você precisa quebrar para reconstruir.
E depois? Eles voltam?
Não é sobre voltar. É sobre se tornar outra pessoa. Sobre contar sua vida de um jeito diferente para si mesmo. Rosa Montero diz que somos a história que contamos sobre nós mesmos. Se você muda o relato, você muda literalmente.
Então a pandemia foi um catalisador para algo que as pessoas já queriam fazer?
Exatamente. Falco diz que alguns estão aprendendo a retomar a cidade, mas para outros foi o empurrão que faltava para concretizar planos de sair de vez. A pandemia forçou a confrontação. Depois disso, muita gente percebeu que não queria voltar ao que era antes.
The Pulse
- Três romances publicados ao redor da pandemia convergem no mesmo impulso: personagens que abandonam tudo e partem para o isolamento em busca de si mesmos.
- A ficção chegou ao mundo transformado pela covid-19 com uma precisão involuntária — Falco terminou 'Planícies' antes da pandemia, mas o livro encontrou leitores que viviam exatamente aquela fuga.
- Rosa Montero e Marcela Dantés também revisitaram seus textos à luz da quarentena, reconhecendo que algo no ar forçou personagens e leitores a saírem do 'modo automático'.
- O isolamento geográfico funciona nesses romances não como derrota, mas como condição necessária para que algo novo nasça — o deslocamento é o trauma que abre espaço para a reinvenção.
- No centro de tudo está uma tese literária e filosófica: somos a narrativa que construímos sobre nós mesmos, e quem consegue reescrever essa história muda, de fato, quem é.
Em tempos de ruptura coletiva, a literatura encontrou nas fugas para o isolamento uma linguagem para o que muitos viveram em silêncio. Três romances contemporâneos — de Federico Falco, Rosa Montero e Marcela Dantés — narram personagens que abandonam suas vidas urbanas para se reinventarem em lugares ermos, ecoando as transformações radicais que a pandemia impôs a milhões de pessoas. O que esses livros sugerem, cada um à sua maneira, é que a crise não é apenas o que nos acontece, mas a história que escolhemos contar sobre ela — e que mudar essa narrativa pode ser, literalmente, mudar de vida.
Quando a vida desmorona, alguns personagens da ficção contemporânea fazem a mesma escolha: saem. Em 'Planícies', do argentino Federico Falco, o protagonista se muda para uma casa isolada nos pampas após o fim de um relacionamento longo. Em 'A Boa Sorte', da espanhola Rosa Montero, um arquiteto desce de um trem no meio do nada e abandona tudo. Em 'João Maria Matilde', de Marcela Dantés, uma mulher viaja para uma cidadezinha minúscula em busca de um pai desconhecido — e de si mesma. Três livros distintos, um mesmo impulso.
Essa convergência não é acidental. Ela captura algo que a pandemia tornou real para muita gente: a necessidade de confrontar-se consigo mesmo, de mudar de emprego, de endereço, de relacionamento. Falco havia terminado seu romance antes do coronavírus chegar à Argentina, mas quando o livro foi publicado, em 2020, o mundo tinha mudado. A fuga que ele descrevia fazia sentido de repente para milhões de leitores. Rosa Montero reconhece que o impulso de seu personagem guarda relação com a pandemia 'por alguma estranha razão'. Marcela Dantés reescreveu seu livro inteiro depois de passar pela maternidade e pela quarentena, impressionada com a quantidade de mudanças grandes que a crise provocou nas pessoas.
O que é notável é que as epifanias desses personagens acontecem em lugares ermos, longe das cidades. O isolamento não é punição — é condição. Falco explica que o deslocamento geográfico reacende memórias e rompe com o automático, mas que cada um encontrará sua própria paisagem de reconstrução.
Mais fundo ainda, os três autores confiam na literatura como ferramenta de transformação, não apenas de representação. Falco escreve que contar uma história muda quem a conta. Rosa Montero vai além: 'O que nos afeta não é o que nos acontece, mas o que contamos a nós mesmos sobre o que nos acontece. Se você muda o relato da sua vida, muda literalmente a sua vida.' Somos, no fundo, a história que narramos sobre nós mesmos. E quando essa história muda, nós mudamos.
Quando a vida desaba, alguns personagens recentes da literatura contemporânea fazem a mesma escolha radical: saem. Deixam a cidade, as pessoas que conhecem, o trabalho que faziam. Vão para o campo, para o vazio, para lugares onde possam estar sozinhos consigo mesmos.
Em "Planícies", o romance do argentino Federico Falco, o protagonista — que leva o mesmo nome do autor — se muda para uma casa isolada nos pampas depois que uma longa relação termina sem explicação. Ele planta, trabalha em silêncio, e nesse processo lento reconstrói quem é. Já em "A Boa Sorte", da espanhola Rosa Montero, o arquiteto Pablo está em um trem pela Espanha quando vê um endereço caindo aos pedaços. Ele desce. Simplesmente desce do trem e se instala no meio do nada, abandonando tudo. Os leitores descobrem depois o que o levou a essa decisão abrupta, mas o impulso é claro: escapar, recomeçar, formatar a memória e começar do zero. E em "João Maria Matilde", de Marcela Dantés, a protagonista deixa a mãe doente e o namorado quando descobre que um pai português desconhecido lhe deixou uma herança. Ela viaja para uma cidadezinha minúscula para entender quem era aquele homem e, por consequência, quem ela mesma é.
Esses três livros não são coincidência. Eles refletem uma sensibilidade particular dos anos de pandemia — aquele período em que as pessoas foram forçadas a se confrontarem consigo mesmas, quer quisessem ou não. Muita gente realmente mudou de emprego, de endereço, de relacionamento. A ficção está capturando algo que aconteceu de verdade. Falco conta que seu romance estava pronto antes do coronavírus chegar à Argentina. Foi publicado em 2020. Mas quando saiu para o mundo, o mundo tinha mudado. A vida que ele descrevia — aquela fuga, aquela reconstrução — de repente fazia sentido para milhões de pessoas que estavam vivendo exatamente isso. "Eu sentia que quase não ia ter leitores", comenta ele, quase envergonhado. "Mas o mundo em que o romance foi escrito e aquele no qual foi publicado são bastante diferentes."
Rosa Montero diz algo parecido. Ela sente que o impulso que leva seu personagem a sumir guarda relações com a pandemia "por alguma estranha razão". Quando Pablo desce do trem, ele sai de sua vida. O trem é uma metáfora básica da existência — ele fica vendo passar sem poder participar. Então decide descer, se reinventar, começar do zero. "Que é um pouco o que nos aconteceu a todos", ela diz. Marcela Dantés, que é finalista do prêmio Jabuti, criou a trama de "João Maria Matilde" em uma residência literária em Portugal cinco anos atrás. Mas sentiu a necessidade de reescrever tudo depois de passar pela maternidade e pela quarentena. "Fiquei impressionada com o tanto de mudanças grandes que aconteceram na vida das pessoas. Algo que vem de um lugar desconhecido, mas forçou todos a saírem do modo automático."
O que é notável é que todos esses personagens alcançam suas epifanias em lugares ermos, habitados por quase ninguém. Não é na cidade que eles se encontram. É no isolamento. Falco explica que isso depende da biografia de cada um. Nos pampas, ele reacendeu memórias de infância. "Mas há outras infâncias. Gente que se criou em cidades, no litoral, na selva amazônica. Cada um encontrará sua paisagem." O que importa é o deslocamento, o corte das raízes, o trauma necessário para que algo novo nasça.
Mas há algo mais profundo aqui. Os autores confiam no poder da literatura não apenas como espelho da realidade, mas como ferramenta de transformação. Falco escreve que contar uma história transforma quem a conta. "E às vezes a ficção é a única maneira de pensar o verdadeiro." Rosa Montero é ainda mais fervorosa sobre isso. "Somos acima de tudo palavras em busca de sentido. O que nos afeta não é o que nos acontece, mas o que contamos a nós mesmos sobre o que nos acontece. Se você muda o relato da sua vida, muda literalmente a sua vida." No título do livro dela, a boa sorte é conseguir olhar o mundo de outro modo, mas sobretudo conseguir contar sua vida a si mesmo de outro modo. Porque os seres humanos são narração. Somos a história que contamos sobre nós mesmos. E quando essa história muda, nós mudamos.
Notable Quotes
A pandemia foi um grande momento para se sintonizar com seus verdadeiros desejos. Alguns estão agora aprendendo a retomar a cidade, mas para outros foi o empurrão que faltava para concretizar planos de sair de vez.— Federico Falco
Somos acima de tudo palavras em busca de sentido. O que nos afeta não é o que nos acontece, mas o que contamos a nós mesmos sobre o que nos acontece.— Rosa Montero