Estudos desde os anos 1980 mostram que astrólogos não conseguem prever personalidade melhor que o acaso, incluindo pesquisa com 66 mil casais sobre compatibilidade astrológica. As constelações são projeções visuais arbitrárias da Terra, e o sol não passa o mesmo tempo em cada signo, tornando a divisão do zodíaco cientificamente problemática.
Por que milhões acreditam em astrologia se a ciência prova que não funciona
As pessoas não lidam bem com incertezas, e a astrologia oferece conforto
Se a ciência prova que astrologia não funciona há décadas, por que 41% dos brasileiros ainda acreditam?
Porque a astrologia oferece algo que a ciência não oferece facilmente: conforto diante da incerteza. Nossas vidas são cheias de decisões sem respostas claras, e a astrologia promete orientação.
Mas as pesquisas mostram que astrólogos não conseguem prever nem melhor que o acaso. Como isso não desmente a crença?
Entra em jogo o Efeito Barnum. Descrições vagas — "você é crítico consigo mesmo, mas quer ser amado" — parecem precisas porque se aplicam a quase todo mundo. Cada pessoa vê a si mesma no texto.
Então as pessoas se enganam a si mesmas?
Não é bem engano. É mais que as pessoas tendem a notar o que confirma suas crenças e ignorar o que contradiz. Se um horóscopo diz que você terá um bom dia e você tem, você se lembra. Se não tem, esquece.
Há algo mais profundo acontecendo?
Sim. Quando você acredita em astrologia, pode inconscientemente se comportar de acordo com ela. Se o horóscopo diz que você é corajoso, você pode agir com mais coragem. Você cria a profecia.
Então a astrologia funciona porque as pessoas fazem funcionar?
Exatamente. Não porque os astros influenciam, mas porque a crença influencia o comportamento. É uma profecia autorrealizável, não uma verdade astronômica.
The Pulse
- 41,1% dos brasileiros acreditam que signos influenciam a personalidade, equivalente a 87,7 milhões de pessoas
- Pesquisa de 1985 com 28 astrólogos respeitados mostrou acertos em apenas um terço dos casos, igual ao acaso
- Estudo com 66 mil casais entre 1968 e 2001 não encontrou diferenças significativas no risco de divórcio por compatibilidade astrológica
- O sol não passa o mesmo tempo em cada signo: menos de 25 dias em Áries, mais de 30 em Touro
Estudos desde os anos 1980 mostram que astrólogos não conseguem prever personalidade melhor que o acaso, incluindo pesquisa com 66 mil casais sobre compatibilidade astrológica. As constelações são projeções visuais arbitrárias da Terra, e o sol não passa o mesmo tempo em cada signo, tornando a divisão do zodíaco cientificamente problemática.
Pesquisas científicas comprovam que a astrologia não funciona, mas 41% dos brasileiros acreditam que signos influenciam a personalidade. O Efeito Barnum explica por que descrições vagas parecem precisas.
Quarenta e um por cento dos brasileiros acreditam que os signos do zodíaco influenciam a personalidade. É o que revelou uma pesquisa realizada em 2023 pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos com quase dois mil pessoas acima de 16 anos espalhadas por todas as regiões do país. Desses, 24,9% concordam totalmente com a ideia, enquanto outros 16,2% concordam em parte. Isso equivale a aproximadamente 87,7 milhões de brasileiros. No resto do Ocidente, a proporção é semelhante: cerca de uma em cada quatro pessoas acredita plenamente que a posição dos corpos celestes no momento do nascimento molda traços comportamentais e até mesmo o futuro.
A astrologia é uma prática milenar. Os primeiros registros conhecidos vêm da antiga Mesopotâmia, e civilizações como a babilônica e a grega desenvolveram a técnica com dedicação. A própria palavra astrologia tem origem grega e remete às mensagens que as estrelas supostamente comunicam. A crença fazia sentido intuitivo: afinal, a posição do sol em relação à Terra influencia diretamente o planeta, incluindo as estações, e a Lua afeta as marés. Por que outros astros não deixariam suas marcas na personalidade humana?
Mas a astrologia não funciona. A partir do século 17, com o desenvolvimento da astronomia, a ciência começou a comprovar de forma consistente que a posição dos astros não interfere na personalidade. Além disso, mesmo que interferisse, a divisão do ano em signos apresenta problemas fundamentais. As constelações são imagens projetadas do ponto de vista da Terra — é como procurar formas em nuvens. Muitas vezes, estrelas que parecem formar um desenho coerente estão a milhares de quilômetros umas das outras. Na antiga Babilônia, foram identificadas 13 constelações pelas quais o sol passa ao longo de um ano. Para facilitar a distribuição em 12 meses, uma delas, Ofiúro ou Serpentário, foi simplesmente desconsiderada.
Há outro problema igualmente grave: ao longo de um ano, o sol não se apresenta pela mesma quantidade de dias diante de cada agrupamento de estrelas, ainda que a astrologia tenha estabelecido um período padrão para cada signo. O sol fica menos de 25 dias em Áries e mais de 30 em Touro, por exemplo. Além disso, ao longo dos mais de cinco mil anos desde que as constelações foram identificadas pela primeira vez, sua posição em relação à Terra mudou. Enquanto a astrologia aponta como leonino alguém que nasce em 5 de agosto, astronomicamente o sol já está em câncer nesse dia.
Desde meados do século 20, pesquisas acadêmicas testaram o efeito do horóscopo sobre a vida das pessoas e não encontraram evidências que validassem a tese. Nos anos 1980, o físico americano Shawn Carlson convidou 28 dos astrólogos mais respeitados dos Estados Unidos e da Europa para analisar 116 pessoas cujos perfis psicológicos estavam documentados. Eles receberam três descrições para cada pessoa e precisavam escolher a correta. Acertaram em aproximadamente um terço dos casos — exatamente a mesma fração que qualquer pessoa alcançaria se escolhesse aleatoriamente. Dez anos depois, o escritor holandês Rob Nanninga reuniu 50 astrólogos e pediu que elaborassem um questionário capaz de apontar a profissão de voluntários entre sete alternativas. Mesmo com informações sobre datas de nascimento, casamento, divórcio e nascimento de filhos, nenhum participante conseguiu acertar a profissão de mais de três pessoas. Metade não acertou um perfil sequer.
Em 2020, pesquisadores suecos analisaram a trajetória de 66 mil casais entre 1968 e 2001 para verificar se a astrologia acertava ao definir que certos signos combinam melhor em relacionamentos de longo prazo. Não encontraram indícios de que indivíduos com combinações astrológicas favoráveis fossem mais propensos a se casar, nem diferenças significativas no risco de divórcio dependendo da compatibilidade astrológica dos casais.
Mas por que a astrologia segue tão popular apesar da falta de comprovação científica? O Efeito Barnum, também conhecido como Efeito Forer, ajuda a explicar o fenômeno. Refere-se à tendência que as pessoas têm de aceitar descrições vagas e genéricas de personalidade como sendo precisas e significativas — mesmo que pudessem se aplicar a quase qualquer pessoa. Em 1949, o psicólogo Bertrand Forer aplicou um teste de personalidade a estudantes. Todos receberam uma lista de características pessoais e foram convidados a avaliar se o texto descrevia seus próprios traços em uma nota de 0 a 5. A média foi de 4,26. Acontece que todos haviam recebido o mesmo conteúdo: uma compilação de frases genéricas de uma coluna de astrologia que afirmava coisas como "você tem necessidade de ser amado e admirado pelos outros; contudo, demonstra tendência crítica a si mesmo".
As pessoas não lidam bem com incertezas. Estamos sujeitos a muitas delas no cotidiano — não sabemos se um namoro vai dar em casamento feliz, se vale a pena trocar de emprego, se devemos investir na Bolsa ou abrir uma empresa própria. Quando as pessoas acreditam em astrologia, acreditam que as afirmações oriundas dela podem fornecer tendências, dicas e sugestões que ajudem a lidar com a ansiedade por não saber qual rumo seguir. É uma crença reconfortante. Há ainda um fenômeno curioso: as pessoas que acreditam em astrologia podem acabar se comportando de acordo com ela, confirmando as previsões que haviam lido ou ouvido dias antes. Alguns chegam a tomar decisões importantes na vida — como trocar de emprego — baseando-se em supostos apontamentos astrológicos. Empresas já foram noticiadas usando mapas astrais para decidir se contratam determinado sujeito. A astrologia, portanto, deve ser lembrada como aquilo que é: um fruto da cultura e da história da humanidade que foi superado pelos avanços da ciência, da física e da astronomia.
Notable Quotes
Trabalhamos com alguns dos astrólogos mais respeitados dos Estados Unidos e da Europa, recomendados por seus pares, e eles falharam. Não conseguiram alcançar uma performance melhor do que a simples sorte.— Shawn Carlson, físico americano
É uma pseudociência que se parece com ciência genuína.— Marcelo Girardi Schappo, doutor em física pela UFSC