Por que milhões acreditam em astrologia se a ciência prova que não funciona

As pessoas não lidam bem com incertezas, e a astrologia oferece conforto
Explicação de por que milhões continuam acreditando em signos apesar da falta de comprovação científica.
Mark

Se a ciência prova que astrologia não funciona há décadas, por que 41% dos brasileiros ainda acreditam?

Mimi

Porque a astrologia oferece algo que a ciência não oferece facilmente: conforto diante da incerteza. Nossas vidas são cheias de decisões sem respostas claras, e a astrologia promete orientação.

Mark

Mas as pesquisas mostram que astrólogos não conseguem prever nem melhor que o acaso. Como isso não desmente a crença?

Mimi

Entra em jogo o Efeito Barnum. Descrições vagas — "você é crítico consigo mesmo, mas quer ser amado" — parecem precisas porque se aplicam a quase todo mundo. Cada pessoa vê a si mesma no texto.

Mark

Então as pessoas se enganam a si mesmas?

Mimi

Não é bem engano. É mais que as pessoas tendem a notar o que confirma suas crenças e ignorar o que contradiz. Se um horóscopo diz que você terá um bom dia e você tem, você se lembra. Se não tem, esquece.

Mark

Há algo mais profundo acontecendo?

Mimi

Sim. Quando você acredita em astrologia, pode inconscientemente se comportar de acordo com ela. Se o horóscopo diz que você é corajoso, você pode agir com mais coragem. Você cria a profecia.

Mark

Então a astrologia funciona porque as pessoas fazem funcionar?

Mimi

Exatamente. Não porque os astros influenciam, mas porque a crença influencia o comportamento. É uma profecia autorrealizável, não uma verdade astronômica.

  • 41,1% dos brasileiros acreditam que signos influenciam a personalidade, equivalente a 87,7 milhões de pessoas
  • Pesquisa de 1985 com 28 astrólogos respeitados mostrou acertos em apenas um terço dos casos, igual ao acaso
  • Estudo com 66 mil casais entre 1968 e 2001 não encontrou diferenças significativas no risco de divórcio por compatibilidade astrológica
  • O sol não passa o mesmo tempo em cada signo: menos de 25 dias em Áries, mais de 30 em Touro

Estudos desde os anos 1980 mostram que astrólogos não conseguem prever personalidade melhor que o acaso, incluindo pesquisa com 66 mil casais sobre compatibilidade astrológica. As constelações são projeções visuais arbitrárias da Terra, e o sol não passa o mesmo tempo em cada signo, tornando a divisão do zodíaco cientificamente problemática.

Pesquisas científicas comprovam que a astrologia não funciona, mas 41% dos brasileiros acreditam que signos influenciam a personalidade. O Efeito Barnum explica por que descrições vagas parecem precisas.

Quarenta e um por cento dos brasileiros acreditam que os signos do zodíaco influenciam a personalidade. É o que revelou uma pesquisa realizada em 2023 pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos com quase dois mil pessoas acima de 16 anos espalhadas por todas as regiões do país. Desses, 24,9% concordam totalmente com a ideia, enquanto outros 16,2% concordam em parte. Isso equivale a aproximadamente 87,7 milhões de brasileiros. No resto do Ocidente, a proporção é semelhante: cerca de uma em cada quatro pessoas acredita plenamente que a posição dos corpos celestes no momento do nascimento molda traços comportamentais e até mesmo o futuro.

A astrologia é uma prática milenar. Os primeiros registros conhecidos vêm da antiga Mesopotâmia, e civilizações como a babilônica e a grega desenvolveram a técnica com dedicação. A própria palavra astrologia tem origem grega e remete às mensagens que as estrelas supostamente comunicam. A crença fazia sentido intuitivo: afinal, a posição do sol em relação à Terra influencia diretamente o planeta, incluindo as estações, e a Lua afeta as marés. Por que outros astros não deixariam suas marcas na personalidade humana?

Mas a astrologia não funciona. A partir do século 17, com o desenvolvimento da astronomia, a ciência começou a comprovar de forma consistente que a posição dos astros não interfere na personalidade. Além disso, mesmo que interferisse, a divisão do ano em signos apresenta problemas fundamentais. As constelações são imagens projetadas do ponto de vista da Terra — é como procurar formas em nuvens. Muitas vezes, estrelas que parecem formar um desenho coerente estão a milhares de quilômetros umas das outras. Na antiga Babilônia, foram identificadas 13 constelações pelas quais o sol passa ao longo de um ano. Para facilitar a distribuição em 12 meses, uma delas, Ofiúro ou Serpentário, foi simplesmente desconsiderada.

Há outro problema igualmente grave: ao longo de um ano, o sol não se apresenta pela mesma quantidade de dias diante de cada agrupamento de estrelas, ainda que a astrologia tenha estabelecido um período padrão para cada signo. O sol fica menos de 25 dias em Áries e mais de 30 em Touro, por exemplo. Além disso, ao longo dos mais de cinco mil anos desde que as constelações foram identificadas pela primeira vez, sua posição em relação à Terra mudou. Enquanto a astrologia aponta como leonino alguém que nasce em 5 de agosto, astronomicamente o sol já está em câncer nesse dia.

Desde meados do século 20, pesquisas acadêmicas testaram o efeito do horóscopo sobre a vida das pessoas e não encontraram evidências que validassem a tese. Nos anos 1980, o físico americano Shawn Carlson convidou 28 dos astrólogos mais respeitados dos Estados Unidos e da Europa para analisar 116 pessoas cujos perfis psicológicos estavam documentados. Eles receberam três descrições para cada pessoa e precisavam escolher a correta. Acertaram em aproximadamente um terço dos casos — exatamente a mesma fração que qualquer pessoa alcançaria se escolhesse aleatoriamente. Dez anos depois, o escritor holandês Rob Nanninga reuniu 50 astrólogos e pediu que elaborassem um questionário capaz de apontar a profissão de voluntários entre sete alternativas. Mesmo com informações sobre datas de nascimento, casamento, divórcio e nascimento de filhos, nenhum participante conseguiu acertar a profissão de mais de três pessoas. Metade não acertou um perfil sequer.

Em 2020, pesquisadores suecos analisaram a trajetória de 66 mil casais entre 1968 e 2001 para verificar se a astrologia acertava ao definir que certos signos combinam melhor em relacionamentos de longo prazo. Não encontraram indícios de que indivíduos com combinações astrológicas favoráveis fossem mais propensos a se casar, nem diferenças significativas no risco de divórcio dependendo da compatibilidade astrológica dos casais.

Mas por que a astrologia segue tão popular apesar da falta de comprovação científica? O Efeito Barnum, também conhecido como Efeito Forer, ajuda a explicar o fenômeno. Refere-se à tendência que as pessoas têm de aceitar descrições vagas e genéricas de personalidade como sendo precisas e significativas — mesmo que pudessem se aplicar a quase qualquer pessoa. Em 1949, o psicólogo Bertrand Forer aplicou um teste de personalidade a estudantes. Todos receberam uma lista de características pessoais e foram convidados a avaliar se o texto descrevia seus próprios traços em uma nota de 0 a 5. A média foi de 4,26. Acontece que todos haviam recebido o mesmo conteúdo: uma compilação de frases genéricas de uma coluna de astrologia que afirmava coisas como "você tem necessidade de ser amado e admirado pelos outros; contudo, demonstra tendência crítica a si mesmo".

As pessoas não lidam bem com incertezas. Estamos sujeitos a muitas delas no cotidiano — não sabemos se um namoro vai dar em casamento feliz, se vale a pena trocar de emprego, se devemos investir na Bolsa ou abrir uma empresa própria. Quando as pessoas acreditam em astrologia, acreditam que as afirmações oriundas dela podem fornecer tendências, dicas e sugestões que ajudem a lidar com a ansiedade por não saber qual rumo seguir. É uma crença reconfortante. Há ainda um fenômeno curioso: as pessoas que acreditam em astrologia podem acabar se comportando de acordo com ela, confirmando as previsões que haviam lido ou ouvido dias antes. Alguns chegam a tomar decisões importantes na vida — como trocar de emprego — baseando-se em supostos apontamentos astrológicos. Empresas já foram noticiadas usando mapas astrais para decidir se contratam determinado sujeito. A astrologia, portanto, deve ser lembrada como aquilo que é: um fruto da cultura e da história da humanidade que foi superado pelos avanços da ciência, da física e da astronomia.

Trabalhamos com alguns dos astrólogos mais respeitados dos Estados Unidos e da Europa, recomendados por seus pares, e eles falharam. Não conseguiram alcançar uma performance melhor do que a simples sorte.
— Shawn Carlson, físico americano
É uma pseudociência que se parece com ciência genuína.
— Marcelo Girardi Schappo, doutor em física pela UFSC
Contact Us FAQ