No Rio de Janeiro, a tecnologia que um dia pareceu pertencer ao futuro tornou-se instrumento do presente mais violento: facções criminosas incorporaram drones às suas disputas territoriais, usando-os para vigiar, atacar e se defender. A Polícia Civil investiga 18 ataques documentados, enquanto as denúncias cresceram 234% em um ano — um ritmo que o Estado, preso em licitações canceladas e burocracia lenta, ainda não consegue acompanhar. O céu do Rio passou a ser mais um campo de batalha numa guerra que não para de se reinventar.
Polícia investiga 18 ataques com drones de facções criminosas no Rio
O crime organizado não espera enquanto a burocracia se move
Por que as facções criminosas investiram em drones agora, especificamente? O que mudou?
O custo caiu drasticamente e a tecnologia ficou acessível. Um drone não custa mais que um fuzil, mas oferece vantagens que nenhuma arma convencional oferece: você vê o inimigo sem ser visto, pode atacar de longe, pode monitorar 24 horas. Para uma facção, é uma mudança de jogo.
E esses sistemas antidrones que os criminosos estão usando — de onde vêm?
Do mesmo lugar que os drones. São equipamentos comerciais, alguns desenvolvidos para defesa militar, outros para segurança privada. Criminosos têm dinheiro e acesso a fornecedores. Quando o Estado demora um ano para cancelar uma licitação, o crime organizado já está três passos à frente.
O crescimento de 234% em denúncias em um ano é assustador. Mas reflete mais drones reais ou mais pessoas denunciando?
Provavelmente ambos. Mas o ponto é que o fenômeno é novo o suficiente para que as pessoas ainda estejam aprendendo a reconhecê-lo e denunciá-lo. Isso significa que a realidade no terreno pode ser ainda pior do que os números mostram.
Se o governo federal vai enviar drones e antidrones, por que não resolvem isso em meses?
Porque não é só equipamento. É treinamento, integração entre agências, mudanças regulatórias. E enquanto isso acontece, as facções continuam operando. O Estado está sempre reagindo, nunca antecipando.
Qual é o cenário mais preocupante aqui?
Que isso normalize. Que em cinco anos, drones carregando explosivos seja tão comum quanto tiros de fuzil é hoje. E que o Estado tenha desistido de tentar controlar porque a tecnologia evoluiu mais rápido que a capacidade de regulação.
Il Polso
- Facções criminosas no Rio transformaram drones em armas táticas completas — vigilância, rastreamento de rivais e lançamento de explosivos em disputas territoriais.
- As denúncias ao Disque Denúncia explodiram de 86 para 287 casos em apenas um ano, revelando uma escalada que já não pode ser tratada como fenômeno isolado.
- O crime organizado não se limita ao ataque: investe em detectores e bloqueadores de drones para proteger seus territórios, criando uma corrida armamentista aérea.
- O governo do Rio tentou comprar 80 equipamentos antidrones com R$ 27 milhões, mas a licitação foi cancelada por mudanças regulatórias — enquanto o crime avança sem esperar pela burocracia.
- Especialistas alertam que a resposta exige rastrear cadeias de suprimento de explosivos e monitorar compras suspeitas de drones em massa, além de acelerar o uso de tecnologias de interferência já disponíveis.
No Rio de Janeiro, a tecnologia que um dia pareceu pertencer ao futuro tornou-se instrumento do presente mais violento: facções criminosas incorporaram drones às suas disputas territoriais, usando-os para vigiar, atacar e se defender. A Polícia Civil investiga 18 ataques documentados, enquanto as denúncias cresceram 234% em um ano — um ritmo que o Estado, preso em licitações canceladas e burocracia lenta, ainda não consegue acompanhar. O céu do Rio passou a ser mais um campo de batalha numa guerra que não para de se reinventar.
A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga 18 ataques executados com drones por facções criminosas — um número que traduz uma transformação profunda nas disputas pelo controle territorial da cidade. O que começou como ferramenta de vigilância evoluiu para um arsenal completo: os equipamentos monitoram áreas, rastreiam rivais, definem o momento certo para invasões e, com frequência crescente, carregam explosivos.
A dimensão do fenômeno vai além dos ataques. Imagens documentadas pela polícia mostram aulas de operação de drones ministradas por traficantes em comunidades controladas pelo Comando Vermelho — treinamento estruturado, não improviso. Os grupos também investem em defesa aérea: detectores de presença, bloqueadores de sinal e dispositivos que localizam pilotos foram apreendidos em operações recentes. A Polícia Militar encontrou um detector de drones apenas neste mês.
Os números confirmam a velocidade da escalada. O Disque Denúncia registrou 86 denúncias em 2025; em 2026, esse total saltou para 287 — crescimento de 234% em um ano. Cada registro representa uma comunidade sob pressão, uma disputa agora travada também no ar.
O Estado enfrenta dificuldades para responder. Um investimento de R$ 27 milhões para compra de 80 equipamentos antidrones foi anunciado há um ano, mas a licitação foi cancelada após mudanças nas regras da Anatel. Roberto Uchôa, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que a resposta precisa incluir o rastreamento da cadeia de suprimentos de explosivos e o monitoramento de compras suspeitas de drones em grande quantidade — sinais que deveriam acionar investigações. Tecnologias de interferência já existem e poderiam ser acionadas mais rapidamente.
A Secretaria de Segurança Pública afirma que o combate exige integração entre órgãos e que o governo federal destinará equipamentos às forças estaduais. Desde 2019, quase 50 mil drones e mais de mil bloqueadores foram retirados de circulação — números expressivos que, ainda assim, não acompanham o ritmo com que novos aparelhos chegam às mãos do crime. A disputa territorial do Rio ganhou uma dimensão que poucos anteciparam: ela agora acontece no céu.
A Polícia Civil do Rio de Janeiro está investigando 18 ataques executados com drones por facções criminosas, revelando um cenário onde a tecnologia se tornou tão central quanto as armas convencionais nas disputas pelo controle territorial. O que começou como ferramenta de vigilância evoluiu para um arsenal sofisticado: os equipamentos monitoram áreas, rastreiam movimentos de rivais, definem o timing de invasões e, em casos cada vez mais frequentes, carregam explosivos destinados a membros de facções adversárias.
A polícia documentou cenas que ilustram a profundidade dessa transformação. Imagens mostram dezenas de pessoas em aulas sobre operação de drones, ministradas por traficantes em comunidades controladas pelo Comando Vermelho. Não se trata de improviso: é treinamento estruturado, investimento em capital humano. Os criminosos compreenderam que dominar essa tecnologia é tão importante quanto dominar um território.
Mas a história não termina na ofensiva. Os grupos criminosos também passaram a investir pesadamente em defesa aérea. Equipamentos capazes de detectar drones sobrevoando uma região foram apreendidos em operações recentes. Outros sistemas conseguem não apenas identificar a presença de um aparelho, mas também interromper seu sinal de controle. Há ainda dispositivos que localizam o piloto. A Polícia Militar encontrou um detector de drones apenas neste mês, sinalizando que essa corrida armamentista está acelerando.
Os números refletem a velocidade dessa escalada. O Disque Denúncia registrou 86 denúncias envolvendo drones criminosos em 2025. Em 2026, esse número saltou para 287 — um crescimento de 234% em um ano. Cada denúncia representa um incidente, uma comunidade sob pressão, uma disputa territorial agora travada no ar.
Enquanto isso, o Estado enfrenta obstáculos para responder. Há um ano, o governo do Rio anunciou um investimento de R$ 27 milhões na compra de 80 equipamentos antidrones para as polícias. A licitação foi cancelada no início do processo após mudanças nas regras da Agência Nacional de Telecomunicações. Enquanto a burocracia se move lentamente, o crime organizado não espera.
Roberto Uchôa, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que o desafio vai além da tecnologia. É preciso rastrear a cadeia de suprimentos: como os criminosos obtêm explosivos e granadas. É necessário monitorar compras em grande quantidade de drones para identificar padrões suspeitos. Uma pessoa física comprando dezenas de equipamentos para uma localidade específica é um sinal que deveria acionar investigações. Uchôa também destaca que tecnologias de interferência já existem e poderiam ser deployadas mais rapidamente.
A Secretaria de Segurança Pública do Rio afirma que o combate exige integração entre órgãos e que o governo federal destinará drones e equipamentos antidrones para as forças estaduais. Desde 2019, segundo a secretaria, quase 50 mil drones e mais de mil bloqueadores foram retirados do mercado. Mas esses números, por impressionantes que pareçam, não conseguem acompanhar a velocidade com que novos equipamentos entram nas mãos do crime. A disputa territorial do Rio agora tem uma dimensão que ninguém esperava há poucos anos: ela acontece no céu.
Citazioni salienti
É preciso endurecer a fiscalização e criar uma forma de registro para aquisição desses aparelhos, como ocorre com outros produtos— Especialista em segurança pública
O avanço dessa tecnologia evidencia o desafio do poder público para retomar o controle de territórios dominados pelo crime organizado— Roberto Uchôa, Fórum Brasileiro de Segurança Pública