DF terá bancada 100% feminina no Senado a partir de 2027, mas 'feminina, não feminista'

feminina, não feminista — uma política para mulheres sem direitos
Michelle Bolsonaro defendeu publicamente uma abordagem que rejeita o feminismo enquanto promove uma visão conservadora do papel das mulheres.
Mark

Como é possível que uma bancada inteiramente feminina seja ao mesmo tempo uma conquista para a representação das mulheres e uma preocupação para quem defende direitos das mulheres?

Mimi

Porque representação numérica e representação política de interesses são coisas diferentes. Ter mulheres no Senado é importante, mas o que essas mulheres votam e defendem também importa. Bia Kicis votou contra igualdade salarial. Michelle fala em "submissão saudável". Isso não é a mesma coisa que ter mulheres que lutam por políticas públicas para mulheres.

Luke

Mas precisamos ser cuidadosos aqui. O texto diz que Bia votou contra um projeto específico em 2023, e ela respondeu que defende direitos das mulheres sem precisar aderir a uma "corrente ideológica". Isso é uma posição legítima, mesmo que discordemos dela. Não podemos dizer que ela não defende mulheres só porque discorda de como fazê-lo.

Mimi

Verdade. Mas há uma diferença entre discordar sobre método e se opor ativamente a políticas que beneficiam mulheres. E há também a questão do que ela diz em discursos — "feminina, não feminista" é uma posição política clara.

Mark

E quanto ao contexto eleitoral? Por que essas três mulheres venceram?

Mimi

Segundo os cientistas políticos citados, não foi principalmente porque o eleitorado do DF quer mais mulheres na política. Foi porque essas mulheres estão associadas à direita, ao antipetismo, à crítica ao STF. Elas ganham porque representam uma visão conservadora que é eleitoralmente forte agora.

Luke

Mas o texto também mostra que outras candidatas mulheres receberam votos significativos — Leila do Vôlei com 21% e Erika Kokay com 18%. Então havia espaço para mulheres de outras orientações políticas. As três que venceram venceram porque suas campanhas foram mais fortes, não apenas porque eram mulheres.

Mark

Então qual é a história real aqui?

Mimi

A história é que o Distrito Federal vai ter uma representação feminina no Senado, mas essa representação não vai necessariamente avançar a pauta de direitos das mulheres. Pode até recuar em algumas coisas.

Luke

E também é importante notar que Michelle e Bia não responderam a perguntas sobre isso. Damares também não aparece muito no texto. Então temos uma história contada principalmente através de críticas e análises, não através das vozes das próprias eleitas explicando suas posições.

  • O Distrito Federal elegeu Michelle Bolsonaro e Bia Kicis para o Senado, criando pela primeira vez na história do Brasil uma bancada senatorial estadual 100% feminina.
  • O paradoxo é imediato: as três senadoras que ocuparão essas cadeiras são conhecidas por criticar o feminismo e, em casos concretos, por votar contra legislações de proteção às mulheres, como a lei de igualdade salarial.
  • Cientistas políticos alertam que o resultado traduz sobretudo a força eleitoral da direita e do antipetismo, e não necessariamente um avanço na agenda de direitos das mulheres.
  • A pesquisadora Flavia Biroli distingue 'participação feminina' de 'defesa de direitos das mulheres', lembrando que mulheres eleitas podem ter visões de mundo opostas entre si e às demandas históricas do movimento feminista.
  • O símbolo permanece aberto: a bancada inédita pode ser lida como vitória de representatividade ou como evidência de que números, sozinhos, não garantem avanço nas políticas públicas para as mulheres.

A partir de 2027, o Distrito Federal tornará o Brasil pioneiro ao eleger uma bancada senatorial inteiramente feminina — feito inédito na história legislativa do país. Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, ambas do PL, juntam-se à já senadora Damares Alves para compor essa tríade histórica. Mas a conquista numérica carrega uma tensão filosófica profunda: as três eleitas construíram suas trajetórias em oposição ao feminismo e a políticas de proteção às mulheres, convidando a sociedade a refletir sobre o que, de fato, significa representar.

A partir de fevereiro de 2027, o Distrito Federal passará a ser representado no Senado exclusivamente por mulheres. Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, eleitas no último fim de semana pelo PL, tomarão posse ao lado de Damares Alves, do Republicanos, cujo mandato vai até 2031. É um momento sem precedente na história legislativa brasileira — mas seu significado está longe de ser consensual.

A campanha foi moldada por uma aliança deliberada. Celina Leão, vice-governadora que assumiu o Executivo do DF em março, apoiou abertamente as duas candidatas e declarou querer ver duas mulheres no Senado. Outras candidatas competiram com força: Leila do Vôlei, do PDT, ficou em terceiro com 21,25% dos votos, e Erika Kokay, do PT, obteve 18,91% em quarto lugar. A vitória das duas representantes da direita foi clara, mas não se explica apenas por um voto de representatividade feminina.

O paradoxo central está no perfil das eleitas. As três senadoras que formarão a bancada histórica são conhecidas por criticar o feminismo e, em alguns casos, por votar contra projetos voltados às mulheres. Em 2023, Bia Kicis foi uma das dez deputadas que votaram contra a lei de igualdade salarial entre homens e mulheres. Michelle Bolsonaro, por sua vez, defendeu publicamente uma política 'feminina, não feminista' e se descreveu como 'ajudadora do esposo', pregando uma 'submissão saudável'.

Para a pesquisadora Flavia Biroli, o resultado reflete a força eleitoral da direita e do antipetismo, não um avanço na pauta de direitos. Ela distingue a participação de mulheres na política das bandeiras que essas mulheres defendem: 'São poderosas, sem dúvida, e nesse sentido oferecem imagens de mulheres fortalecidas. Mas não se posicionam em favor de direitos individuais das mulheres ou do fortalecimento de políticas públicas', afirma. Bia Kicis, quando procurada, respondeu que suas críticas ao feminismo dizem respeito a ideias com as quais não concorda, e que defender as mulheres não exige adesão a uma corrente ideológica. A bancada inédita permanece, assim, como um símbolo aberto — histórico nos números, mas disputado no significado.

A partir de 2027, o Distrito Federal entrará para a história como a primeira unidade da Federação inteiramente representada por mulheres no Senado. Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, ambas do PL, venceram a disputa eleitoral no fim de semana e tomarão posse em fevereiro. Elas se juntarão à senadora Damares Alves, do Republicanos, eleita em 2022 com mandato até 2031. A composição marca um momento inédito na representação legislativa brasileira — mas o significado dessa conquista permanece em disputa.

A estratégia de colocar mulheres em posição de destaque foi deliberada. Celina Leão, vice-governadora que assumiu o cargo em março após a renúncia de Ibaneis Rocha, apoiou abertamente a candidatura das duas senadoras e afirmou querer "muito ter duas mulheres no Senado". Essa aliança entre Celina, Michelle e Bia moldou a campanha, embora outras candidatas competitivas também disputassem as vagas. Leila do Vôlei, do PDT, recebeu 21,25% dos votos, ficando em terceiro lugar, enquanto Erika Kokay, do PT, obteve 18,91%, em quarto. A vitória das duas mulheres de direita refletiu, portanto, uma escolha eleitoral clara, mas não necessariamente um voto exclusivamente centrado em representatividade feminina.

O paradoxo central da história reside no perfil político das eleitas. As três senadoras que comporão a bancada feminina se notabilizaram por criticar movimentos feministas e, em alguns casos, por votar contra projetos que beneficiavam mulheres. Em 2023, quando ainda era deputada federal, Bia Kicis foi uma das dez parlamentares que votaram contra o projeto de lei que buscava assegurar igualdade salarial entre homens e mulheres. Na ocasião, argumentou que a igualdade já estava prevista na Consolidação das Leis do Trabalho e que se opunha a "impor multa pesada a quem emprega mulheres e homens".

Michelle Bolsonaro, estreante em mandatos eletivos, chefiou o PL Mulher durante três anos com o objetivo de ampliar a participação feminina no partido. Mas seus discursos revelam uma visão particular sobre o papel das mulheres na política. Ela defendeu publicamente uma política "feminina, não feminista" e se descreveu como uma mulher "ajudadora do esposo", além de defender uma "submissão saudável". Em um de seus pronunciamentos, afirmou: "Não estamos aqui para demonizar a figura masculina. Quem faz isso, com muita propriedade, são as feministas, as parlamentares de esquerda, do PT, do PSOL". Em outro momento, disse que oraria para que essas mulheres se convertessem.

Cientistas políticos apontam que o resultado das eleições reflete menos um avanço na pauta de direitos das mulheres e mais a força eleitoral da direita e da extrema-direita. Flavia Biroli, pesquisadora da área, observa que há uma retórica conservadora que coloca a família no centro das preocupações, associada à defesa de uma ordem social e política conservadora. Essa retórica se entrelaça com o antipetismo e com críticas ao Supremo Tribunal Federal. "No caso de direitos das mulheres, especificamente, elas representam mulheres 'empoderadas'. São poderosas, sem dúvida, e nesse sentido oferecem imagens de mulheres fortalecidas. Mas não se posicionam em favor de direitos individuais das mulheres ou do fortalecimento de políticas públicas e responsabilidade estatal para com as mulheres", afirma.

Biroli ressalta ainda que é fundamental diferenciar a ampla participação das mulheres das bandeiras que as candidatas defendem. Os efeitos de mais mulheres eleitas variam porque, dentro desse grupo, há pessoas com visões de mundo e interesses distintos e até opostos. O resultado pode indicar um eleitorado mais conservador que tende a apoiar mulheres que expressam esses ideais, mas os motivos para esse voto se misturam com aspectos comuns à extrema-direita, como o antipetismo.

Quando procurada pelo G1, Bia Kicis respondeu que suas críticas ao feminismo dizem respeito a "ideias que não concorda" e que defender as mulheres "não exige adesão a uma corrente ideológica". Afirmou que seu compromisso é trabalhar por todas, com atenção à segurança, à saúde e às oportunidades, para que cada mulher tenha liberdade para escolher seu caminho. Michelle Bolsonaro, Leila do Vôlei e Erika Kokay não responderam aos pedidos de entrevista do G1. A bancada 100% feminina que representará o Distrito Federal a partir de 2027 permanece, portanto, como um símbolo aberto a interpretações distintas sobre o que significa representação e avanço para as mulheres na política.

Defender os direitos das mulheres não exige adesão a uma corrente ideológica. As mulheres têm opiniões, valores e prioridades diferentes, e essa diversidade também precisa ser respeitada.
— Bia Kicis, em resposta ao G1
No caso de direitos das mulheres, especificamente, elas representam mulheres 'empoderadas'. São poderosas, sem dúvida, e nesse sentido oferecem imagens de mulheres fortalecidas. Mas não se posicionam em favor de direitos individuais das mulheres ou do fortalecimento de políticas públicas.
— Flavia Biroli, cientista política
Quer a matéria completa? Leia o original em G1 ↗
Fale Conosco FAQ