Médico não transferiu criança imediatamente para hospital com soro antiescorpiônico, contrariando protocolos do Ministério da Saúde para casos pediátricos. Atraso de mais de duas horas no contato com sistema de regulação e condicionamento da transferência a procedimentos burocráticos agravaram o quadro clínico.
Polícia indica médico por homicídio culposo após morte de menino picado por escorpião em SP
O quadro se tornou irreversível por burocratizar a transferência
Por que a polícia considerou isso homicídio culposo e não apenas um erro médico?
Porque homicídio culposo é exatamente isso — morte sem intenção, mas por negligência grave. A polícia encontrou evidências de que o médico violou protocolos bem estabelecidos, não uma vez, mas várias vezes. Não transferiu a criança quando deveria ter, esperou mais de duas horas para contatar o sistema de regulação, e condicionou a transferência a procedimentos burocráticos que a lei diz que não são necessários em casos de risco iminente de morte.
E se o médico realmente não conhecia esses protocolos?
Esse é o ponto. Em depoimento, ele afirmou que não sabia do protocolo. Mas as diretrizes vêm do Ministério da Saúde, estão nos protocolos do próprio hospital onde ele trabalhava, e são amplamente reconhecidas na literatura médica. A ignorância não é desculpa quando se trata de uma criança em risco de morte.
A "janela terapêutica" que mencionam — o que é exatamente?
É o período em que o soro antiveneno funciona de verdade. Depois que passa, o veneno já fez seu dano no corpo. No caso de crianças, essa janela é muito curta — menos de uma hora e meia. Bernardo vomitou dez vezes em vinte minutos. Aquilo era um sinal claro de que ele precisava do soro naquele momento, não duas horas depois.
O hospital diz que fez tudo certo. Quem está certo?
O inquérito policial, o Instituto Médico Legal, o Centro de Toxicologia e a Vigilância Epidemiológica todos concordam que houve falhas. O hospital pode discordar, mas os órgãos técnicos do Estado não estão do lado dele neste caso.
E agora, o que acontece com o médico?
Fica suspenso de trabalhar em urgência e emergência enquanto o Ministério Público e a Justiça analisam o caso. Se a denúncia for aceita, ele enfrenta um processo criminal. Mas tudo ainda está começando.
El Pulso
- Bernardo de Lima Mendes, 3 anos, morreu em março de 2026 após picada de escorpião em Conchal (SP)
- Médico Augusto Fortunato de Godoi indiciado por homicídio culposo
- Atraso de mais de duas horas entre chegada ao hospital (20h08) e contato com sistema de regulação (21h59)
- Protocolo do Ministério da Saúde exige transferência imediata para hospital com soro antiescorpiônico
- Tratamento com soro deve ser iniciado em até 1h30 após picada em crianças
Médico não transferiu criança imediatamente para hospital com soro antiescorpiônico, contrariando protocolos do Ministério da Saúde para casos pediátricos. Atraso de mais de duas horas no contato com sistema de regulação e condicionamento da transferência a procedimentos burocráticos agravaram o quadro clínico.
Polícia indicia médico por homicídio culposo após morte de menino de 3 anos picado por escorpião em SP. Investigação aponta descumprimento de protocolos e atrasos na transferência para hospital de referência.
Bernardo de Lima Mendes tinha três anos quando um escorpião o picou em casa, em Conchal, no interior de São Paulo, no fim de março deste ano. Seus pais o levaram ao Hospital e Maternidade Madre Vannini em menos de cinco minutos. Cinco meses depois, a Polícia Civil indicou o médico Augusto Fortunato de Godoi por homicídio culposo — a morte sem intenção de matar — alegando que o profissional não seguiu os protocolos estabelecidos para crianças vítimas de picada de escorpião.
O delegado Luís Henrique Lima Pereira, responsável pela investigação, identificou uma série de falhas no atendimento. A criança chegou ao hospital às 20h08, mas o contato formal com o sistema de regulação de vagas hospitalares só ocorreu às 21h59 — mais de duas horas depois. Nesse intervalo, nenhuma transferência foi providenciada. Segundo diretrizes do Ministério da Saúde, qualquer criança com até dez anos picada por escorpião, mesmo com sintomas leves, deve ser estabilizada e encaminhada imediatamente para um hospital de referência que possua o soro antiescorpiônico. No caso da região de Conchal, esse hospital é a Santa Casa de Araras, ou alternativamente unidades em Capivari, Itirapina, Leme, Limeira, Piracicaba, Pirassununga, Rio Claro e São Pedro.
O inquérito aponta que o médico manteve o menino em observação na unidade local, contrariando as normativas técnicas reconhecidas na literatura médica, nos protocolos do próprio hospital onde trabalhava e nos protocolos do Ministério da Saúde. O Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Campinas esclareceu à polícia que a ausência do soro em uma unidade não autoriza a postergação do tratamento adequado. O protocolo estabelece que, na falta do medicamento, o paciente deve ser estabilizado e transferido imediatamente. A Vigilância Epidemiológica do Estado enfatizou que crianças, por constituírem grupo de maior risco, devem ser transferidas de imediato, mesmo sem manifestações clínicas iniciais, considerando a possibilidade de rápida evolução do quadro.
O pai de Bernardo relatou que o filho vomitou cerca de dez vezes em apenas vinte minutos e também babava bastante. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, em crianças, o tratamento com soro antiveneno precisa ser iniciado em até uma hora e meia após a picada. O primeiro vômito já caracteriza a necessidade urgente do medicamento. O perito do Instituto Médico Legal apontou que o médico poderia ter acionado o Serviço de Atendimento Médico de Urgência independentemente do sistema de regulação, informando tratar-se de "vaga zero" — um caso de risco iminente de morte que dispensa procedimentos burocráticos. Nenhuma dessas medidas foi adotada. O quadro clínico do menino se agravou, ele sofreu uma parada cardiorrespiratória e choque cardiogênico devido aos efeitos tóxicos do veneno.
O inquérito de dezesseis páginas foi encaminhado ao Ministério Público. A polícia também pediu medida cautelar proibindo o médico de atuar como plantonista e em serviços de urgência e emergência, como hospitais e Unidades de Pronto-Atendimento, até nova decisão judicial. A defesa de Augusto informou que o profissional tem "plena certeza de sua inocência". O Hospital Madre Vannini afirmou que o médico acionou o Centro de Informação e Assistência Toxicológica quatro vezes durante o atendimento e que solicitou a transferência assim que houve agravamento do quadro, além de apontar que a instituição não tem autorização para manter estoque do soro no local.
Paulo Henrique Mendes Dias, pai de Bernardo, descreveu o indiciamento como "um sentimento de alívio". "O que a gente sempre quis é que a justiça seja feita e que não aconteça com mais ninguém. Principalmente sobre ele ser afastado, para que não ocorra com outra criança o que ocorreu com o meu filho", disse. O caso agora segue para análise do Ministério Público e da Justiça, que decidirão se aceitam a denúncia e se formalizam o pedido de afastamento do médico.
Citas Notables
É um sentimento de alívio. O que a gente sempre quis é que a justiça seja feita e que não aconteça com mais ninguém.— Paulo Henrique Mendes Dias, pai de Bernardo
Era um caso de vaga zero, de acionar o Samu e encaminhar essa criança para lá. O médico adotou protocolos que acabou por burocratizar a transferência da criança e o quadro se tornou irreversível.— Delegado Luís Henrique Lima Pereira