Em um tempo em que a tecnologia promete vencer até a morte, aplicativos chamados de 'griefbots' reconstroem vozes e personalidades de falecidos para que os vivos possam continuar conversando com eles. Pesquisadores de Cambridge e psicólogos brasileiros alertam que esse conforto digital é ilusório: ao evitar o confronto com a perda, essas plataformas podem cronificar o luto e abrir caminho para depressão e ansiedade. A humanidade, mais uma vez, se vê diante da pergunta antiga sobre o preço de escapar da dor.
Plataformas de IA para conversar com mortos preocupam especialistas em saúde mental
O luto é o custo do amor, e o amor a chave para ajudar enlutados
Por que especialistas estão tão preocupados? Não é apenas uma forma de as pessoas lidarem com a perda?
O problema é que não é apenas lidar — é evitar. O luto é doloroso, mas necessário. Essas plataformas oferecem uma ilusão de continuidade que impede a pessoa de transformar a dor em saudade.
Mas temos apenas dois casos documentados aqui. Quantas pessoas realmente usam essas plataformas? Não sabemos a escala real do problema.
É verdade, não temos números de usuários. Mas os pesquisadores de Cambridge estão alertando porque veem o potencial de dano, especialmente em crianças e pessoas com depressão.
E se alguém realmente se beneficiar disso? E se a plataforma ajudar alguém a não cometer suicídio?
Aline Agustinho diz que pode haver conforto temporário, mas não evita o confronto com a realidade. E quando a ilusão cai — como com Bianca e o iFood — pode ser ainda mais traumático.
O caso de Bianca é interessante porque mostra uma falha técnica, não uma falha conceitual. O bot simplesmente não conhecia bem a avó. Isso é diferente de dizer que a plataforma é inerentemente prejudicial.
Mas é exatamente isso que preocupa. A tecnologia promete fidelidade e não consegue entregar. E para uma criança de 8 anos que perdeu a mãe, essa descoberta pode ser devastadora.
Então a solução é proibir?
Os pesquisadores não pedem proibição. Pedem avisos, limites de idade, transparência sobre o que é IA. Deixar a pessoa saber que está conversando com um chatbot, não com um fantasma.
E isso é factível? Ou as plataformas vão continuar operando nos EUA enquanto a Europa regula e o Brasil discute?
Der Puls
- Aplicativos alimentados por fotos, vídeos e mensagens reconstroem simulações conversacionais de mortos, ganhando popularidade nos EUA e despertando alarme entre especialistas em saúde mental.
- Psicólogos brasileiros advertem que a ilusão de continuidade oferecida pelos griefbots impede o 'confronto necessário com a realidade', podendo transformar o luto em uma experiência crônica e adoecedora.
- Casos documentados revelam falhas perturbadoras: um bot imitou a avó de uma usuária com precisão de sotaque, mas sugeriu pedir delivery — uma resposta que jamais viria da pessoa real, ferindo a memória da falecida.
- Uma criança de 8 anos foi apresentada ao chatbot da própria mãe ainda em vida, com intenção protetora, mas pesquisadores temem o impacto psicológico quando o menino compreender plenamente com o que está interagindo.
- Regulações começam a se mover — a UE aprovou legislação sobre IA em março e o Brasil discute proposta no Senado — mas as plataformas seguem operando sem restrições claras enquanto o debate avança.
Em um tempo em que a tecnologia promete vencer até a morte, aplicativos chamados de 'griefbots' reconstroem vozes e personalidades de falecidos para que os vivos possam continuar conversando com eles. Pesquisadores de Cambridge e psicólogos brasileiros alertam que esse conforto digital é ilusório: ao evitar o confronto com a perda, essas plataformas podem cronificar o luto e abrir caminho para depressão e ansiedade. A humanidade, mais uma vez, se vê diante da pergunta antiga sobre o preço de escapar da dor.
Há aplicativos que prometem o impossível: conversar com quem já morreu. O usuário fornece fotos, mensagens e detalhes de voz, e a inteligência artificial reconstrói uma simulação do falecido. Nos Estados Unidos, onde a prática cresceu, dois pesquisadores da Universidade de Cambridge estudaram o fenômeno e publicaram suas conclusões em maio — e o que encontraram preocupa especialistas em saúde mental.
Psicólogos brasileiros ouvidos pela reportagem são enfáticos: o conforto oferecido por essas plataformas é temporário e perigoso. Aline Agustinho, de Brasília, explica que tentar substituir a presença do falecido retarda o enfrentamento inevitável da perda, podendo cronificar o luto e exigir suporte profissional especializado no futuro. Gláucia Flores vai além: o luto é um processo de transformar a dor em saudade, de dar um novo lugar interno a quem partiu — e recriar digitalmente o falecido pode potencializar o sofrimento e desencadear depressão e ansiedade.
Os pesquisadores de Cambridge documentaram casos concretos. Bianca, de 35 anos, usou uma plataforma para 'reviver' a avó Laura, morta meses antes. O bot imitava o sotaque da avó com exatidão — até a noite em que Bianca ligou para falar sobre espaguete à bolonhesa, comida preferida das duas, e o bot sugeriu pedir um iFood. A resposta absurda a deixou furiosa: sua avó jamais diria aquilo. Outro caso é ainda mais delicado: uma criança de 8 anos foi apresentada ao chatbot da própria mãe — ainda viva, mas com câncer terminal — como forma de preparação emocional. Pesquisadores temem o impacto quando o menino compreender que nunca foi sua mãe de verdade.
Diante disso, os especialistas de Cambridge recomendam avisos de responsabilidade, informações claras sobre a natureza da IA e limites de idade para uso dessas plataformas. No campo regulatório, a União Europeia aprovou em março a primeira lei ampla sobre IA, e no Brasil o senador Rodrigo Pacheco apresentou proposta de regulamentação que pode ser votada ainda neste semestre. Enquanto o debate avança, as plataformas seguem operando — oferecendo uma ilusão de presença a pessoas nos momentos mais vulneráveis de suas vidas.
Há aplicativos na internet que prometem algo que parecia impossível: uma conversa com alguém que morreu. O usuário alimenta o sistema com fotos, mensagens, vídeos, detalhes de voz e personalidade, e a inteligência artificial reconstrói uma simulação conversacional do falecido. Nos Estados Unidos, onde a prática ganhou tração, dois pesquisadores da Universidade de Cambridge decidiram estudar o fenômeno e publicaram suas conclusões no início de maio. O que encontraram preocupa especialistas em saúde mental no Brasil e além: essas plataformas, conhecidas como griefbots ou deadbots, podem causar danos psicológicos significativos, especialmente em pessoas vulneráveis.
O luto é uma experiência universal e devastadora. Quando alguém morre, fica a angústia de esquecer, a tentação de preservar cada detalhe, cada tom de voz. A inteligência artificial oferece uma solução que parece humana: você pode continuar conversando. Mas psicólogos brasileiros ouvidos pela reportagem alertam que esse conforto é apenas temporário e que a ilusão pode prejudicar o que chamam de "confronto necessário com a realidade". Aline Agustinho, psicóloga de Brasília, explica que tentar substituir a presença do falecido para evitar ou minimizar a dor pode retardar o enfrentamento inevitável do luto, cronificando a experiência de estar enlutado. Como resultado, a pessoa pode precisar de suporte profissional especializado — psicólogo, psiquiatra — para lidar com a perda posteriormente.
Gláucia Flores, também psicóloga brasiliense, vai além: usar essas plataformas é uma forma de fugir da realidade para não ter que lidar com o sofrimento. O luto, segundo ela, é um movimento de transformar a dor e a perda em saudade, em lembranças, um processo de buscar dar um novo lugar dentro de si para aquele que se amou e partiu. Recriar a voz, o rosto, as expressões de quem faleceu através da IA pode desencadear sofrimentos ainda não estudados. Pior: usar a tecnologia para minimizar a dor pode potencializar ainda mais o sofrimento e desencadear depressão e ansiedade.
Os pesquisadores de Cambridge, Tomasz Hollanek e Katarzyna Nowaczyk-Basiska, documentaram casos concretos. Um deles envolve Bianca, de 35 anos, que entrou em uma plataforma desenvolvida para pessoas que perderam avós. Ela "reviveu" a avó Laura, falecida meses antes. O bot trocava mensagens e imitava com exatidão o sotaque da avó, após Bianca fornecer os dados ao site. A versão premium custava 50 euros, mas ela usou o período de testes gratuito. Quando a assinatura expirou, surgiram anúncios na plataforma, deixando Bianca desconfortável. Uma noite, ela ligou para a avó via aplicativo para dizer que estava preparando espaguete à bolonhesa — comida preferida das duas. O bot respondeu que o ideal era pedir um iFood. Bianca ficou furiosa: sua avó jamais falaria aquilo. O bot havia desrespeitado a memória da avó.
Outro caso é ainda mais perturbador. Uma criança de 8 anos perdeu a mãe vítima de um câncer raro. Sabendo do que inevitavelmente ocorreria, os pais apresentaram ao menino, antes do óbito da mãe, um aplicativo que "proporcionaria companheirismo e apoio emocional". Apesar da intenção, os pesquisadores alertam que a plataforma pode se tornar um pesadelo quando o rapaz perceber que está conversando com um chatbot, não com sua mãe.
Os especialistas de Cambridge recomendam que os provedores de serviços de recriação incluam avisos de responsabilidade, semelhantes aos que alertam sobre conteúdo que pode causar convulsões em pessoas com epilepsia fotossensível. Também pedem que os produtores forneçam informações acessíveis sobre a natureza da IA conversacional, garantindo que os usuários não desenvolvam uma percepção falha das capacidades do deadbot. Além disso, recomendam limites de idade para utilização dessas plataformas nos Estados Unidos.
A regulamentação está começando a se mover. A União Europeia aprovou em março a primeira lei com regras amplas para uso e desenvolvimento de tecnologia de IA. No Brasil, o senador Rodrigo Pacheco apresentou uma proposta de regulamentação a partir de outros projetos que tratam do tema. A discussão avança lentamente, apesar da boa vontade dos legisladores. Existe a possibilidade de o projeto ser votado pelo plenário do Senado ainda neste semestre. Enquanto isso, as plataformas continuam operando, oferecendo conforto temporário a pessoas em um dos momentos mais vulneráveis de suas vidas.
Bemerkenswerte Zitate
A tentativa de substituir a presença de quem morreu pode retardar o enfrentamento necessário e cronificar a experiência de estar enlutado— Aline Agustinho, psicóloga brasiliense
Usar IA para minimizar a dor pode potencializar ainda mais o sofrimento e desencadear depressão e ansiedade— Gláucia Flores, psicóloga brasiliense