Anvisa autoriza testes em humanos de vacina do Butantan contra gripe aviária H5N8

O vírus adquirir capacidade de transmissão entre pessoas é muito perigoso
Pesquisador do Butantan descreve o risco de mutação que poderia desencadear uma pandemia.
Mark

Por que o Butantan está testando uma vacina contra um vírus que ainda não se transmite entre humanos?

Mimi

Porque os cientistas veem o risco aumentando. O vírus já saltou de aves para mamíferos e para humanos. Uma mutação poderia permitir transmissão entre pessoas, e aí teríamos uma pandemia com taxa de mortalidade perto de 50%.

Luke

Mas é importante notar que isso é um cenário de risco, não uma ameaça iminente. Não há transmissão humano-humano confirmada ainda.

Mark

Quantas pessoas vão participar desses testes?

Mimi

Setecentas no total, divididas entre as fases 1 e 2. Começam com 70 adultos em Recife, depois expandem para 280 em outros estados, e depois testam em idosos.

Luke

E todos os dados vão ser comparados com placebo, o que é importante para validar a resposta imune que a vacina realmente gera.

Mark

Quanto tempo vai levar até ter uma vacina pronta?

Mimi

O acompanhamento dos participantes termina em 2026. Depois disso, o Butantan vai apresentar os resultados à Anvisa para aprovação regulatória.

Luke

Então estamos falando de pelo menos um ano e meio de pesquisa, sem garantia de que a vacina será aprovada ou de que será necessária.

Mark

E se o vírus realmente começar a se transmitir entre pessoas antes disso?

Mimi

O Butantan já tem planos. Pode produzir 30 milhões de doses após os resultados iniciais. Seria um estoque de contingência.

Luke

Isso pressupõe que a vacina funcione e que a produção em escala seja viável. São duas coisas ainda não testadas.

  • O vírus H5N8 já cruzou barreiras entre espécies — de aves para mamíferos, de mamíferos para humanos — e uma única mutação pode abrir o caminho para a transmissão entre pessoas.
  • Com mortalidade próxima a 50% nos casos humanos conhecidos, o risco não é hipotético: é uma ameaça latente que os cientistas monitoram com urgência crescente.
  • O Butantan recrutará 700 adultos e idosos em Recife, São Paulo, Belo Horizonte, São José do Rio Preto e Ribeirão Preto para avaliar segurança e resposta imune da vacina em duas fases escalonadas.
  • O estudo segue um desenho cauteloso — começa com 70 pessoas, analisa dados de segurança antes de expandir — buscando equilibrar velocidade científica com responsabilidade clínica.
  • O Brasil posiciona-se estrategicamente: o Butantan já tem capacidade para produzir 30 milhões de doses caso o vírus comece a circular entre humanos, transformando prevenção em infraestrutura de defesa nacional.

Em um tempo em que a memória das pandemias ainda é recente, o Brasil dá um passo calculado entre a prevenção e a urgência: a Anvisa autorizou o Instituto Butantan a testar em humanos uma vacina contra a gripe aviária H5N8, vírus que ainda não se transmite entre pessoas, mas que carrega consigo uma taxa de mortalidade próxima a 50% e o potencial de mutação que os cientistas observam com crescente inquietação. Setecentos voluntários em cinco cidades serão os primeiros a responder, com seus corpos, à pergunta que a ciência ainda não consegue responder com certeza: estamos a tempo?

Na terça-feira, 1º de julho, a Anvisa autorizou o Instituto Butantan a iniciar testes em humanos de sua vacina contra a gripe aviária H5N8. O caminho até essa aprovação levou dez meses e passou por testes pré-clínicos em animais com resultados promissores em segurança e eficácia. Agora, o desafio é verificar se o que funcionou em laboratório também funciona em pessoas.

Nos próximos meses, o Butantan recrutará 700 voluntários adultos e idosos distribuídos entre cinco centros de pesquisa no país. A vacina será aplicada em duas doses por via intramuscular, com 21 dias de intervalo. O estudo começa com 70 adultos em Recife; após análise dos dados de segurança, expande-se para mais 280 pessoas em São Paulo, Belo Horizonte, São José do Rio Preto e Ribeirão Preto. Em seguida, a segunda fase inclui idosos — primeiro 70, depois mais 350 voluntários. O acompanhamento de todos os participantes deve ser concluído em 2026.

O que torna a pesquisa urgente é o cenário que a motiva. A gripe aviária em humanos ainda é rara e ocorre quase sempre após contato com aves contaminadas, sem confirmação de transmissão entre pessoas. Mas a taxa de mortalidade está próxima de 50%, os sintomas são graves, e um estudo publicado na revista Science apontou que uma única mutação poderia sinalizar risco de pandemia. O vírus já deu passos inquietantes: antes restrito às aves, agora se transmite entre vacas e de bovinos para humanos.

Paulo Lee Ho, pesquisador do Butantan, resume a escalada: o H5N1 já circula entre aves, entre mamíferos e de mamíferos para humanos. Falta apenas o último degrau — a transmissão de pessoa para pessoa — para que o risco de pandemia se torne concreto. O diretor do instituto, Esper Kallás, traduz a preparação em números: o Butantan pode produzir 30 milhões de doses após os resultados iniciais. O Brasil, que ainda não registrou casos humanos, aposta que chegar preparado é melhor do que correr para recuperar o tempo perdido.

Na terça-feira, 1º de julho, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária deu sinal verde para o Instituto Butantan avançar para a próxima etapa de sua pesquisa com uma vacina contra a gripe aviária H5N8: testes em seres humanos. Nos próximos meses, o instituto vai recrutar 700 voluntários adultos e idosos distribuídos entre cinco centros de pesquisa espalhados pelo país. O estudo vai medir duas coisas fundamentais — se a vacina é segura e se consegue gerar resposta imune adequada nos organismos testados.

O caminho até aqui levou dez meses. O Butantan submeteu o pedido à Anvisa após concluir testes pré-clínicos em animais que apontaram resultados promissores tanto em segurança quanto em eficácia. Agora vem a fase de verificar se o que funcionou em laboratório também funciona em pessoas. O imunizante será aplicado em duas doses por via intramuscular, com 21 dias de intervalo entre elas. Primeiro os adultos entre 18 e 59 anos receberão as injeções, depois virão os idosos. Todos os resultados serão comparados com um grupo que receberá placebo.

A pesquisa segue um desenho cuidadoso. Começa com 70 adultos em um centro de pesquisa em Recife. Depois que a primeira dose das duas formulações da vacina for aplicada, os pesquisadores vão analisar os dados de segurança. Se tudo correr bem, abre-se uma segunda etapa de recrutamento com 280 pessoas adicionais, que receberão as doses em São Paulo, Belo Horizonte, São José do Rio Preto e Ribeirão Preto. Uma vez que o perfil de segurança nos adultos se mostre favorável, começa a segunda fase com 70 pessoas com 60 anos ou mais, seguida por mais 350 voluntários. O objetivo é encerrar o acompanhamento de todos os participantes em 2026, gerando um conjunto de dados regulatórios que cubra uma faixa etária ampla para apresentação à Anvisa.

O que torna essa pesquisa urgente é o cenário de risco que a motiva. A gripe aviária em humanos é rara — os casos conhecidos ocorrem quase sempre após contato próximo com aves contaminadas ou suas fezes, afetando principalmente pessoas que trabalham diretamente com esses animais. Até agora, não há confirmação de transmissão de humano para humano. Mas os cientistas estão preocupados. A taxa de mortalidade está próxima de 50%, e os sintomas são graves. Mais preocupante ainda: uma pesquisa publicada na revista Science no ano passado indicou que uma única mutação poderia sinalizar risco de pandemia. E as mutações já estão acontecendo. O vírus que antes só infectava aves agora está transmitindo-se entre vacas e para humanos em contato com bovinos contaminados.

Paulo Lee Ho, pesquisador científico e gerente de Desenvolvimento e Inovação de Produtos do Butantan, descreve a trajetória do vírus em termos que deixam clara a escalada: "O vírus de influenza A (H5N1) está sendo transmitido de aves para aves, de aves para mamíferos, de mamíferos para mamíferos, de aves para humanos e mamíferos para humanos. Só não vimos ainda a transmissão de pessoa para pessoa, mas existe um potencial do vírus adquirir essa capacidade, o que é muito perigoso porque aumenta o risco de uma pandemia." Embora o Brasil não tenha registrado casos em humanos até agora, o Butantan trabalha com a premissa de que é melhor estar preparado.

Esper Kallás, diretor do Butantan, colocou números concretos na conversa sobre preparação. O instituto pode produzir um contingente de 30 milhões de doses após os resultados iniciais da pesquisa. Esse volume, segundo ele, poderia ser mobilizado em um cenário de disseminação do vírus entre pessoas. É um cálculo de defesa: não há pandemia em vista, mas há risco suficiente para justificar investimento em capacidade produtiva. O Brasil está tentando não ser apanhado de surpresa.

O vírus de influenza A (H5N1) está sendo transmitido de aves para aves, de aves para mamíferos, de mamíferos para mamíferos, de aves para humanos e mamíferos para humanos. Só não vimos ainda a transmissão de pessoa para pessoa, mas existe um potencial do vírus adquirir essa capacidade, o que é muito perigoso porque aumenta o risco de uma pandemia.
— Paulo Lee Ho, pesquisador científico e gerente de Desenvolvimento e Inovação de Produtos do Butantan
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