Pessôa argumenta que juros elevados (14% ao ano) resultam do gasto público crescendo acima do potencial econômico, não de rentismo ou conservadorismo do BC. Economista analisa e refuta cada fator levantado por Dirceu, desde arquitetura monetária até indexação, mostrando falta de causalidade direta com taxas de juros.
Pessôa rebate Dirceu: gastos públicos, não rentismo, explicam juros de 14%
Os juros elevados são a expressão de uma restrição material objetiva
Por que Pessôa insiste tanto que o gasto primário é o culpado, e não esses outros fatores que Dirceu menciona?
Porque há uma cadeia de causalidade clara: quando o governo gasta mais do que o potencial da economia permite, pressiona a demanda, gera inflação, e o Banco Central precisa subir os juros para controlar. Os outros fatores — rentismo, concentração bancária — não têm esse vínculo direto.
Mas espera. Pessôa está dizendo que o superávit primário não importa, só o crescimento do gasto real. Como ele sabe que o gasto real crescia a 6% ao ano no segundo mandato de Lula? Isso é um número que ele cita, mas de onde vem?
É um dado que ele usa para mostrar que mesmo com superávit, o gasto estava acelerado. A lógica é: se você gasta mais rápido que a economia cresce, cria pressão inflacionária.
E quanto ao argumento do rentismo? Por que Pessôa acha tão absurdo?
Porque os rentistas são uma minoria e não têm poder de decisão no Banco Central. Além disso, se fossem eles que determinassem os juros, a economia deveria estar em recessão permanente — mas não está.
Certo, mas Pessôa está assumindo que o Copom funciona de forma tecnocrática, isolada de pressões políticas. Será que é assim mesmo? E ele não explica bem como exatamente o gasto primário se traduz em juros mais altos — qual é o mecanismo preciso?
O mecanismo é que gasto público acima do potencial cria demanda excedente, inflação, e o BC sobe os juros para controlar. Mas você tem razão — ele não detalha muito como isso funciona em tempo real.
Pessôa menciona que tentaram baixar os juros entre 2012 e 2014 e não funcionou. Isso é prova de que o gasto primário é o culpado?
Não necessariamente. Pode ser que aquele experimento falhou por outras razões — timing ruim, choques externos, expectativas já desancoradas. Usar um fracasso para provar uma tese é frágil.
Verdade, mas o ponto dele é que se o rentismo fosse o problema, aquele experimento deveria ter funcionado. O fato de não ter funcionado sugere que o problema é mais estrutural.
E quanto à comparação com Chile, Colômbia, México e Peru? Isso é convincente?
É um argumento interessante, mas incompleto. Ele mostra que esses países têm inflação menor e gasto previdenciário menor, mas não prova que a diferença de juros vem só disso. Pode haver outros fatores — confiança de investidores, volatilidade cambial, composição da dívida externa.
Concordo, mas o ponto é que a arquitetura do BC é similar, então se os juros fossem determinados por como o BC opera, deveriam ser parecidos. Como não são, a culpa deve estar em variáveis fiscais.
The Pulse
- Taxa de juros em 14% ao ano
- Salário mínimo real cresceu 190% em 30 anos; produtividade subiu 25%
- Parcela da dívida pública atrelada à Selic caiu de 48% para 19% entre 2004 e 2014, depois subiu para 49%
- Gasto primário real crescia a 6% ao ano no segundo mandato de Lula
Pessôa argumenta que juros elevados (14% ao ano) resultam do gasto público crescendo acima do potencial econômico, não de rentismo ou conservadorismo do BC. Economista analisa e refuta cada fator levantado por Dirceu, desde arquitetura monetária até indexação, mostrando falta de causalidade direta com taxas de juros.
Samuel Pessôa rebate argumentos de José Dirceu sobre causas dos juros altos no Brasil, sustentando que o crescimento dos gastos primários é o principal determinante, não fatores como rentismo ou concentração bancária.
Samuel Pessôa entrou em debate público com José Dirceu sobre uma questão que afeta diretamente o bolso de todo brasileiro: por que os juros estão em 14% ao ano. Dirceu havia publicado um texto na Ilustríssima apontando culpados variados — concentração bancária, conservadorismo do Banco Central, rentismo — mas Pessôa discorda da diagnose. Para o economista, nenhum desses fatores explica adequadamente as taxas praticadas pela política monetária. O culpado real, segundo ele, é bem mais simples e bem mais incômodo: o Estado gasta demais.
O argumento de Pessôa repousa numa mudança estrutural que ocorreu há quase três décadas. Depois que o Brasil adotou câmbio flutuante em 1999 e acumulou reservas internacionais, a natureza do risco econômico do país se transformou. Os juros de curto prazo — aqueles que o Banco Central controla — passaram a refletir basicamente o equilíbrio entre oferta e demanda de bens e serviços na economia. Quando o setor público gasta mais do que deveria, pressiona essa base de recursos e os juros sobem. Se conseguíssemos passar alguns anos com gasto primário crescendo abaixo do potencial econômico, o juro real poderia cair para 3% ao ano.
Dirceu havia argumentado que durante o segundo mandato de Lula havia superávits primários — ou seja, o governo arrecadava mais do que gastava — mas os juros não caíram. Pessôa responde que o superávit é uma métrica enganosa. O que importa é a velocidade do gasto real. Naquela época, o gasto primário real crescia a 6% ao ano. Quando a economia está operando a plena capacidade, como esteve entre 2007 e 2014 e tem estado nos últimos três anos, um crescimento de gasto acima do potencial gera inflação e força os juros para cima. O fato de o governo ter superávit não muda essa dinâmica.
Pessôa então passa a examinar cada um dos fatores que Dirceu levantou, refutando-os sistematicamente. Sobre a arquitetura da política monetária — a forma como o Banco Central operacionaliza suas decisões — ele argumenta que não há evidência de que mudanças nesses procedimentos afetariam permanentemente os juros reais. A estrutura da dívida pública, que tem quase metade atrelada à taxa Selic, pode amplificar ciclos monetários, mas não explica juros permanentemente maiores. A concentração bancária afeta os spreads que os bancos cobram, não a taxa básica de juros. As expectativas de inflação medidas pela pesquisa Focus do BC são atrasadas e não funcionam como mecanismo de pressão para cima.
Sobre o Banco Central ser conservador, Pessôa oferece dados concretos: nos últimos 30 anos, a inflação ficou acima da meta muito mais vezes do que abaixo. Não há evidência de conservadorismo excessivo; seria mais apropriado falar em certa leniência com a inflação. Quanto ao rentismo — a ideia de que os ricos que vivem de renda financeira conseguem forçar o BC a manter juros altos — Pessôa a chama de absurda. Os rentistas são uma parcela pequena da população e não têm mecanismo para chantagear o Copom, o colegiado que decide a taxa de juros. Se essa fosse a única causa dos juros elevados, por que a economia não desaceleraria fortemente? Ninguém conseguiu responder essa pergunta.
Pessôa lembra que o Brasil já tentou baixar os juros à força entre 2012 e 2014, justamente com o argumento de combater o rentismo. Não funcionou. Quem insiste nessa tese precisa explicar por que aquele experimento fracassou. Ele aponta que o Banco Central chileno, colombiano, mexicano e peruano operam de formas muito similares ao BC brasileiro, mas esses países têm inflação média bem menor. A diferença está em variáveis fiscais: gasto previdenciário no Brasil é geralmente o dobro do desses países, o gasto primário é maior, a arrecadação é maior, e a taxa de poupança doméstica é bem menor.
No fim, Pessôa toca numa questão política incômoda. Nos últimos 30 anos, o salário mínimo real cresceu 190% enquanto a produtividade do trabalho subiu apenas 25%. Há um limite material para políticas redistributivas numa economia de mercado com propriedade privada. Os juros elevados não são escolha ou expressão de poder — são a expressão de uma restrição material objetiva. Tentar lutar contra essa restrição terminará em crise econômica e recessão, e os mais pobres arcarão com os maiores custos.
Notable Quotes
Não há um bom argumento que vincule tais fatores a juros reais de política monetária permanentemente mais elevados— Samuel Pessôa, sobre os mecanismos operacionais do Banco Central
Os rentistas são parcela pequena da população e não conseguem, sozinhos, forçar o BC a elevar a taxa Selic— Samuel Pessôa, refutando o argumento do rentismo