Ninguém quer falar de clima, nem candidatos à Presidência

Enquanto o mundo pega fogo, preferimos falar de qualquer outra coisa
A autora reflete sobre por que o público evita discussões sobre clima, mesmo com a crise ambiental em curso.
Mark

Por que você acha que as pessoas têm tanta dificuldade em falar sobre clima, mesmo quando as consequências já estão acontecendo?

Mimi

Porque é paralisante. Quando você realmente entende a escala do problema, é como se o chão desaparecesse. A maioria das pessoas prefere não pensar nisso, ou pensa que não há nada que possam fazer individualmente.

Luke

Mas a coluna menciona que a cobertura caiu 38% desde 2021. Essa é uma cifra global ou específica de alguma região? Porque se for global, precisa saber de onde vem esse número.

Mimi

É um dado que circula em estudos sobre cobertura jornalística, mas você tem razão em questionar. O ponto é que enquanto a crise piora, a mídia fala menos sobre ela.

Mark

E quanto aos candidatos presidenciais? Flávio Bolsonaro realmente não apresentou nenhuma proposta concreta?

Mimi

Ele minimizou os eventos extremos como cíclicos e sugeriu saneamento básico. Não é um plano de transição energética, não é mitigação climática. É desviar do assunto.

Luke

Saneamento básico é importante, claro. Mas a coluna o apresenta como inadequado. Qual seria uma resposta adequada que ele deveria ter dado?

Mimi

Algo que reconhecesse a urgência, que propusesse investimento em energia renovável, que estabelecesse metas de redução de emissões. Países como a Austrália já estão fazendo isso.

Mark

Você acha que há esperança de mudar esse cenário antes das próximas eleições?

Mimi

Há esperança porque a transição energética é viável e rentável. Mas exige que candidatos e mídia comecem a falar sobre isso de verdade.

Luke

A coluna não diz quantas pessoas foram entrevistadas ou quais estudos específicos embasam essas afirmações sobre por que as pessoas evitam o tema. É mais uma reflexão pessoal do que um levantamento sistemático.

Mimi

Verdade. É uma coluna de opinião, não um reportagem investigativa. Mas a observação sobre o comportamento das pessoas é válida.

Mark

Então o que você espera que mude?

Mimi

Que a gente pare de esconder brócolis dentro de bolos e comece a servir a verdade no prato, sem disfarce.

  • A cobertura global sobre clima caiu 38% desde 2021, exatamente quando a crise ambiental se intensificava — um silêncio que a mídia brasileira aprofunda ainda mais.
  • O candidato Flávio Bolsonaro, em entrevista ao Jornal Nacional, classificou eventos extremos como fenômenos cíclicos e naturais, sem apresentar qualquer plano concreto de mitigação.
  • Jornalistas e cientistas relatam que o tema paralisa o público por medo ou impotência — e que no Brasil a luta diária pela sobrevivência econômica empurra o debate climático para a periferia da consciência coletiva.
  • Apesar do desânimo, exemplos como a Austrália mostram que a transição energética é viável e rentável, mantendo acesa a chama de quem insiste em colocar a palavra 'clima' no título dos seus textos.

Há décadas, cientistas alertam para uma crise que remodela o planeta, mas a atenção coletiva — da mídia, dos políticos e do público — continua a se desviar para outros horizontes. No Brasil de 2026, enquanto eventos climáticos extremos se multiplicam, a cobertura jornalística encolhe e candidatos presidenciais oferecem respostas rasas a perguntas profundas. É uma das grandes contradições do nosso tempo: quanto mais urgente o problema, menor parece a disposição de encará-lo.

Sete anos atrás, num domingo de 2019, a leitura de um artigo sobre a crise climática provocou uma ruptura irreversível em quem o escreveu. Desde então, a autora tenta, de todas as formas possíveis, fazer o tema chegar ao leitor — escondendo-o dentro de outros assuntos, como quem disfarça brócolis num bolo. Mas a resistência é persistente: sempre que a palavra "clima" aparece no título, o interesse despenca.

Não é uma experiência solitária. Desde 1988, quando James Hansen alertou o Congresso americano sobre o aquecimento global, cientistas tentam soar o alarme. Em 2018, o ativista David Buckel ateou fogo ao próprio corpo para chamar atenção para os combustíveis fósseis. O gesto extremo não foi suficiente para mudar o rumo da conversa pública. As explicações são conhecidas: o tema aterra, paralisa, e muitos preferem simplesmente não pensar nele.

Os meios de comunicação agravam o problema. A cobertura global sobre mudanças climáticas caiu 38% desde 2021. No Brasil, o espaço dedicado ao tema é ainda mais escasso. Numa entrevista ao Jornal Nacional, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro descreveu eventos extremos como fenômenos cíclicos e naturais, sugerindo apenas investimentos em saneamento básico — uma medida válida, mas que não toca na raiz da emergência climática.

Ainda assim, há razões para persistir. A transição para energias limpas é economicamente viável — a Austrália já avança com determinação rumo à autossuficiência renovável. A autora continua aqui, assando seu bolo de brócolis, apostando que, mais cedo ou mais tarde, alguém vai querer provar.

Há sete anos, uma reportagem mudou tudo. Era domingo, 2019, e a leitura de um artigo sobre a crise climática em uma revista literária provocou uma ruptura tão profunda que a autora descreve como o fim do mundo que conhecia. Daquele momento em diante, ela se viu impelida a falar sobre o assunto — em festas, em conversas informais, em textos publicados em plataformas digitais e aqui, neste espaço. Mas logo descobriu uma verdade incômoda: quando colocava a palavra "clima" no título de um artigo, o interesse dos leitores despencava.

Não é uma experiência isolada. Cientistas como James Hansen já tentavam soar o alarme desde 1988, quando testemunhou diante do Congresso americano sobre a gravidade do aquecimento global. Outros, como David Buckel, recorreram a gestos extremos — em 2018, ateou fogo ao próprio corpo com gasolina para chamar atenção para os combustíveis fósseis. A autora, com seus recursos mais modestos, tentou estratégias variadas: esconder o tema dentro de textos sobre outros assuntos, como quem disfarça brócolis dentro de um bolo para uma criança comer.

Mesmo quando eventos catastróficos tornavam o tema inescapável — como o incêndio em Los Angeles que destruiu casarões de celebridades — a conversa não se sustentava. As pessoas preferem discutir relacionamentos, futebol, feminismo. Qualquer coisa, parece, menos o fato de que o mundo está literalmente pegando fogo. A autora começou a investigar por que isso acontecia. Conversando com jornalistas e cientistas, ouviu explicações recorrentes: o assunto é tão assustador que muitos preferem negar sua realidade. Outros simplesmente se abstêm de pensar nele para não se afligirem, já que não sabem como agir. Há ainda quem reclame da complexidade do tema. E no Brasil especificamente, a maioria das pessoas está preocupada em garantir o pão de cada dia, não em calcular consequências que virão em semanas, anos ou décadas — mesmo que essas consequências as afetem diretamente.

Os meios de comunicação, longe de ajudar, pioram o quadro. A cobertura global sobre mudanças climáticas caiu 38% desde 2021, justamente quando a crise se agravava. No Brasil, o tema permanece marginal, ocupando muito menos espaço do que merecia. Durante uma entrevista ao Jornal Nacional, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro descreveu eventos climáticos extremos como cíclicos e naturais, sem apresentar qualquer plano de mitigação ou enfrentamento. Sua única sugestão foi investir em saneamento básico — uma solução que, embora importante, não enfrenta a raiz do problema.

Mas há razões para não desistir. Para quem leva o assunto a sério, a transição para energias limpas não é apenas necessária — é economicamente viável e potencialmente lucrativa. A Austrália já caminha a passos largos rumo à autossuficiência energética através de fontes renováveis. Exemplos assim mantêm viva a esperança, e também a teimosia. A autora continua aqui, assando seu bolo de brócolis, tentando mais uma vez fazer o leitor engolir a verdade que ninguém quer saborear.

Eventos extremos são cíclicos e não apresentou nenhum plano de mitigação ou enfrentamento
— Descrição da posição de Flávio Bolsonaro em entrevista ao Jornal Nacional
Contact Us FAQ