Pesquisadores criam "exército" de polvos contra caranguejos

Uma única fêmea pode colocar milhões de ovos
Pietro Emmanuele explica por que o caranguejo-azul é tão difícil de conter, mesmo com predadores naturais.
Mark

Por que os polvos? Parece uma escolha estranha para resolver um problema de caranguejos.

Mimi

Porque em seu habitat natural, o polvo é um predador extremamente eficiente de crustáceos. É simples assim. Eles comem caranguejos.

Luke

Mas o artigo diz que o polvo-comum não vive nas águas quentes e arenosas onde o caranguejo causa os maiores danos. Então qual é realmente o alcance dessa solução?

Mimi

Limitado, pelo menos nas lagoas. Mas nos recifes submarinos onde estão soltando os polvos, a ideia é criar uma comunidade que contenha a expansão.

Mark

E quanto aos números? Quantos polvos já foram soltos?

Luke

Aí está o problema. A AFP disse 80 mil, a Scientific American disse 130 mil. Ninguém parece ter um número exato.

Mimi

Dezenas de milhares em qualquer caso. E esperam dobrar até o fim de agosto. Mas é um projeto-piloto, então ainda estão testando.

Mark

Qual é o tamanho real do problema que estão tentando resolver?

Mimi

Enorme. A Coldiretti estima 200 milhões de euros em perdas em todo o país. Apenas Emilia-Romagna perdeu 17 milhões desde 2022.

Luke

E um caranguejo-azul fêmea pode colocar milhões de ovos. Então mesmo que os polvos funcionem, é uma corrida contra números astronômicos.

Mark

Então por que fazer isso?

Mimi

Porque capturar uma única fêmea já poderia fazer diferença. E se não tentarem nada, o problema só piora.

Luke

Verdade. Mas também estão estudando robalo e enguias. Ninguém sabe ainda qual será a solução real.

  • Caranguejo-azul causou perdas de 200 milhões de euros em toda a Itália
  • Projeto Octo-Blu liberou entre 80 mil e 130 mil filhotes de polvo desde junho
  • Caranguejo-azul originário do Atlântico Norte, chegou ao Mediterrâneo via água de lastro de navios
  • Polvo-comum é predador natural eficiente de crustáceos em seu habitat

O caranguejo-azul, originário do Atlântico Norte, devastou a produção de moluscos no nordeste italiano, causando perdas estimadas em 200 milhões de euros em todo o país. O projeto Octo-Blu libera polvos-comuns criados em laboratório, que são predadores naturais eficientes de crustáceos, em recifes submarinos com abrigos artificiais para aumentar sua sobrevivência.

Cientistas italianos soltam dezenas de milhares de filhotes de polvo no Mar Adriático para conter a população de caranguejos-azuis invasores, que causaram prejuízos de milhões de euros à indústria de mariscos.

No Mar Adriático, cientistas italianos estão executando um experimento ambicioso: soltar dezenas de milhares de filhotes de polvo nas águas para frear uma praga que vem devastando a indústria pesqueira local. O caranguejo-azul, um crustáceo voraz originário da costa atlântica norte-americana, chegou ao Mediterrâneo décadas atrás, provavelmente dentro da água de lastro dos navios, e desde então sua população explodiu. Agora, pesquisadores da Universidade de Bolonha apostam que o polvo-comum, um predador natural eficiente de crustáceos, pode ajudar a conter esse invasor que se tornou uma praga econômica.

Os números revelam a escala do problema. A região de Emilia-Romagna, no nordeste italiano, registrou prejuízos de quase 17 milhões de euros desde 2022 apenas em seu território. A Coldiretti, principal organização agrícola e pesqueira da Itália, estima que as perdas totais no país chegam a cerca de 200 milhões de euros. O Vêneto, também no norte, sofreu impactos severos. Davide Sanulli, um pescador e produtor de mexilhões de 64 anos que colabora com o projeto, descreve a situação com precisão: os caranguejos comem tudo, inclusive as jovens amêijoas que vivem no fundo do mar. Nas lagoas próximas ao delta do rio Pó, a destruição foi descrita como devastadora.

O culpado é um animal bem adaptado ao ambiente. Com pinças afiadas e tom azulado, especialmente eficazes para abrir conchas, esses caranguejos são excelentes nadadores capazes de atingir até um quilo. Têm poucos predadores naturais nas águas italianas, o que explica por que sua população cresceu tão rapidamente. O aquecimento das águas e as mudanças climáticas, segundo governo e associações de pescadores, aceleraram ainda mais essa explosão populacional.

O projeto Octo-Blu, lançado em 2024 e financiado pelo governo de Emilia-Romagna, tenta reverter essa dinâmica. A equipe cria filhotes de polvo em tanques de água em um laboratório na cidade portuária de Cesenatico. Quando estão prontos, os pequenos invertebrados são recolhidos aos milhares em grandes sacos plásticos e levados para o mar a bordo do robusto barco pesqueiro azul de Sanulli. Os filhotes são soltos próximos a recifes submarinos onde pesquisadores instalaram abrigos artificiais de cimento e argila para aumentar as chances de sobrevivência. Antonio Casalini, um dos pesquisadores, explica a lógica: o polvo foi escolhido porque em seu habitat natural é um predador extremamente eficiente de crustáceos. A ideia é formar uma pequena comunidade próxima à costa que possa conter com mais eficiência a expansão do caranguejo-azul.

Desde junho, dezenas de milhares de exemplares já foram liberados. A agência AFP informou inicialmente que cerca de 80 mil polvos haviam sido soltos, enquanto a revista Scientific American elevou posteriormente essa estimativa para aproximadamente 130 mil. A equipe espera dobrar esse número até o fim de agosto, com a esperança de que parte dos animais sobreviva até a fase adulta. Pietro Emmanuele, também pesquisador da Universidade de Bolonha, aponta um fator crucial: uma única fêmea de caranguejo-azul pode colocar milhões de ovos, e a maior parte deles chega a eclodir em filhotes. Capturar uma única fêmea já poderia fazer diferença no controle da população.

O projeto tem limitações claras que os próprios pesquisadores reconhecem. O polvo-comum normalmente não vive nas águas quentes e arenosas típicas das áreas lagunares onde o caranguejo-azul causa os maiores estragos. Seu impacto nessas regiões provavelmente seria limitado. Outros especialistas sugerem que o robalo poderia ser mais eficaz no controle da espécie. A equipe também estuda o uso de enguias, grandes consumidoras de ovos de crustáceos, como complemento à ação dos polvos. Ainda assim, caso o projeto-piloto seja ampliado, ele poderá ajudar a reduzir a população do caranguejo-azul e os impactos que vem causando ao ecossistema marinho da costa do Adriático.

Escolhemos o polvo porque, em seu habitat natural, ele é um predador extremamente eficiente de crustáceos
— Antonio Casalini, pesquisador da Universidade de Bolonha
Uma única fêmea pode colocar milhões de ovos, e a maior parte deles chega a eclodir em filhotes
— Pietro Emmanuele, pesquisador da Universidade de Bolonha
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