Na madrugada de uma terça-feira comum, a aldeia de Nyara, em Ituri, no nordeste da República Democrática do Congo, tornou-se mais um nome numa lista que não para de crescer: pelo menos dez civis, seis deles crianças, foram mortos por milicianos da FPIC, que saquearam e incendiaram casas antes de se dispersarem. O ataque insere-se num ciclo de violência comunitária que, só em 2021, já ceifou mais de duzentas vidas em mais de vinte e cinco aldeias da região. Ituri carrega décadas de conflito não resolvido, e cada massacre repete a mesma tragédia com uma crueldade que o mundo tem dificuldade em s
Pelo menos dez civis mortos em massacre de milícias na RDCongo
Os milicianos ainda estavam por perto quando os soldados chegaram
Por que é que o FPIC ataca aldeias civis? Qual é o objetivo real?
Oficialmente, dizem que defendem os interesses da comunidade Bira. Mas quando matas crianças e queimas casas, a defesa comunitária torna-se indistinguível da predação. O que vemos é controlo territorial através do terror.
As forças armadas congolesas não conseguem conter isto?
Chegam tarde. Um chefe local disse que a resposta foi tardia, que os milicianos ainda estavam por perto quando os soldados apareceram. Há uma sensação de que as autoridades não têm capacidade — ou talvez vontade — de proteger estas aldeias.
Isto é novo em Ituri?
Não. Entre 1999 e 2003, dezenas de milhares morreram num conflito entre comunidades. Levou uma força militar europeia para o parar. Agora, quase vinte anos depois, estamos a ver o mesmo padrão: milícias, massacres, comunidades destruídas.
Quantas pessoas morreram este ano?
Desde janeiro, mais de duzentas em Ituri e no Kivu Norte. Mais de vinte e cinco aldeias foram atacadas. Isto não é uma crise isolada — é um sistema de violência que se perpetua.
Como é que as comunidades sobrevivem a isto?
Sobrevivem porque não têm escolha. Reconstruem o que foi queimado. Enterram os mortos. E esperam que a próxima terça-feira seja diferente, sabendo que provavelmente não será.
Il Polso
- Milicianos da FPIC atacaram Nyara às quatro da manhã, matando entre dez e doze civis — metade deles crianças — e deixando casas em chamas e lojas saqueadas.
- As versões sobre o número de mortos divergem: a ONU confirma dez, o Barómetro de Segurança Kivu regista doze, e o Exército congolês admite apenas cinco — uma discrepância que revela tanto a confusão no terreno como a possível relutância oficial em reconhecer a escala da violência.
- As forças armadas congolesas chegaram tarde demais, com os milicianos ainda a rondar a área quando os soldados apareceram, enquanto um porta-voz militar tentava garantir que a situação estava 'sob controlo'.
- Desde o início de 2021, mais de vinte e cinco aldeias foram atacadas em Ituri e no Kivu Norte, num padrão de massacres que transforma o extraordinário em rotina e deixa comunidades inteiras sem proteção efetiva.
Na madrugada de uma terça-feira comum, a aldeia de Nyara, em Ituri, no nordeste da República Democrática do Congo, tornou-se mais um nome numa lista que não para de crescer: pelo menos dez civis, seis deles crianças, foram mortos por milicianos da FPIC, que saquearam e incendiaram casas antes de se dispersarem. O ataque insere-se num ciclo de violência comunitária que, só em 2021, já ceifou mais de duzentas vidas em mais de vinte e cinco aldeias da região. Ituri carrega décadas de conflito não resolvido, e cada massacre repete a mesma tragédia com uma crueldade que o mundo tem dificuldade em sustentar no olhar.
Antes do amanhecer de uma terça-feira, milicianos da Força Patriótica e Integracionista do Congo invadiram Nyara, uma aldeia no coração de Ituri, no nordeste da RDCongo. O ataque durou o suficiente para matar pelo menos dez pessoas — seis delas crianças —, saquear as lojas e incendiar as casas. O que ficou foi o silêncio pesado de uma comunidade destroçada.
A contagem de vítimas variou conforme a fonte. A missão da ONU no país confirmou dez mortos. O Barómetro de Segurança Kivu registou doze. O chefe local Batagura Zamundu, que falou com agências internacionais, também apontou doze mortos e quatro feridos. O Exército congolês ficou-se pelos cinco. A discrepância não é apenas técnica — reflete a opacidade que envolve estes eventos e, talvez, a resistência das autoridades em reconhecer a verdadeira dimensão da violência.
O FPIC apresenta-se como defensor da comunidade Bira, mas opera, como tantos grupos armados da região, numa zona cinzenta entre reivindicação política e criminalidade. Nyara não foi um caso isolado: desde janeiro de 2021, mais de vinte e cinco aldeias foram atacadas em Ituri e no Kivu Norte, com um saldo superior a duzentos mortos em poucos meses.
As forças armadas chegaram tarde. Zamundu lamentou a demora, notando que os milicianos ainda circulavam pela área quando os soldados apareceram. O tenente Jules Ngongo garantiu que a situação estava controlada — palavras que soam ocas quando as casas ainda ardem.
Ituri já viveu este pesadelo antes. Entre 1999 e 2003, um conflito comunal entre as comunidades Lendu e Hema matou dezenas de milhares de pessoas, até que uma força europeia liderada pela França interveio. Quase vinte anos depois, a região permanece presa no mesmo ciclo. O massacre de Nyara não é uma exceção que choca o mundo — é mais uma terça-feira sangrenta numa região onde isso se tornou, tragicamente, rotina.
Na madrugada de terça-feira, milicianos da Força Patriótica e Integracionaista do Congo invadiram a aldeia de Nyara, no coração da região de Ituri, no nordeste da República Democrática do Congo. O ataque começou às quatro da manhã. Quando terminou, pelo menos dez pessoas estavam mortas — seis delas crianças. As casas ardiam. As lojas tinham sido saqueadas. O que restava era o silêncio de uma comunidade traumatizada.
A contagem de vítimas variou conforme as fontes. A missão das Nações Unidas na RDCongo confirmou dez mortos. O Barómetro de Segurança Kivu, uma organização que mantém colaboradores na região, registou doze. Batagura Zamundu, um chefe local que falou com agências de notícias internacionais, também relatou doze mortos e quatro feridos. O Exército congolês, por sua vez, divulgou um número menor: cinco. A discrepância reflete a confusão que envolve estes eventos — e talvez também a relutância de autoridades em reconhecer a verdadeira escala da violência.
O FPIC é uma milícia que afirma defender os interesses da comunidade Bira. Como muitos grupos armados na região, opera numa zona cinzenta entre reivindicações políticas e criminalidade pura. O ataque a Nyara não foi um incidente isolado. Desde o início de 2021, mais de vinte e cinco aldeias foram atacadas em Ituri e na vizinha província do Kivu Norte. O saldo: mais de duzentas pessoas mortas em apenas alguns meses.
A resposta das forças armadas congolesas chegou tarde demais. Zamundu lamentou a demora, observando que os milicianos ainda rondavam a área quando os soldados finalmente apareceram. Um porta-voz militar em Ituri, o tenente Jules Ngongo, tentou minimizar o incidente, afirmando que a situação estava sob controlo. Mas as palavras de um oficial militar significam pouco quando as casas ainda ardem e os mortos ainda não foram enterrados.
Esta violência não é nova. Entre 1999 e 2003, Ituri foi palco de um conflito comunal que matou dezenas de milhares de pessoas. Naquela época, as comunidades Lendu e Hema combateram através de milícias rivais, até que uma força militar europeia, a Artemis, liderada pela França, interveio em 2003. Quase duas décadas depois, a região continua presa num ciclo de massacres e represálias. Em 2020 apenas, Bunia — a capital de Ituri — registou mais de dois mil mortos em incidentes violentos, de acordo com estatísticas divulgadas pela Igreja Católica congolesa.
O que torna Nyara particularmente perturbador é a sua banalidade dentro de um padrão maior. Não é um evento extraordinário que choque o mundo. É um massacre entre muitos, uma terça-feira sangrenta numa região onde as terças-feiras sangrentas se tornaram rotina. As crianças mortas não serão as últimas. As casas queimadas serão reconstruídas, apenas para serem queimadas novamente. E as milícias continuarão a operar, alegando defender comunidades que, na verdade, estão sendo destruídas.
Citazioni salienti
A situação está sob controlo— Tenente Jules Ngongo, porta-voz militar do Exército congolês em Ituri
Houve uma intervenção das forças armadas da RDCongo, mas tardia, e o inimigo ainda está por perto— Batagura Zamundu, chefe local