Em Cabo Delgado, província rica em gás no norte de Moçambique, a violência armada que assola a região desde 2017 voltou a ceifar vidas numa única noite: pelo menos sete pessoas morreram em dois ataques separados, nos distritos de Montepuez e Macomia, enquanto centenas fugiram pelas matas em busca de segurança. Estes episódios não são acidentes isolados, mas elos de uma cadeia de terror que já deslocou mais de um milhão de pessoas e que, segundo os dados mais recentes, se intensifica de ano para ano. O que acontece em Cabo Delgado é um lembrete de que as guerras esquecidas continuam a consumir
Pelo menos três mortos em ataque terrorista em Montepuez, Cabo Delgado
Todos fugiram pelas matas, cinquenta quilómetros até à segurança que talvez não exista
Por que é que Mirate foi atacada naquela noite específica? Havia algo que a tornasse um alvo?
Não há indicação de um motivo específico. Mirate é uma comunidade rural, vulnerável. Fica numa zona que os grupos rebeldes conseguem alcançar. Talvez seja apenas isso — oportunidade e capacidade.
E as sete pessoas raptadas em Macomia — o que costuma acontecer a pessoas raptadas por estes grupos?
Ninguém sabe. Desaparecem. Podem ser forçadas a juntar-se aos grupos, podem ser mortas, podem estar presas em algum lugar. O silêncio é parte do terror.
A estrada R692 liga dois distritos inteiros. Como é que as pessoas conseguem viajar se têm medo?
Viajam porque precisam. Porque não têm escolha. Mas viajam com medo constante, sabendo que podem ser atacadas. É uma forma de viver que a maioria de nós não consegue imaginar.
Porque é que o Estado Islâmico reclama estes ataques? Qual é o objetivo?
Propaganda. Mostrar força, mostrar que conseguem atacar onde querem. Cada reivindicação é uma mensagem — estamos aqui, somos capazes, vamos continuar.
O aumento de 36% em mortes de 2023 para 2024 — isso significa que a situação está a piorar?
Significa que sim. Significa que os ataques estão a ficar mais frequentes ou mais mortíferos, ou ambos. Significa que a capacidade de resposta não está a acompanhar a ameaça.
El Pulso
- Na noite de domingo, homens armados atacaram a comunidade de Mirate e a vila de Macomia com horas de diferença, matando pelo menos sete pessoas e raptando outras sete numa única madrugada de terror.
- Residentes de Mirate fugiram a pé por cinquenta quilómetros de mata densa para alcançar o posto administrativo de Nairoto, abandonando casas queimadas e tudo o que possuíam.
- O bairro Nanga, em Macomia — que acolhia deslocados internos de outras zonas da província — foi atacado perto da meia-noite, com vítimas baleadas dentro das próprias casas e famílias inteiras em fuga ainda durante a noite.
- A estrada R692, eixo vital entre Montepuez e Mueda, tornou-se rota de risco depois do ataque em Mirate, isolando ainda mais comunidades já fragilizadas.
- Os números de 2024 revelam um agravamento alarmante: 349 mortos num único ano, um aumento de 36% face a 2023, com o Estado Islâmico a reivindicar a maioria dos ataques e organizações humanitárias como a MSF a suspender operações por falta de segurança.
Em Cabo Delgado, província rica em gás no norte de Moçambique, a violência armada que assola a região desde 2017 voltou a ceifar vidas numa única noite: pelo menos sete pessoas morreram em dois ataques separados, nos distritos de Montepuez e Macomia, enquanto centenas fugiram pelas matas em busca de segurança. Estes episódios não são acidentes isolados, mas elos de uma cadeia de terror que já deslocou mais de um milhão de pessoas e que, segundo os dados mais recentes, se intensifica de ano para ano. O que acontece em Cabo Delgado é um lembrete de que as guerras esquecidas continuam a consumir vidas muito depois de o mundo desviar o olhar.
Na noite de domingo, por volta das sete da tarde, homens armados irromperam pela comunidade de Mirate, no distrito de Montepuez, sul de Cabo Delgado. Três pessoas foram mortas de imediato. Os insurgentes queimaram casas e deixaram para trás uma comunidade em fuga — os residentes saíram a pé pelas matas, percorrendo cerca de cinquenta quilómetros até à sede do posto administrativo de Nairoto. "Mataram três pessoas em Mirate durante a noite de domingo. Todos fugiram", confirmou uma fonte local à agência Lusa.
A violência não ficou por ali. Horas depois, já perto da meia-noite, o bairro Nanga, na vila de Macomia, foi atacado. O bairro acolhe pessoas deslocadas de outras zonas da província — gente que já fugiu uma vez e que voltou a ser surpreendida dentro de casa. Quatro pessoas morreram baleadas, uma foi hospitalizada e sete foram raptadas. Ninguém sabe onde estão. Famílias inteiras abandonaram as suas casas ainda naquela noite.
O ataque em Mirate lançou também uma sombra sobre a estrada R692, que liga Montepuez a Mueda em duzentos quilómetros de terra batida. A comunidade fica precisamente naquela via, e qualquer viajante ou comerciante que precise de a usar sabe agora que o perigo é concreto.
Cabo Delgado enfrenta uma rebelião armada desde 2017. Oito anos de violência contínua, milhares de mortos e mais de um milhão de deslocados. Em 2024, pelo menos 349 pessoas morreram em ataques no norte de Moçambique — um aumento de 36% face ao ano anterior, segundo o Centro de Estudos Estratégicos de África. O Estado Islâmico reivindicou recentemente um ataque no distrito de Chiúre, onde alegadamente incendiaram duas igrejas. A Médicos Sem Fronteiras suspendeu atividades em algumas zonas por falta de condições de segurança. A violência acelera, e não há sinais de que vá abrandar.
Na noite de domingo, por volta das sete da tarde, homens armados entraram disparando na comunidade de Mirate, no distrito de Montepuez, sul de Cabo Delgado. Três pessoas foram mortas nos primeiros momentos do ataque. Os insurgentes não pararam ali — queimaram casas, um número que ninguém conseguiu precisar, e deixaram para trás uma comunidade em fuga. Os residentes saíram a pé pelas matas, percorrendo cerca de cinquenta quilómetros até chegar à sede do posto administrativo de Nairoto, onde esperavam estar seguros. "Mataram três pessoas em Mirate durante a noite de domingo, na aldeia. Todos fugiram", disse uma fonte local à agência Lusa. O medo não era infundado — os atacantes não davam trégua, e as pessoas simplesmente abandonaram tudo.
O ataque em Mirate criou uma onda de apreensão que se estendeu para além da comunidade. A estrada R692, que liga Montepuez a Mueda num trajeto de duzentos quilómetros por terra batida, tornou-se uma rota de risco. Mirate fica precisamente naquela via, e agora qualquer carro que passa por ali é uma possível alvo. Os comerciantes, os viajantes, qualquer um que precise usar aquela estrada sabe que o perigo é real.
Mas Mirate não foi o único lugar atacado naquela noite. Horas depois, já perto da meia-noite, homens armados entraram na vila de Macomia, no bairro Nanga — um bairro que acolhe pessoas deslocadas de outras zonas da província. Desta vez, as vítimas foram surpreendidas dentro das suas casas e baleadas. Quatro pessoas morreram. Uma ficou ferida e foi levada para o hospital. E então, os atacantes raptaram sete pessoas. Ninguém sabe onde estão. O bairro inteiro ficou em pânico. Algumas famílias abandonaram as suas casas naquela mesma noite.
Estes ataques não são isolados. Cabo Delgado, uma província rica em gás no norte de Moçambique, enfrenta uma rebelião armada desde 2017. Oito anos de violência contínua. Milhares de mortos. Mais de um milhão de pessoas deslocadas das suas casas. A província inteira vive sob o peso desta guerra que não termina. Os distritos de Chiúre, Muidumbe, Quissanga, Ancuabe e Meluco já foram alvos. Mocímboa da Praia também. E agora Montepuez e Macomia. A organização Médicos Sem Fronteiras suspendeu as suas atividades em algumas zonas porque a segurança não existe mais.
O grupo extremista Estado Islâmico reivindicou um dos ataques recentes — desta vez numa aldeia do distrito de Chiúre, na sexta-feira. Segundo a sua propaganda, incendiaram duas igrejas e outras propriedades, matando o que chamam de "cristãos". É um padrão que se repete: ataques contra comunidades, destruição de infraestruturas, morte de civis.
Os números falam por si. Em 2024, pelo menos trezentas e quarenta e nove pessoas morreram em ataques no norte de Moçambique. A maioria dos ataques foi reivindicada pelo Estado Islâmico. Isto representa um aumento de trinta e seis por cento face a 2023, segundo um estudo do Centro de Estudos Estratégicos de África, uma instituição académica ligada ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos. A violência está a acelerar, não a diminuir.
O que acontece agora em Montepuez e Macomia é apenas o reflexo de uma crise muito maior. Cada ataque desloca mais pessoas. Cada morte deixa famílias destruídas. Cada rapto deixa incerteza e desespero. A província continua a arder, e não há sinais de que isto vá parar em breve.
Citas Notables
Mataram três pessoas em Mirate durante a noite de domingo, na aldeia. Todos fugiram.— Fonte local em Montepuez
As pessoas fugiram porque não estavam a dar trégua. Com aquele medo as pessoas acabaram abandonando a comunidade.— Fonte local