Num domingo de novembro, na localidade rural de Guliso, no coração da região etíope de Oromia, homens armados abriram fogo sobre civis reunidos à força, deixando pelo menos trinta e dois mortos — entre eles crianças — e uma comunidade em cinzas. O ataque expõe as fraturas profundas de um país onde a identidade étnica, inscrita na própria arquitetura do Estado federal, se tornou tanto escudo como arma. Enquanto autoridades e sobreviventes divergem sobre os culpados e os números reais, a Etiópia enfrenta uma vez mais a pergunta que não consegue responder: como construir uma nação quando as suas
Pelo menos 32 civis mortos em ataque na região etíope de Oromia
Duzentas pessoas reunidas e depois disparos começaram
O que torna este ataque diferente de outros conflitos étnicos que a Etiópia tem enfrentado?
A escala e a brutalidade — reunir duzentas pessoas e disparar contra elas — mas também o facto de as autoridades e os sobreviventes contarem histórias completamente diferentes sobre quem fez isto e porquê. Isso revela o quão fraturado o país está.
Porque é que o sistema federal baseado em línguas criou este tipo de divisão?
Porque transformou a identidade étnica em geografia política. Se você é amara e vive em Oromia, é automaticamente um forasteiro num sistema que dá poder aos habitantes locais. Isso cria uma hierarquia de pertença.
O Exército de Libertação de Oromo negou envolvimento?
Não respondeu. Manteve silêncio, como tinha feito antes. Mas o governo responsabiliza-o por uma série de ataques semelhantes — assassínios, bombardeamentos, raptos. O padrão é claro, mesmo sem confirmação.
A União Europeia pode realmente influenciar o que acontece na Etiópia?
Pode oferecer pressão diplomática e condicionar apoio, mas o que realmente importa é se as partes internas estão dispostas a dialogar. Borrell pediu diálogo inclusivo, mas ninguém estava a ouvir naquele domingo em Guliso.
Qual é o risco real se isto continuar?
Desestabilização não apenas da Etiópia, mas de toda a região. Quando um país fragmenta-se por linhas étnicas desta forma, o conflito tende a alastrar. E as eleições de 2021 que Borrell mencionou — como é que se realizam num país onde grupos étnicos estão a matar-se uns aos outros?
The Pulse
- Homens armados reuniram cerca de duzentas pessoas em Guliso e abriram fogo, matando pelo menos 32 civis — incluindo crianças — e raptando outros, enquanto casas e uma escola ardiam.
- Sobreviventes contam mais de cinquenta corpos no chão e descrevem a retirada inexplicável dos soldados estacionados na área momentos antes do massacre.
- As autoridades de Oromia acusam o Exército de Libertação de Oromo, mas testemunhos no terreno apontam para um ataque deliberado contra a etnia amara, aprofundando a desconfiança entre comunidades.
- O primeiro-ministro Abiy Ahmed condenou os assassínios étnicos e enviou forças de segurança, mas o silêncio do grupo armado acusado deixa a narrativa oficial sem confirmação nem refutação.
- A União Europeia alertou que a instabilidade ameaça toda a região e exigiu diálogo nacional inclusivo, lembrando que eleições credíveis em 2021 dependem do respeito pelos direitos humanos e pelo Estado de direito.
Num domingo de novembro, na localidade rural de Guliso, no coração da região etíope de Oromia, homens armados abriram fogo sobre civis reunidos à força, deixando pelo menos trinta e dois mortos — entre eles crianças — e uma comunidade em cinzas. O ataque expõe as fraturas profundas de um país onde a identidade étnica, inscrita na própria arquitetura do Estado federal, se tornou tanto escudo como arma. Enquanto autoridades e sobreviventes divergem sobre os culpados e os números reais, a Etiópia enfrenta uma vez mais a pergunta que não consegue responder: como construir uma nação quando as suas fundações dividem mais do que unem.
No domingo, em Guliso, uma localidade rural da região etíope de West Wollega, homens armados reuniram à força cerca de duzentas pessoas e começaram a disparar. O massacre deixou pelo menos trinta e dois civis mortos — mulheres, crianças, idosos —, dezenas de casas queimadas, uma escola destruída e um número desconhecido de raptados. A Comissão Etíope dos Direitos Humanos admitiu que o balanço real era provavelmente superior ao oficial.
As autoridades de Oromia responsabilizaram o Exército de Libertação de Oromo, uma facção armada dissidente, acusando-a de semear terror e pressão psicológica sobre a população. Os sobreviventes, porém, descreveram um alvo étnico claro: a comunidade amara. Um testemunho relatou como os soldados estacionados na área se retiraram subitamente antes do ataque, deixando os civis desprotegidos. Outro contou mais de cinquenta corpos espalhados pelo chão. O Movimento Nacional Amara, partido da oposição, avançou com um número ainda mais elevado de vítimas, reconhecendo a dificuldade em apurar dados precisos.
A Etiópia organiza o seu sistema federal em torno de línguas e etnias — os oromo são o grupo mais numeroso, os amara o segundo. Esta estrutura, concebida para dar representação local, criou em vez disso um terreno propício ao conflito, onde as minorias que vivem fora das suas regiões de origem são frequentemente vistas como forasteiras e se tornam alvos recorrentes.
O primeiro-ministro Abiy Ahmed condenou publicamente os assassínios étnicos e anunciou o envio de forças de segurança, acusando os inimigos da Etiópia de armar civis para ataques bárbaros. O Exército de Libertação de Oromo manteve o silêncio, como já fizera perante acusações anteriores. A União Europeia, pela voz de Josep Borrell, apelou à redução de tensões, ao abandono da linguagem inflamatória e a um diálogo nacional inclusivo, advertindo que a desestabilização ameaçava não apenas a Etiópia, mas toda a região — e que a força nunca poderia substituir a política.
No domingo, numa zona rural da Etiópia conhecida como Guliso, na região de West Wollega, homens armados reuniram cerca de duzentas pessoas e começaram a disparar. O que se seguiu foi um massacre que deixaria pelo menos trinta e dois civis mortos — mulheres, crianças, idosos — e dezenas de casas reduzidas a cinzas. Uma escola foi queimada. Pessoas foram raptadas. Os números oficiais falam de trinta e dois mortos, mas a Comissão Etíope dos Direitos Humanos admitiu que o verdadeiro número de vítimas era provavelmente mais elevado.
As autoridades de Oromia apontaram o dedo ao Exército de Libertação de Oromo, uma facção armada dissidente, acusando-o de perpetrar um ataque terrorista com o objetivo de semear caos e exercer pressão psicológica sobre a população. Mas os sobreviventes contaram uma história diferente. Segundo relatos recolhidos por agências de notícias, a etnia amara era o alvo. Um dos sobreviventes descreveu como o grupo armado reuniu as pessoas e depois abriu fogo. Outro testemunhou a retirada súbita dos soldados que estavam estacionados na área, deixando os civis desprotegidos. Contou mais de cinquenta corpos espalhados pelo chão.
A Etiópia é um país dividido por linhas étnicas profundas. Os oromo são o grupo étnico mais numeroso; os amara são o segundo. O sistema federal do país organiza-se em torno de línguas e regiões — os falantes oromo vivem principalmente em Oromia, os falantes amáricos na região de Amara. Esta estrutura, pensada para dar voz local aos habitantes, gerou em vez disso um terreno fértil para conflito. Os amara que vivem fora da sua região são frequentemente vistos como forasteiros, alvo de ataques repetidos. O Movimento Nacional Amara, um partido da oposição, afirmou que pelo menos duzentos amara foram mortos no ataque de domingo, embora reconhecesse a dificuldade em estabelecer números precisos.
O primeiro-ministro Abiy Ahmed condenou o que chamou de assassínios baseados na etnia. Numa publicação nas redes sociais, descreveu os inimigos da Etiópia como prometendo governar o país ou arruiná-lo, e acusou-os de armar civis para realizar ataques bárbaros. Anunciou que forças de segurança foram enviadas para a região. O Exército de Libertação de Oromo não comentou as acusações, mantendo um silêncio que já tinha mantido perante alegações semelhantes no passado. A facção é responsabilizada pelo governo por uma série de assassínios, bombardeamentos, assaltos a bancos e raptos em toda a região de Oromia.
A União Europeia reagiu com preocupação. Josep Borrell, o alto representante para a Política Externa, apelou a todas as partes para reduzirem a tensão, eliminarem a linguagem inflamatória e evitarem deslocações militares provocatórias. Advertiu que o risco de desestabilização não era apenas para a Etiópia, mas para toda a região. Borrell insistiu que a única forma de avançar era através de um diálogo nacional inclusivo, defendendo o Estado de direito e os direitos humanos como garantias para eleições livres e credíveis em 2021. A coerção ou a ameaça da força, disse, nunca poderiam ser uma alternativa.
Notable Quotes
Os números oficiais indicam 32 mortos, mas informações preliminares sugerem que o número real é suscetível de exceder esta contagem inicial— Comissão Etíope dos Direitos Humanos
Os amara residentes fora da região de Amara estão a ser rotulados como forasteiros e expostos a ataques repetidos— Dessalegn Chanie, Movimento Nacional Amara